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ESPAÇO DO INTERNAUTA

Confira as contribuições enviadas ao site Morro do Moreno pelos nossos internautas:

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Seu Leandro

Por: Marilena Soneghet

Seu Leandro plantava cana, uns pés de café, alguma verdura e um cachorrinho magrelo. Tudo isso lá no alto do morro do Moreno.

Era quase no topo a casinha de seu Leandro. De sapé.

Tinha sempre um cafezinho a oferecer, adoçado com caldo de cana – xicrinha de ágata, descascada.

Magro, comprido, preto, taciturno. Não conversava. Soltava monossílabos indistinguíveis quando absolutamente necessário. Tinha passagem pela cadeia; matara um homem numa briga – culpa da pinga. Era manso, tranqüilo... quando sóbrio.

Andava pela Praia da Costa oferecendo serviço: capinar o quintal, podar, fazer limpeza.

Lá em casa ele trabalhava às vezes. Fazia um serviço limpo. Ganhava o justo e um considerável prato de comida que ele amassava com os dedos e comia em bolinhos (se bobeasse, ele comia o prato também).

Era meu amigo.

Eu e meus primos fazíamos longos passeios pelo morro do Moreno. Havia a mata a desbravar e as pedreiras a escalar. A leste o mar de infinito verde cheio de cintilâncias, a oeste o morro da Penha – o convento, lindo, com suas lendas e as filas de romeiros carregando sua fé.

Subíamos o morro num fôlego só até a casa do seu Leandro – o ponto certo para um cafezinho – depois continuávamos em busca de plantas exóticas, ninhos de passarinhos, barbas-de-velho, preás ou, simplesmente, para caçar o verde, aspirar o azul, arrepiar o vento, colher sons e cheiros e amoras e pitangas. Às vezes ele nos acompanhava, abrindo mato com seu facão. Cuidando da gente. Mas se não ia junto era como se fosse; sabíamos da sua presença – atento à nossa volta.

Um dia nos embrenhamos um pouco mais, escureceu. O emaranhado matagal foi ficando denso. Perdemos a noção de direção. Nossos braços e pernas já estavam arranhados, lanhados, ardendo. Pra que lado seguir? Caíramos numa teia de cipós, espinhos, ramas entrelaçadas. Subir em árvores não resolveu o dilema. Após um tempo começamos realmente a nos preocupar. A escuridão baixava depressa, embora, por entre a galharia, nesgas de céu tivessem luz.

O jeito era gritar... Seu Leandrooooo... Seu Leandrooooo... Com uma pequena faca tentávamos abrir passagem. Não resolvia muito; os cipós eram fibrosos, duros de cortar. Seu Leandrooooo...

A respiração pesava, pelo esforço e pelo medo. E o escuro?... Me dá a mão... Cuidado... Pode ter cobra aí... Ai!... Será que a gente não tá indo pro lado errado?
O engraçado é que falávamos baixo, como se numa igreja. Só o grito era gritado.
Seu Leandrooooo...

Daí a pouco, bem longe... Êêêêê...

Puxa, que alívio! Ôôôô... Seu Leandroooooo... Êêêê... E chap chap chap – facão riscando caminho.

-Vamimbora que isso é ninho de cobra. To procurando cês há um tempão.

Foi o dia em que mais falou.

- Toma um café pra carmá.

Obrigado seu Leandro. Anjo bom. Pinga, passagem pela cadeia, nada destruíra a sua bondade inata.

Soubemos, anos mais tarde, que ele morreu em briga de foice num boteco.

Imagino seu Leandro céu – um anjo taciturno de asas cortadas oferecendo a São Francisco, numa xícara de ágata descascada, café adoçado com caldo de cana.

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Marilena Soneghet escreve em A Gazeta, é autora de vários livros. Seu último lançamento foi um livro ecológico /infantil, com apoio da CST: "Era uma vez um lugar... Juçará".

O livro fala do Juçaral que a autora conheceu em sua infância, mata rica e exuberante, hoje destruida. Mostra com realismo como acontece a depredação da natureza. É uma cartilha simples, texto acessível, para conscientizar as crianças. O livro é interativo - há lugar para se desenhar, colorir, escrever. E, principalmente, estimula os pequenos a plantar, a recuperar nossa pobre mãe natureza tão expoliada.

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