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Vila Velha do impressionista
Fonte:
A Gazeta 30/10/1975
Texto: Kleber Galvêas
Conheci
Homero Massena há muito tempo, quando os homens usavam
vistosos sapatos de duas cores, ternos engomados de linho
S 120 e meu pai, um dos poucos médicos de Vila Velha,
o acompanhava nas noites de cartas, na casa de um amigo comum,
Dr. Wilson Champoudry. Saudosos tempos de uma Vila Velha com
poucos carros e muitas praias, um oásis que muitos
ainda se lembram.
Pois
é, Massena deixou para trás pianos, relógios,
o palco, um consultório dentário, cenários
de filmes, uma prefeitura em Minas, uma secretaria política,
patente de oficial constitucionalista de 1932, redações
de jornais como A Tarde, O País, Jornal dos Comércios
e A Batalha. Deixou a tranqüila posição
de modernista em São Paulo e/ou Rio e veio para cá,
Vila Velha, que ainda estava muito semelhante à que
deixara na infância. Aqui, Massena amadureceu sua arte,
pois se entregou de corpo e alma à natureza. A poucos
passos da porta de sua casa fica a velha ladeira da Penha,
que por ele foi estudada palmo a palmo numa seqüência
de telas que ornamentam salões como os dos Palácio
Anchieta e Alvorada e um grande número de salas particulares.
A sua obra, portanto, está dispersa e distante do grande
público, uma vez que não temos em Vitória
um museu de arte. No ano passado, num trabalho preparatório
para a Documental de 74 – final da gestão Euzi
Moraes na Fundação Cultural – percorri
diversas residências, examinando, medindo, datando,
etc... e apreciei cerca de 100 trabalhos do mestre. Não
existe em qualquer lugar do mundo coleção tão
fascinante de um artista impressionista. Fato facilmente explicável
se considerarmos que Massena nasceu em 1885, dois anos depois
da morte de Manet, considerado por muitos o primeiro impressionista,
e durante 89 anos, cultivou esta escola em ambiente propício,
fazendo sempre ouvido surdo às sereias modernistas.
Bem,
vamos ver o que faziam os mestres do impressionismo neste
ano de 1885. Renoir, indeciso com Les Grandes Baigneuses –
Nice, Musée Masséna – acaba por pintar,
em 1887, Les Grandes Baigneuses, do The Philadelphia Museum
of Art. Obras bem diferentes, embora o tema seja idêntico.
Van Gogh, deslumbrado com Arles (França), “A
região me parece bonita como o Japão, devido
à limpidez da atmosfera e aos alegres efeitos de cores”,
viaja em 1886 para Paris e, de um só vez, encontra
os impressionistas, os neo-impressionistas e a japonaiserie.
Seraut pinta Caminho, óleo sobre madeira, pinceladas
largas que nada têm a ver com aquele miríade
de pontos que usa a partir de então. Monet dá
os primeiros passos nos Reflexos. Gauguin, pintando Ângulo
de Açude, deixa transparecer o que será sua
pintura nas ilhas do Pacífico. Neste mesmo 1885, Massena
nasce em Barbacena e aos seis meses de idade vem para Vila
Velha, como sempre gostava de contar. Daqui logo saiu, virou
mundo: foi cavaleiro no interior de Minas para decorar palacetes
de fazendas (era o que mais gostava).
De
automóvel, com baixa pressão nos “pneumáticos”,
como sempre exigia andou fazendo muitas exposições
do Recife ao Rio Grande do Sul. Na hora de parar foi preciso pensar: Vila Velha,
já muito conhecida, foi a opção.
O
que impressiona nos trabalhos de Massena é a envolvência
realmente humana que têm suas paisagens, distantes da
idéia de realismo fotográfico. A máquina
capta, no mesmo instante e com a mesma intensidade, todos
os detalhes de uma paisagem. A visão humana não.
Quando fixa alguma coisa, tudo o mais são manchas.
Assim são seus quadros, suas manchas e definem assumindo
formas precisas, vivas, cheias de movimentos, tudo no mais
belo sentido impressionista.
Nas
suas obras estão patentes os mais variados recursos
da perspectivas aéreas, das pinceladas, dos processos
das tintas, das transparências de aquarela, do desenho,
enfim de um aprendizado de 89 anos, terminando do leito na
parede de um quarto do Hospital dos Funcionários Públicos.
No
desenvolvimento, até a apoteose, de uma escola que
nasceu ao mesmo tempo que ele, e que, numa atmosfera propícia,
desenvolveu imperturbável, apesar dos alardes em torno
da pintura moderna, até as últimas conseqüências,
houve muito estudo, muito conhecimento, muita compreensão
e amor. Amor à natureza, vivência de seus mistérios
é, portanto, o testemunho de sua obra, que bem merece
ser conservada.
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