| Estranhos
hábitos Portugueses
Trecho
transcrito do Livro:
Ecos
de Vila Velha
Autor: José Anchieta de
Setúbal
Pág.: 19 a 24
A desobediência e a preguiça no
desenvolvimento dos trabalhos de levantamento das moradias
inaugurais e abertura de clareiras na densa mata para receberem
as primeiras culturas de subsistência levariam capitão-mor
a autorizar aos seus lugar-tenentes agirem com severidade
em caso de descumprimento de ordens dadas a esses trabalhadores
semi-escravizados. O castigo mais temido por eles era o banho
de mar forçado, estando vestidos em seus trajes maltrapilhos.
Nem era um banho propriamente dito e sim um lançamento
ao mar.
É bom lembrar que entre os portugueses, como a maioria
dos europeus sem exceção, até o começo
do século XVIII ou um pouco mais, o hábito do
banho não era cultivado quanto mais entre os serviçais.
O máximo que poderiam fazer seria um escalda-pés,
assim mesmo como remédio. Para melhorarem o aspecto,
trocavam uma roupa por outra menos suja ou por uma nova. Disso
já se fizeram registros dizendo-se dos nobres: “bem
vestidos, mas fedorentos!”
E os nossos descobridores não escaparam à regra
quase que geral. Já os franceses, na mesma situação,
criaram perfumes mais fortes, concentrados e duradouros, feitos
com essências importadas das Índias. Alimentavam,
esses povos, a crendice de que o banho era prejudicial ao
corpo e à saúde, orientados pelos doutores da
época, segundo os quais a limpeza da pele proporcionaria
a abertura dos poros e assim livre entrada às doenças.
Sem o banho a epiderme virava um blindado coscorão.
Como pensar nesses povos explorando a sexualidade? Com certeza,
o ato sexual não teria o mesmo encanto, os mesmos jogos
preliminares que hoje se fazem presentes até a consumação.
Estava mais voltado para o período fértil da
fêmea quando ela se mostrava mais ardente. O cio, por
assim dizer. O macho, como um animal irracional, percebia,
com o seu faro, o momento propício ao acasalamento
com a fêmea mais receptiva.
Por certo o cheiro que homem e mulher exalavam funcionariam
como um tempero, um atrativo para que melhor se entendessem
nas suas relações amorosas. Não desfrutavam
eles, cremos, do mesmo fetiche de hoje, do prazer proporcionado
por uma pele limpa, macia, asseada, cheirosa, numa simbiose
envolvente dos corpos enlevando até a alma, morada
certa do prazer, do amor sensual, característica que
diferencia do homem do animal irracional.
Ainda sobre os nobres, com relação ao seu comportamento,
ao trato e asseio dos seus corpos, alguns pesquisadores abordaram
esse assunto mencionando algumas personalidades. É
o caso de Elizabeth I, rainha da Inglaterra por volta dos
anos de 1563 a 1603. Contam que essa soberana tinha por hábito
tomar banho uma vez por mês, e que por esse costume,
considerado extravagante, chamava a atenção
na corte. De Luiz XIII, da França, contam ter tomado
o seu primeiro banho aos sete anos de idade, enquanto Luiz
XIV, por recomendação médica, teria feito
isso somente aos oito anos. Há registros de que Luiz
XIV teria interrompido esse banho acometido de forte dor de
cabeça. No entanto, segundo informam os pesquisadores,
as crianças nobres trocavam de roupas diariamente e
até três vezes por dia.
Luiz XIV, quando apresentado pelo seu pai, Luiz XIII, à
noiva que no futuro dividiria com ele o trono da França,
exalaria um forte mau cheiro, fazendo com que a moça
desmaiasse durante a apresentação formal. Os
interessados na formalização do compromisso
trataram de abrandar o vexame, atribuindo o desmaio da noiva
à surpresa que tivera com a elegância e desenvoltura
do noivo.
Considerando essas informações é de pensar
que o castigo a que nos referimos, infligido aos que desobedeciam
às ordens dos seus mandantes, era considerado por demais
severo. O castigo deveria ser, além de doloroso, humilhante.
Os nossos colonizadores, longe da corte de Portugal, preconizaram
o banho como uma terapia saudável ao corpo. Nisso,
miraram-se nos primeiros habitantes de nossa terra, os índios.
Constataram, ao trazê-lo mais para perto de si, com
a dominação deles, pela catequese e ainda como
serviçais, que os índios tomavam banho até
mais de uma vez por dia, dependendo da sua vontade ou por
conta do calor. Serviam-se da água doce abundante destes
brasis, nos rios, igarapés, corredeiras, lagos e na
água em queda das cachoeiras. Nem por isso eram acometidos
de males maiores. Pelo contrário. Muito fortes, troncudos,
nus, tinham suas peles expostas limpas e luzidias, enquanto
os portugueses, embaixo de roupas suarentas, mal lavadas,
conservavam suas epidermes sujas, sensíveis ao sol
e de odor nada agradável. Aos poucos foram aderindo
a estes hábitos salutares, mesmo que do sabão
não fizessem uso.
É de pensar no pavor desses trabalhadores colonos,
na condição de semi-escravos, obrigados a banhos
por lançamento na prainha de Vila Velha, isso em 1535.
Na reincidência, o banho seria infligido com os individuas
completamente nus. As vestes lhes seriam arrancadas à
força, na praia e na presença de quantas pessoas
lá estivessem. A determinação passou
a ser cumprida. E não tardou muito que um desses infelizes
castigados caísse na desgraça da reincidência.
Sem dó nem piedade, com espectadores mórbidos
e exultantes, num balanço seguido de forte impulso,
foi o sentenciado atirado ao mar como viera ao mundo –
nu.
Conta-se que, nem bem submergiu, subiu rápido agarrado
a uma espessa camada de algas que instintivamente, por pudor,
puxou para cobrir os seus órgãos genitais. O
seu gesto pudico causou-lhe imensa dor, o que teria demonstrado
num gripo lancinante. Ao comprimir as algas contra o seu porco
nas suas partes íntimas, comprimira também um
punhado de camarões que nessas algas tinham o seu habitat.
O que lhe provocou a dor foram as lancetas afiadíssimas
e penetrantes que estão dispostas sobre as cabeças
desses crustáceos. Um desses camarões foi arrancado
pelo pobre homem da sua virilha e mostrado como prova da descoberta
involuntária que fizera. A notícia logo se espalhou
e não demorou muito para que os moradores da nova terra
acrescentassem ao seu modesto cardápio o saboroso camarão
de água salgada. Esses camarões poderiam ser
saboreados pelos moradores de Vila Velha ainda hoje, mesmo
que em menor quantidade pela continuada pesca, não
fosse o aterro da Prainha a pretexto do desassoreamento do
canal em direção à baía e ao porto
de Vitória.
|