| PEIXE
À JOÃO MORENO
Trecho
do livro Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno,
de Walter de Aguiar Filho. Veja
mais aqui.
Vou
fazer para vocês uma receita que aprendi com um
pescador antigo da Ilha do Taiti. É conhecida
como Peixe à João Moreno - disse Miguel.
- Como é a receita? - interessou-se Krikati.
- Vou seguir à risca, mas primeiro vamos pegar
o peixe. Clê, enquanto eu racho a lenha e cato
galhos secos de arbustos para acender o forno de barro,
vá com Krikati lá no Serrote ou nos três
Saltos, que são bons pesqueiros. Vocês
não vão perder a viagem.
- Qual é a melhor isca, Tio Miguel?
- Krikati, pegue aqueles carangueijinhos que dão
nas pedras. São ótimos! "É
botar e bater!"
Miguel, com seu machado afiado, ficou rachando lenha
para acender o forno de barro, alimentando as criações
e, também, preparando a mesa no quintal. Tudo
isso ao som do canto de um sanhaço. A vitrola
natureza tocava dia e noite.
Depois de algum tempo, reapareceram na Praia do Bananal
Krikati e Tio Clê, com um belo sargo de fita de
quase dois quilos e alguns outros berés.
- Miguel - disse Tio Clê - fomos e cumprimos nossa
tarefa. Não voltamos "batendo carroceria".
Aqui está o peixe. Agora queremos conhecer a
receita de João Moreno.
- Tudo bem, pessoal. Mãos à obra! Krikati,
pegue uns dois quilos de sal nas rachaduras das pedras.
Clê, pegue quatro ovos no galinheiro, quebre os
ovos, misture no sal, envolva o peixe todo nessa massa
e coloque no forno de barro, que já está
aquecido.
Depois de quase uma hora...
- Clê, acho que o peixe está no ponto.
Sinta o cheirinho.
- Então, chegou a hora de retirá-lo do
forno e comer.
- Pôxa vida, Tio Miguel, esse peixe parece que
está envolvido numa capa de vidro!
- A idéia é essa, Krikati. O ssal é
um ótimo condutor de energia e os ovos servem
para dar liga à massa que envolve o peixe. À
medida que a temperatura vai subindo, a capa em que
o peixe está envolvido quase vira uma pedra em
brasa, assando o peixe todo por igual e dando um sabor
peculiar.
Miguel
dobrou duas folhas de bananeira em vários pequenos
pedaços e, segurando uma em cada mão,
retirou a travessa do forno de barro, colocando-a sobre
a mesa junto à farinha. Numa tigela, pôs
o caldo do peixe e amassou sementes vermelhas de aroeira.
Fez um molho especial que deu ao peixe um paladar exótico
à la João Moreno.
-
Pronto, pessoal. Agora, é só quebrar essa
capa de sal e comer.
|