|
A última lancha da noite
Fonte:
Ecos de Vila Velha
Autor: José Anchieta
de Setúbal
O
usuário que estivesse em Vitória e precisasse
pegar o último bonde em Paul arriscava-se a não
consegui-lo se perdesse a lancha em direção
àquele ponto. Quando isso acontecia ele ficava em Vitória
em casa de parentes ou amigos, ou em pensões e hotéis,
ou ainda socorria-se dos bancos das praças, perambulava
pelas ruas ou, se mais atirado e descompromissado, circulava
pelas casas de tolerância da cidade até amanhecer
o dia. Táxi, nem pensar, pois, além de caro,
a maioria dos retardatários não era afeita a
esse tipo de condução, a não ser por
motivos muito sérios.
O
notívago, inconformado com a partida da lancha e sem
poder alcançá-la, corria para o cais dos botes,
junto ao cais das lanchas, e contratava uma daquelas embarcações
a remo para a travessia, sujeitando-se a atrasos por uma série
de dificuldades, como a maré que, na vazante ou enchente,
apresentava maior ou menor correnteza, a disposição
do catraieiro e a força de suas remadas. Já
na metade do percurso da baía se sabia da possibilidade
ou não de apanhar o último bonde da noite. Se
ele fosse avistado parado e iluminado era hora de começar
a gritar, fazendo-se isso a pleno pulmões: "Espera!
Espera!" No silêncio da noite, a baía tomada
pela escuridão, a presença do bote só
era identificada pela lanterna a querosene acesa na popa da
embarcação e pelo "chuá" das
remadas vigorosas e compassadas do catraieiro. Esses gritos
não só eram ouvidos pelo fiscal que autorizava
ou não a partida do bonde, como também pelos
passageiros sonolentos, a grande maioria acomodada em seus
lugares. Dependendo do fiscal e do apelo desses passageiros,
o notívago saltava esbaforido, alcançando a
condução com gestos e voz de agradecimento pela
espera.
Desses
retardatários muitos eram reincidentes e quando acontecia
de seus apelos não serem correspondidos tinham que
voltar para Vitória no mesmo bote, agora sem aquela
correria e pagando a passagem em dobro. A outra alternativa
seria saltar no cais de Paul e seguir a pé pelos trilhos
do bonde até chegar ao destino. Os percalços
a enfrentar seriam apenas a escuridão da noite e os
pequenos acidentes, como pisar em buracos do percurso ou dar
topadas nos dormentes de sustentação dos trilhos.
Fora isso, nada de violência, pois ninguém agredia
ninguém.
Às
vezes, durante a caminhada, um encontro era bem-vindo. As
pessoas eram identificadas apenas pela voz, pois a escuridão
era grande. Devidamente apresentados, identificando-se ou
não, a caminhada prosseguia já se sabendo para
onde cada um iria. Se o encontro acontecia em sentido contrário,
trocavam-se cumprimentos.
O
trajeto de Paul a Vila Velha, até a Igreja Matriz de
Nossa Senhora do Rosário, contava apenas seis quilômetros.
Fazendo ou não todo o percurso, o sacrifício
da andança tornava-se compensador, uma vez que era
melhor que esperar pelo primeiro bonde até o amanhecer
do dia, sem ter dormido, e arranjar uma boa desculpa, nem
sempre convincente, para o atraso.
|