|
L e R - Leopoldina Railways
Fonte:
Sem Quê nem Por Quê
Autora: Regina Helena Magalhães
Laura
e Regina
Confesso:
não sou saudosista. O que mais quero é viver
o hoje, deixar o ontem para trás. O que passou já
era. Ficar trsite porque "tanta coisa se foi" faz
mal à saúde, leva ao estresse.
Para
variar ou dar uma "paradinha", é até
gostoso recordar. Pedaços da infância têm
cheiro e sabor: vale a pena ver de novo...
Meus
primeiros anos foram tranquilos. Nem pobre nem rica, com direito
a colégios particulares, alimentação
saudável: sucos de frutas obrigatórios, muita
verdura, coalhada no lanche para manter a pele bonita.
O
ideal dos pais era transformar sua meninas em mocinha recatadas,
"direitas", ajuizadas, virgens imaculadas até
o casamento. Isso porque era um perigo ficar falada, dar um
"mau passo". A gente não entendia bem, mas
temíamos castigos eternos caso o pecado fosse por demais...
cabeludo!
Eu
era dócil, calada, tímida, não me rebelava.
Aceitava, obedecia. Poucas vezes subi pra valer numa árvore
frondosa, nenhuma aventura mais arriscada. Ainda bem que patinava
e andava de bicicleta... Hoje, acredito que deveria ter sido
mais moleca, menos adulta, mais destemida.
A
sorte é que temos sempre uma prima. Eu tenho primos
muito queridos, mas a convivência maior na infância
foi a prima Laura. Oito meses nos separam na idade. Completamente
diferentes no físico e no emocional, superamigas, entretanto.
Afora um ou outro puxão de cabelos, brigas de ficar
de mal e logo de bem, não nos largávamos. Eu
achava Laura uma estrela: alta, magra, pele clara. Eu era
moreninha, cabelos castanhos e uns quatro centímetros
mais baixa. Preferia ser loura, mais esbelta, mais atraente.
No
Carnaval, lá íamos nós: eu, de baiana;
ela, de cigana. A farra era jogar confete nos outros, economizar
o lança perfume para durar os três dias, tirar
retratos, visitar os parentes, apreciar fantasiados e mascarados
na rua, ver corsos e bandas passando.
Nosso
colégio era o Menino Jesus, no Rio de Janeiro. Muito
estudiosas, tocávamos piano, particiávamos de
audições. Tínhamos aula de balé.
No primeiro ano, treinaram-nos para dançar como coelhinhas,
uma tristeza. Melhoramos de "categoria" e, mais
tarde, mereci um solo: a dança da Boneca, que saía
de uma caixa com laço colorido.
Brincávamos
de tudo: roda, anel, amarelinha, pular corda e berlinda. Um
dia, resolvemos brincar de "cabeleireiro".
Separamos
tesouras, escovas, pentes, grampos e uma cadeira. Eu fui a
primeira: tosei o cabelo fino de Laura com vontade. Fiz até
um penteado. Depois, era a vez de "ser cortada".
Sentada, esperei firme. Na primeira tesourada, nossas mães
apareceram! Uma palmada em cada uma e fim de papo. A bagunça
acabou na hora. Só que eu fiquei com o cabelo de antes
e laura, coitada, toda recortada...
Adorávamos
viajar. De trem, Rio - Cachoeiro, o afamado noturno. Tinha
a disputa inicial: quem vai dormir no beliche de cima, o mais
emocionante? Decidido, ficávamos "filosofando".
Éramos, as duas, "donas e proprietárias"
da roupa de cama das cabines. Claro, lençóis
e fronhas exibiam, bordados em letra enormes, LR,
significando Leopoldina Railways. Para nós, evidente:
Laura e Regina! E as matulas? Vovó Zita levava frango,
farofa, peru, que fartura! Alguma dor de barriga no final
da viagem, por excesso de gulodice ou ação do
calor sobre a comedoria, era natural, fazia parte.
Outro
hábito era organizar piquenique. Não um piquenique
qualquer, de forma alguma. Tinha que ser no quarto, no meio
da noite. Nossas mães nos obrigavam a ir cedo para
a cama, descansar. Nós nunca nos cansávamos,
queríamos aproveitar a noite, isso sim. Então,
surrupiávamos um lanche completo: frutas, pão,
presunto, balas, um bombom esquecido por ali, um refrigerante
para refrescar. O farnel era conduzido, às escondidas
para o quarto. Logo ouvíamos: "Laura e Regina,
hora de escovar os dentes e dormir!". Lá íamos
nós. O piquenique nos aguardava. Tudo consistia em
jogar conversa fora, combinar programas, comer. Falávamos
baixo, todos certos de que sonhávamos com os anjinhos.
"Tão
obedientes nossas filhas!". Só que estávamos
em pleno "convescote", sem malícia, inocente
porém com gosto de proibido, do secreto. A glória!
Crescemos,
Laura e eu. Viramos gente grande, vamos levando a vida comme
il faut. Sempre unidas, sempre crianças.
LINK
RELACIONADO:
Livros Capixabas
|