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Prainha:
400 Anos
Trecho
transcrito do:
Suplemento
Especial do Jornal A Gazeta (26/09/94)
Ao longo dos séculos, Vila Velha ficou praticamente
à sombra da capital. Abandonada à própria
sorte, sobreviveu aos traumas dos primeiros anos, quando a
maior parte de sua população fugiu para Vitória.
Em 1828, quase três séculos depois de povoada,
Vila Velha tinha apenas 1.250 habitantes. Era menor que Nova
Almeida, com 1.734, ou de Itapemirim, com 1.835. Sua vizinha
Vitória estava com 12.704 moradores.
Durante mais de 400 anos, Vila Velha se manteve praticamente
ao redor da Prainha. A mais antiga vila do Espírito
Santo estava predestinada ao segundo plano. Na década
de 40 do século XX não havia sequer o que se
chamava de ginásio (hoje 5ª a 8ª série)
no outro lado do continente. Os estudantes tinham que vir
a capital. Os moradores do continente dependiam de Vitória
para quase tudo. Todas as ruas eram de areia, inclusive o
centro da cidade.
Panorâmica
Ao lado do colégio Marista havia um mangue, com duas
pontes: a velha e a nova. Tinha também dois campos
de futebol, um do Atlético e outro do Olímpico.
Naquela época foi construído o canal da Costa,
que muitos pensam ser um córrego natural. O canal da
Costa, hoje puro esgoto diluído em água da chuva,
foi uma construção feita para drenar um alagado
chamado de “maternidade de pernilongo”.
O primeiro calçamento foi na Jerônimo Monteiro,
época da construção da residência
oficial do governador na Praia da Costa. A partir daí,
as praias dos canelas-verdes começaram a atrair moradores
de fora. Um dos primeiros foi o médico Dório
Silva. Hoje, a exploração imobiliária
toma conta da orla.
Para chegar a Vitória, o morador de Vila Velha tomava
um bonde na prainha até o cais de Paul, onde embarcava
na lancha. Os dois serviços de transporte eram operados
pela Companhia Central Brasileira de Força Elétrica.
A ponte Florentino Avidos era praticamente ignorada pelos
usuários de bondes e lanchas. Em Vitória, os
barcos deixavam os passageiros no Centro e no cais Dom Bosco,
onde mais tarde foi aberta a avenida Beira Mar.
O vai-e-vem entre continente e ilha fazia parte do cotidiano
dos canelas-verdes. Tudo era em Vitória, incluindo
pagamentos de contas de luz e telefone. Uma das construções
fundamentais da vida da cidade era o 3º Batalhão
de Caçadores (3º BC), atual 38º Batalhão
de Infantaria, do Exército, que mais tarde ganhou a
companhia da Escola de Aprendizes-Marinheiros.
Algumas famílias tradicionais detinham grandes áreas
de terras, mais tarde vendidas para loteamentos. Uma das principais
proprietárias era a família Motta, que morava
num sítio cheio de cajueiros ao pé do Morro
do Moreno. Dona praticamente de todos os terrenos da avenida
Champagnat até a Praia da Sereia (final da Praia da
Costa), que leva esse nome porque o pintor Lúcio Bacellar
pintou uma sereia na parede de um bar que ele montou.
Anos depois, um vizinho se instalava por lá. Era Gastão
Roback, que criou na Sereia o Clube dos 40, já desativado.
A figura mais folclórica da Praia da Costa era João
Rita, que bebia com regularidade e vivia de donativos.
Em Itapoã, a família Mascarenhas possuía
muitas terras, que só adquiriu valor comercial mais
tarde, quando boa parte foi comprada pela Sociedade Vila da
Penha, de Edgar Rocha. Em Itaparica eram os Setúbal.
Mais tarde, toda a área do Coqueiral foi comprada por
Armando de Oliveira Santos.
O Santuário da Penha sempre
atraiu romeiros que chegavam em caminhões, principalmente.
Era isso que agitava a cidade.
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