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Morte do Primeiro Donatário
Trecho
transcrito do livro:
Vila
Velha, seu passado e sua gente.
Autor: Dijairo Gonçalves
Lima
Vila Velha – ES – 2002
Nota
do Site: Diógenes é um personagem fictício.
Coutinho contava mais de setenta anos. Não obstante
a idade avançada, o velho desbravador, doente e fraco,
ainda encontrou um pouco de fôlego para tentar alguma
coisa em favor do torrão capixaba. Em maio de 1558,
empreendeu sua última viagem, sempre a procura de financeiro.
Mas a ajuda lhe era sistematicamente negada.
Da
vila de Ilhéus escreveu ao governador geral uma carta
na qual exteriorizava toda a angústia de sua alma por
não haver conseguido vencer os obstáculos surgidos
ao longo dos vinte e três anos de donataria. Com humildade
agradeceu a ajuda recebida do destinatário no combate
à rebelião dos silvículas, sem a qual
os moradores da Capitania seriam exterminados. Disse que a
gleba agora estava em paz. Os selvagens não mais constituíam
um perigo para os colonos. Depois de informar sobre a desfeita
e o desacato sofrido dos colonos por haver proibido a escravização
dos índios, suplicou uma carta de recomendação
com a qual ele tentaria no Reino a captação
de recursos necessários ao reerguimento do seu senhorio.
- E Mem de Sá deu a tal carta de recomendação?
– perguntou Felipe Gonçalves, sempre muito interessado
como os outros em conhecer detalhes da história.
- Não se sabe. Em face das circunstâncias, pessoalmente
não acredito, -respondeu Diógenes. E acrescentou:
- Há dúvidas, também, se o seu estado
de saúde lhe permitiu velejar para Portugal ou se ficou
a perambular pelos portos do Nordeste à procura de
tratamento para a saúde combalida.
Com as sobrancelhas um pouco suspensas e os lábios
ligeiramente repuxados para o canto da boca, em sinal de dúvida,
interrogou Francisco Chagas:
- Quando ele retornou ao Espírito Santo?
- Tudo indica que foi após o primeiro trimestre de
1560, porque, ao passar Mem de Sá por aqui em janeiro
daquele ano, a Capitania estava sem o seu capitão-mor.14
- Pelo tempo decorrido, dois anos ou quase isso, acredita
ter ele rumado mesmo para Portugal, só retornando depois
das malogradas tentativas de obtenção de recursos
junto à Coroa.15 Não creio, por isso, haver
ficado todo esse tempo nas costas do Norte e do Nordeste.
Após a opinião manifestada por Chico Chagas,
Quintela retomou a palavra para descrever a situação
da Colônia, então agravada com a enfermidade
do donatário.
- Sem saúde e endividado, Vasco Coutinho nada mais
tinha a fazer senão em seu sítio, na Praia da
Costa, amargar com resignação o golpe que o
destino inexoravelmente lhe reservara. Desacreditado de todos
e vilipendiado pelos colonos, o infeliz ancião ainda
em sonhos fugidios pensava às vezes na possibilidade
de um dia receber proposta de alguém para formar uma
sociedade a fim de recuperar o seu “vilão farto”.
Passaram-se os dias e cada vez mais crítica era a situação
da Colônia. Suas esperanças desvaneceram e ele
não conseguia se desvencilhar do pesadelo que o afligia
há tantos anos. Por conseguinte, não lhe restava
alternativa senão renunciar. Vasco, apesar de estar
em idade provecta e alquebrada por sofrimentos físicos
e morais, teve, entretanto, lucidez para compreender que chegara
a hora da renúncia, pois o povo estava preste a deixar
tudo para trás e seguir rumo às capitanias vizinhas.
Em nova passagem pelo Espírito Santo, Mem de Sá
é logo procurado pelos moradores. Sabiam da existência
da carta-renúncia do capitão-mor e assim pediram
ao governador geral que tomasse a Capitania em nome do rei.
Imaginavam que, com a administração da gleba
diretamente subordinada ao soberano, grande seria a segurança
dos colonos com promissores dias para a Colônia.
Por sugestão dos próprios colonos, Mem de Sá
designou Belchior de Azeredo para administrar a Colônia,
o que lhe dava o direito de exercer todas as funções
compatíveis com as de capitão-mor. Tratava-se
de pessoa de confiança dos colonos e muito querido
dos padres da Companhia. Não é demais repetir
que a sede da Capitania estava na vila de Vitória.
Desiludido e angustiado por tristes recordações,
morreu o primeiro donatário da Capitania do Espírito
Santo na casa onde sempre morou, no sopé do Moreno.
Sua morte aconteceu antes de outubro. Ano de 1561. Não
se sabe o dia e o mês.
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