|
O
Rio da Costa
Fonte:
Livro
ECOS DE VILA VELHA
Autor: José Anchieta de Setúbal
Pág. 128/140
O rio da Costa não tinha características que
nos permitissem chamá-lo de rio, mas para Vila Velha
e os seu moradores fora muito importante pela sua flora e
fauna e o equilíbrio do ecossistema sustentado. Muitos
peixes, crustáceos e outras espécies que vivem
no mar subiam a sua pequena foz, rio acima, para procriar
nas suas águas remansosas e alagadiças. Criados
seletivamente, voltavam ao mar de onde eram originários.
Ao pressentirem a época da procriação,
instintivamente retornavam ao lugar de onde eram egressos,
recomeçando tudo de novo, nesse infinito ciclo de vida
da reprodução da espécie, ordenado pela
natureza.
Infelizmente, os seres vivos do mar que se multiplicavam no
rio da Costa, com a destruição dos manguezais
e descaracterização desse rio de águas
puras e límpidas, que se tornou um valão sujo
e fétido idealizado pelo homem, saíram perdendo
e perdeu o mar, o parceiro dessa cadeia de vida marinha.
Em seu lugar, desprezível para o mar, há um
rio morto, um canal. Enquanto rio, no seu leito serpenteavam
suas águas por mais de quatro quilômetros, desde
o nascedouro até a foz no lugar denominado Barrinha,
entre o morro do Moreno, onde
mais se aconchegava, e o do Convento
da Penha.
Seu
Nascedouro
O
rio da Costa nascia no Poço do Apicum, às margens
da estrada de Vila Velha à Barra do Jucu, hoje avenida
Professora Francelina Carneiro Setúbal. Passando nessa
via sob um pontilhão de madeira, adentrava os terrenos
dos Setúbal, encoberto por ingazeiras, almesqueiras,
arcos-de–barris e outras vegetações nem
sempre contínuas, prosseguia na sua caminhada pra,
meio quilômetro à frente, depois de curvar suavemente
para o lado norte ao deixar o sentido de oeste para leste,
numa linha reta arestada, entrava nos domínios dos
herdeiros de Emília Tesch Mascarenhas, passando ao
largo da lendária Pedra da Onça.
A
Pedra da Onça
Dando-se
asas à imaginação e retrocedendo-se no
tempo é de se pensar que naquela região predominava,
intocável, uma porção da Mata Atlântica.
Nessa floresta virgem os felinos deviam demarcar o seu território.
Isso acontecido, por certo, o topo dessa pedra serviria de
ponto a alguma onça pintada após dias chuvosos
ou depois de seu repasto e nessas ocasiões especiais
devia relaxar ao sol ou refestelar-se de bucho cheio.
A partir do largo da Pedra da Onça o rio ia-se alargando
com mais de quinze metros de boca. A partir daí recebia
a penetração, com mais intensidade, da água
salgada, só passando esta para doce nas grandes chuvadas
com enchentes, pelo transbordamento do rio Jucu, pelo lado
norte, doze quilômetros acima. Nessas enchentes as águas
permaneciam doces até a sua embocadura e ainda mar
a dentro.
Sítio
do Batalha
Continuando
no seu deslocamento, o rio da Costa chegava ao sítio
do Batalha. Nesse trecho definido pela aparição
da água do mar, os mangues começavam a vicejar
e os sinais de vida nova eram evidenciados. Os moluscos, como
berbigões, canivetes, amêijoas e sururus do mangue,
medravam no seu leito e nas suas margens. Da mesma forma,
as ostras nos troncos e nas raízes aéreas dos
mangues.
Com esses sinais de vida em ebulição, o pequeno
rio, tão importante que fora para Vila Velha, encostava-se
pelo lado sul no morro do Batalha.
Variadas
Espécies
Caranguejos,
aratus, sapateiros, espera-marés, dorminhocos, sabaquabas,
goiamuns e tantos outros. No seu leito, siris se arrastavam
pelo fundo, despachando-se rápidos se notados ou ainda
enterrando-se na areia ou lama ao seu alcance, num escape
que lhes parecia seguro. O camarão do lameirão,
a partir desse pedaço, já tinha o seu habitat.
Os peixes – robalos, tainhas, caratingas e outros –
já dividiam também esse pedaço.
Sua
Majestade, o Caranguejo
Os
manguezais se alastravam e ocupavam ambas as margens do rio,
que ficavam cobertas nas cheias das marés, nas suas
bases e nas ramagens mais baixas, só terminando essa
densa vegetação, nas proximidades de Barrinha,
às vezes interrompida numa intermitência diminuta,
quando os seus lados estavam tomados por pedras, pedreiras
e pedaços de poços dos quintais da rua Luíza
Grinalda, com os quais fazia fundos. Esses manguezais, de
um verde muito vivo, formavam no seu conjunto um matizado
com as folhagens escuras e claras, ora arbustos, ora árvores.
Suas copas serviam de nidificação a muitas espécies
de aves, inclusive papagaios, que ocupavam os ocos dos troncos
dos mangues vermelhos, isso em épocas mais remotas.
Abaixo, no solo, além dos inúmeros crustáceos,
o rei dos manguezais, sua majestade o caranguejo, surgia abundantemente,
aos milhares, dos respectivos buracos feitos na lama, e os
mais desconfiados na lama e no emaranhado das raízes,
dificultando a cata ou a caça dos seus predadores naturais,
nesse rol o homem, sem dúvida, o mais implacável.
Suas cores, as mais variadas, suplantavam as de qualquer outro
crustáceo. De casco escuro, quase preto; de casco amarronzado,
forte ou mais claro; de casco amarelo, verde ou azul, com
suas nuanças acentuadas ou suaves, desse jeito existiam
os caranguejos do rio da Costa, não se levando em conta
o seu sabor inigualável e tamanho avantajado para os
de maior porte, diferentes nas suas cores, inconfundíveis
na sua aparência ou formato. Como também o são
no alimento que consumiam e consomem em outras paragens –
a folha do mangue. A natureza, por essa preferência,
desenhou-lhe na extensão de cada lado do seu casco,
na ponta e na longitudinal, a folha desse vegetal que o alimenta
e marca como um longitudinal, a folha desse vegetal que o
alimenta e marca como um estigma da sua existência.
Nós, quando menino, examinando de perto esse animalzinho,
ficamos fascinados com os desígnios da natureza, descobrindo
essa impressão. Não satisfeito, buscamos nos
certificar ao longo dos anos, sempre que a oportunidade se
nos ofereceu para exibir a todos quantos os catavam e os consumiam,
buscando dessas pessoas a constatação desse
desenho e delas recebendo plena afirmação. Por
certo, para a ciência e os estudiosos da matéria
isso não é uma novidade, falta apenas quem dê
uma explicação científica.
Mangue
Vermelho
Além
da extração indiscriminada das madeiras, havia
uma outra mais letal para o mangue, e que também era
posta em prática pelos pescadores: o mangue vermelho,
cuja casca fornece um corante apropriado para o tingimento
de redes, tresmalhos, tarrafas, puçás, arpoeiras
etc., sendo empregada também nos curtumes para tingimento
e conservação do couro. Nessa extração,
tronco e hastes bem formados eram cortados no cerne, e a árvore,
sem a circulação da seiva, acabava morrendo.
É de se perguntar: para extrair a casca haveria necessidade
de mutilar por completo o mangue? Sim e não. Sim, por
que a tinta extraída da casca após o seu cozimento
e aplicada aos aparelhos de pesca deixava-os mais resistentes,
preservando-os por mais tempo. Não, porque essa mutilação
podia ser evitada, bastando que no corte não se roletasse
todo o tronco ou haste. Mesmo prejudicada, a circulação
da seiva seria ainda suficiente para manter o mangue vivo,
encarregando-se o tempo de cicatrizar e recompor as partes
extraídas.
O homem, que se diz civilizado, não atentou para este
aspecto. Como em outras oportunidades, ao tratar com o meio
ambiente o que lhe interessa é o momento presente,
deixando as conseqüências para, no futuro, outras
gerações cuidarem, como se os seus descendentes
não viessem a sentir na pele tais atentados contra
a natureza. O índio tido como inculto, soube preservar
com parcimônia o meio ambiente, mesmo fazendo uso de
seus produtos.
Para ilustrar, citemos o exemplo de uma tribo indígena
da Amazônia, que utiliza a casca de determinada árvore
para construir suas canoas de pesca, as pirogas, com as quais
singram rios e lagos. Para esse fim, do tronco da árvore,
em pé, corta cuidadosamente, no sentido longitudinal,
metade da casca sem ferir o cerne. Com essa técnica
apurada, transmitida de geração a geração,
proporciona-se à árvore sacrificada a possibilidade
de recuperação, adquirindo ela nova casca, podendo-se
mesmo fazer uma segunda extração do mesmo tronco,
nos moldes da primeira.
Procedimento idêntico, por certo, poderia ser adotado
no caso do mangue vermelho. Se a mesma técnica usada
pelo índio fosse aqui desenvolvida, esta planta teria
sido preservada por mais tempo, embora o homem, predador por
excelência, pudesse destruí-la de outras formas.
Matadouro
Municipal
Continuando
o seu percurso, o rio da Costa, ainda vivo, seguia até
as proximidades do matadouro municipal, curvando-se discretamente
no sentido norte para leste até encontrar à
sua margem esquerda uma pedra de tamanho suficiente para que
sobre ela se instalasse o referido matadouro. Ele era fiscalizado
pela saúde pública, principalmente pela municipal,
que acompanhava as condições do animal em pé
e depois de abatido, com as vísceras expostas, sendo
evidente que, assim como outros abatedouros existentes no
que seria hoje a Grande Vitória, suas condições
de funcionamento estavam longe do ideal. José Pitanga,
saudoso fiscal e técnico de veterinária, por
muito tempo fez esse trabalho como funcionário da Prefeitura.
O matadouro permaneceu ali instalado e funcionando por longos
anos, sendo desativado somente no final da década de
50, para alívio geral da vizinhança e dos que
habitavam o centro de Vila Velha. Os vizinhos se viram assim
livres da fedentina espalhada pelos ventos e dos urubus que
ficavam empoleirados aos bandos sobre os telhados das casas
depois de se banquetearem com as sobras das carnes e pelancas
jogadas ao tempo. Essas aves, além de fazerem arruaça,
quebravam telhas com o seu peso, o que representava prejuízo
para os donos das moradias próximas, que em épocas
de chuva ficavam expostas a goteiras se não se fizessem
a tempo os reparos necessários.
No que se refere ao centro da cidade, havia o incômodo
da condução do gado pelo meio de ruas e avenidas
em direção ao matadouro para o abate. Preocupava
o tropel das manadas e dos cavalões com vaqueiros montados
aos gritos, aboiando as rezes até o destino final,
assim como a presença de algum animal bravio que se
desgarrava do bando, o que era uma constante. Conduzido o
gado até o seu destino, o vaqueiro voltava para recuperar
a rês desgarrada, adotando nessa tarefa sempre a mesma
estratégia: passavam-se dois laços de couro
cru ao chifre da rês, separavam-se as orelhas, sendo
então segurada por dois cavaleiros encilhados no arreio
das suas montarias, um puxando na frente e outro sustentando
atrás, forçando-a a seguir rumo ao matadouro.
Nessa operação muitas cercas e muros eram danificados
e refeitos pelo marchante explorador do abatedouro. O mais
importante e bem conceituado dentre eles, em Vila Velha, era
o Senhor Rodolfo Valdetaro, detentor de uma grande e bem educada
prole.
Sobre o matadouro, ora voando baixo, ora ganhando altura além
do Convento da Penha, em cuja mata encontravam refúgio,
bandos numerosos de urubus viviam em constantes revoadas.
Era tão comum o espetáculo que os moradores
costumavam comentar uns com os outros, principalmente quando
o encontro deles no ar era mais intenso e agitado, que a “aviação”
do seu Rodolfo estava pronta para entrar em ação.
Nessa brincadeira havia um velado protesto contra a permanência
do matadouro contíguo ao centro de Vila Velha, mas
ninguém cuidava de providenciar a sua transferência.
Só depois, muito depois de o seu Rodolfo ter passado
o matadouro a terceiros e estes a uma sucessão de outros
marchantes, para os quais transferia-se compulsoriamente a
tal “aviação”, programou-se a retirada
desse abatedouro.
Encontro
do Rio com o Mar
Ao
se falar do rio da Costa, mais uma vez involuntariamente o
fluir de suas águas rumo ao mar foi interrompido para
que fossem narrados acontecimentos relacionados com ele. Da
pedra do matadouro municipal o rio, com o seu curso voltado
para leste, abeirava o sopé da pedreira do Convento
da Penha, passando o seu leito antes disso por mais um perau,
e seguia forte nessa rota,para logo adiante curvar-se até
alcançar, já em sentido norte, o morro do Moreno.
O rio encontrava ali um enorme lajedo de onde algumas pessoas
pescavam atirando a linha nas suas águas fundas e empedradas,
sinal de bom pesqueiro.
Esse trecho, localizado entre a pedreira do Convento da Penha
e o morro do Moreno, era o mais piscoso e costumava ser adotado
por quem entendia do assunto, principalmente à noite.
Os robalos e os robalões, na escuridão e com
a maré cheia, espoucavam na mansidão das águas,
em áreas abertas ou em meio aos mangues, à caça
de tainhas, suas presas preferidas. A escuridão da
noite por aquelas bandas era fantasmagórica. O silêncio
só era quebrado pelo puxar do remo junto à canoa
ou pelo estardalhaço dos peixes maiores no encalço
das suas presas menores. O canoeiro, com sua lanterna acesa
na bancada da popa, de olhos fixos sobre as águas e
atento com a sua tarrafa armada, esperava o momento azado
para lançá-la sobre o alvo. Quando este lhe
parecia impróprio, baixava a guarda, apanhava uma pedra,
das muitas que carregava no fundo da canoa, e atirava convenientemente
na água. Se os peixes estivessem nas proximidades da
área do impacto, convergiam instintivamente para aquele
ponto na presunção, segundo os entendidos, de
tratar-se de outros da sua espécie ou de uma presa
em fuga. Nesse local, com o tempo calculado, o pescador arremessava
a sua tarrafa. Acreditando nesse artifício, o pescador,
noite a dentro, com ou sem sucesso, ia tarrafando rio abaixo
e rio acima até dar por concluída a sua pescaria.
O rio da Costa, nas suas margens lamacentas, com os seus manguezais
e o seu leito piscoso porque não poluído, deu
por séculos e anos a fio, à comunidade de Vila
Velha, o direito de nele se prover. Pescados, crustáceos,
mariscos e o próprio mangue sustentaram famílias
incontáveis que não tinham trabalho definido.
Enquanto este rio viveu morador algum de Vila Velha, desprovido
de recursos, passou privações, a menos que fosse
inapto ou inválido para quaisquer das atividades por
ele oferecidas.
***
O rio está prestes a concluir a sua caminhada com destino
ao mar. Ao passar pelo lajedo dos pescadores no morro do Moreno,
com o qual não mais perdia contato até chegar
a sua embocadura, fazia uma ligeira ramificação
no sentido oeste, atingindo as faldas do morro do Convento,
onde envolvia uma pedra, deixando-a quase toda submersa com
a cheia da maré. Estabelecia-se ali um pequeno remanso
e um bom pesqueiro, dependendo da influência da lua,
o qual era explorado com sucesso por quem conhecia essa peculiaridade.
Criado esse remanso, o rio retomava o seu curso de origem,
não mais se apartando do Morro do Moreno, fazendo,
a partir daí, o percurso sobre areia por onde, finalmente,
alcançava a sua foz no mar, entre uma pedra e a praia
do 3º BC.
Esta última caminhada do rio da Costa, conhecida como
Barrinha, era bastante aprazível. A maré baixa
deixava à mostra uma espaçosa praia de areias
claras, enquanto o rio escorria pelo lado do morro do Moreno
com águas rasas. Nesse local, escavando-a a areia encontravam-se
recolhidos mexilhões, canivetes, amêijoas e berbigões.
Todas essas atividades poderiam constituir apenas como um
intróito de espera do reponte da maré para a
pesca dos siris que, com a entrada da água salgada
mais apurada do mar, apareciam em abundância à
procura de alimento. Eles não só vinham dos
manguezais próximos, como também trazidos pela
maré quando esta subia. Nessa ponto o ri aos poucos
ia interrompendo a caminhada para a embocadura e era a hora
certa para que linhas com iscas para siri, amarradas em pontas
de varas que ficaram espetadas na areia, fossem lançadas
à água. A partir daí iniciava-a a pescaria
propriamente dita. As puçás entravam em ação
com as linhas retesando-se a todo momento sinalizando a presença
dos crustáceos caindo no engodo que lhes fora preparado.
O jereré, outro tipo de armadilha usada, também
entrava em ação. Chegara o momento do corre-corre.
Os siris nas puçás ou nos jererés eram
transferidos para o depósito. A azáfama era
desmedida para se dar conta da tarefa. Ás vezes de
uma única puxada de linha recolhiam-se na puçá
de três a quatro siris, acontecendo o mesmo com os jererés.
Não mais do que uma hora durava a pescaria. Nesse espaço
de tempo, a água do mar empurrando o rio em sentido
contrário à sua foz, com a forte correnteza,
passava a inundar toda a praia da Barrinha. As linhas com
as suas iscas não mais ficavam no fundo, embora envolvidas
em pedras, e flutuavam ao sabor da velocidade da enchente.
A mesma coisa acontecia com os jererés, que não
mais se assentavam no fundo da água. Nada mais se tendo
a fazer, encerrava-se a pescaria que sempre era feita com
muito sucesso, sendo capturadas dúzias e mais dúzias
de siris de diversos tamanhos e espécies.
Com o término da pescaria e do fluir do rio da Costa
até o mar, deixamos registradas algumas das muitas
facetas por ele proporcionadas desde a sua nascente, no Poço
do Apicum, até a sua embocadura, na Barrinha.
A
ponte Nova
Essa ponte era, à noite, um local ermo e escuro freqüentado
por casais que iam além dos beijos e abraços
ou mesmo por aqueles que nisso ficavam.
A ponte era feita de cimento armado e protegida em ambas as
laterais por uma mureta de desenhos geométricos vazados
e altura que permitia a uma pessoa de porte normal debruçar-se.
Na sua base, pelos dois lados e ao rés do chão,
havia uma calçada para pedestres. Essa ponte era então
a única via de acesso à praia da Costa. Chamavam-na
de ponte Nova pelo fato de ter existido primitivamente uma
outra que também levava à praia da Costa pela
rua 15 de Novembro e que era conhecida como ponte Velha, abandonada
e destruída pelo tempo depois da construção
da mais moderna. Por aquela ponte chegava-se ao outro lado
do rio numa estrada estreita que mais parecia um caminho.
À praia da Costa da época, ainda não
explorada para banhos de mar, iam, atravessando a ponte, proprietários
das glebas de terra da região, faroleiros do farol
Santa Luzia ou sinaleiros do morro do Moreno, quando não
o faziam pelo rio ou pelo mar. Essa ponte era também
utilizada pelos moradores da cidade em incursões às
cercanias para fazer lenha e na cata de frutas silvestres
que eram abundantes na praia da Costa, incluindo a pitanga,
o perinho, a murtinha, a maçaranduba, o mupê,
o araçá, a goiaba, a costeira, a araçaúna,
o caju e outras mais.
Com o advento da ponte Nova, construiu-se a primeira estrada
para a praia da Costa e desta para a da Sereia. Para se chegar
à praia de Itapoá, após essa estrada,
seguia-se pelo cômodo da praia.
A título de curiosidade, o primeiro morador da praia
da Costa, no litoral propriamente dito, chamava-se João
Rita. Ele residia numa choupana de sapé, bem junto
à praia, um pouco antes de atingir a curva da Sereia.
O velho João Rita vivia num isolamento absoluto, e
por isso chamavam-no de “ermitão da Costa”.
Quem chegava até a praia raramente deixava de lhe fazer
uma visita, levando-lhe algumas provisões. Bem falante
e amistoso, João Rita sabia onde estavam os melhores
pesqueiros, como também o local de fruteiras nativas
em produção.
|