|
Massena, o escritor
Fonte:
A Gazeta 08/10/1980
Texto: Júlio Fabris
O
pintor Homero Massena, morto em 1974, escreveu dois livros,
dos quais um permanece inédito: “Barbacena”.
O outro, já publicado, recebeu o título de “Atribulações
de um Capichaba”. Massena teve larga experiência
como jornalista, chegou a participar da revolução
paulista de 32 e tornou-se amigo do homem que matou seu autor
predileto: Dilermando de Assis.
Uma grande obra de arte sempre implica uma grande vivência.
O pintor mineiro, mas radicado no Espírito Santo, e
que morreu em 1974, Homero Massena certamente teve uma grande
vivência: além dos 11 anos passados na França,
ele desempenhou funções as mais variadas: prefeito,
jornalista e saltimbanco, entre outras. Foi um literato por
diletantismo. Esta faceta daquele que é considerado
como o maior pintor do Espírito Santo e um dos maiores
do Brasil é pouco conhecida.
Massena escreveu dois livros, um dos quais, Barbacena, continua
inédito. O outro denomina-se Atribulações
de um Capichaba e foi publicado, um tanto precariamente, em
1965, pela imprensa oficial. São livros que mostram
uma correção gramatical que revela a longa experiência
jornalística do autor e denotam uma sobriedade literária
surpreendente. Os dois livros se alicerçam em experiências
pessoais do autor: Atribulações mostra, no início,
o clima de Vitória antiga, com seus personagens pitorescos,
embora posteriormente Massena tenha construído uma
ficção pura, altamente divertida; Barbacena,
por sua vez, conta episódios em que esteve envolvido
seu avô, Rodrigues de Araújo Massena.
De
certa forma, o escritor lembra o pintor: econômico e
preciso nos detalhes, perfeito na ambientação.
Mas a estas características, adiciona-se uma que, para
os que apenas conhecem seus quadros, causa surpresa: o humor
picante e irreverente, que se manifesta principalmente em
Atribulações de um Capichaba. Numa conversa
com D. Edi Massena, a viúva do pintor, ela teve a oportunidade
de mostrar algumas cartas escritas por ele: o humor corre
solto – não há marcas de sisudez.
-
Ele era um homem alegre – comenta dona Edi. Nos finais
de semana a casa ficava cheia de amigos e ele gostava muito
de contar histórias, casos pitorescos. O movimento
começava sexta à tarde e estendia-se por sábado
e domingo.
O
próprio pintor dizia, no prefácio de Atribulações,
que “a presente novela foi elaborada para ser lida na
intimidade das tertúlias domingueiras, entre os amigos
que freqüentam nosso atelier e não nos passou
nunca pela mente que insistissem na sua divulgação”.
Atribulações mostra um Massena inteiramente
descontraído, solto, como dizem que ele era pessoalmente.
Ele conseguiu, efetivamente, criar uma história hilariante.
A criatividade que ele demonstrara na pintura reaparece em
sua obra de escritor.
ATRIBULAÇÕES
DE UM CAPICHABA
O enredo deste livro é bastante interessante. Biela,
o personagem principal, insistia há seis meses no número
3333 no jogo de bicho. Jogava quase diariamente Cr$ 4,00 e
acaba ganhando na milhar Cr$ 20 mil. Decide rapidamente o
que fazer com o dinheiro: “Ia finalmente, realizar-se
o seu grande sonho “um passeio ao Rio, de avião,
e. . . Copacabana! Via-se já vestido com um belo calção
de banhos, igual ao dos americanos, com estampas, rosas vermelhas
e outras ramagens, nadando ao lado das cariocas de biquíni,
como as que vira muitas vezes nas velhas revistas que lá
no mercado compravam para embrulhos”.
A
partir da viagem de Biela, a estória se desenvolve
de maneira surpreendente. Assaltado, caindo em diversos contos
de vigário, Biela termina por se ver inteiramente sem
dinheiro. Emprega-se numa fazenda, onde termina fazendo parte
de rodeios e coisas similares. De episódio em episódio
a história segue adiante, com casos extremamentes divertidos.
Atribulações
de um Capichaba talvez seja a única publicação
que até hoje tenha sido feita pela Imprensa Oficial.
Pelo menos em termos de livro. Ele chegou a ser editado à
revelia do autor, como relata dona Edi Massena.
-
Massena tinha viajado e Guilherme Santos soube da existência
dos manuscritos. Durante a ausência de Massena, ele
pegou os manuscritos e os levou para o governador da época,
Francisco Lacerda de Aguiar, também amigo de Massena.
Gostaram muito do livro e resolveram publicá-lo, através
da Imprensa Oficial. Só que isto terminou sendo feito
sem que Massena tivesse revisado os originais.
As
conseqüências disso foram em certo sentido, desastrosas.
Há parágrafos inteiramente incompreensíveis,
frases integralmente repetidas. Curiosamente, estes erros
quase que só aparecem nas primeiras páginas.
Massena pelo menos conseguiu voltar a tempo de sua viagem
para que imprimisse um aviso em letras garrafais: “A
revisão deste livro não foi feita pelo autor”.
O elemento surpresa que Guilherme Santos e Francisco Lacerda
de Aguiar queriam usar como uma homenagem ao pintor terminou
sendo contraproducente em termos editoriais.
Atribulações
de um Capichaba contém um elemento interessante: todo
ele é ilustrado por um artista chamado J. V. Dona Edi
acredita, contudo, que as ilustrações foram
de autoria do próprio Massena. Estilisticamente é
difícil definir. Mas é um fato que as ilustrações
estão bem de acordo com o texto.
“ATRIBULAÇÕES DE UM CAPICHABA”:
UM TRECHO
"Biela,
já inquieto pela passividade do animal, julgando-o
dócil como um cordeiro, audaciosamente aproximou-se,
dando-lhe com a capa no focinho.
O
animal, excitado pelo desafio, investiu contra Biela. Por
um golpe de sorte, tendo a capa estendida bem perto dos olhos,
o animal passou não sem dar uma guinada em Biela, que
caiu sentado. Apanhando rapidamente a capa, colocou-se em
guarda à espera de uma nova investida do touro, o que
não tardou. Avançando sem que Biela pudesse
desviar-se, suspende-o com a cabeça, engasgando-o entre
os chifres que o desastrado toureiro segurava de pernas para
o ar, só enxergando o chão que corria diante
dos seus olhos, sem saber como desembaraçar-se da posição.
Finalmente, o touro parou, com o desejo de aliviar-se da carga.
Ao sentir frio no traseiro, Biela compreendeu que as calças
haviam rompido, colocou os pés no chão, tentando
saltar. Ao sentir o movimento, o animar ergueu a cabeça
e o toureiro, na mesma posição, de cabeça
para baixo, amargurado ao sentir que o rasgão da calça
aumentava, passeado e sacudido pelo touro, no abaixar e suspender
a cabeça, obrigando a ridículas perneadas, além
dos gritos de zombaria que ouvia da assistência, pensou,
mesmo, que seria estraçalhado pelo animal, gritava
pedindo socorro, o que não era ouvido, dados os gritos
da platéia delirante, apesar do perigo. Finalmente,
aproveitando um momento em que o touro o levou suspenso até
a cerca, com a destreza de um símio, dando um salto,
caiu para fora da arena”.
Links
Relacionados:
Lembrando do Mestre
Depoimento
de Homero Massena
Ou
francês ou capixaba
|