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Aristeu de Aguiar
Livro:
Biografia de uma Ilha
Autor: Luiz Serafim Derenze
A
30 de junho de 1928, numa tarde belíssima de luz, de
alegria e de esperanças, Aristeu Borges de Aguiar assumia
o governo do Estado debaixo dos melhores augúrios,
porque, eleito por unanimidade dos partidos políticos,
representava o talento a serviço de um moço
cheio de fé e de força de vontade. Atingia apenas
o limite mínimo prescrito pela Constituição
para o exercício da suprema investidura estadual.
Fizera sua carreira na advocacia e no magistério. A
juventude o admirava e lhe tributava respeito. Não
gozava dessa popularidade mural, que se tornou famosa em nossos
dias de demagógica cotação de votos.
Era homem educado, austero e de probidade profissional. Pertencia
a uma família capixaba, de poucos haveres e de muitos
estudos. Firmara conceito desde os bancos acadêmicos.
Na história dos homens ilustres do Espírito
Santo, no capítulo da honradez e da inteligência,
toda a sua família pode figurar ordenadamente no mesmo
polimônio. Dois farmacêuticos, dois médicos,
dos quais Eurico, higienista avançado nos estudos da
medicina sanitária, um engenheiro civil, Ormando, aluno
laureado da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com
prêmio de viagem à Europa, um economista, Audifax,
que abandonou o curso de engenharia, depois de receber o prêmio
de melhor aluno do curso fundamental, e uma professora normalista.
Aristeu Borges de Aguiar nunca havia exercido função
política. Fora diretor do ginásio estadual e,
nos últimos meses do governo Ávidos, chamado
à Secretaria da Presidência. Sentou-se na cadeira
presidencial com autoridade, independência, otimismo,
conhecedor dos problemas estaduais, naquela fase de “um
passo à frente” da vida econômica e política
do Espírito Santo. Seu nome surgiu na intimidade familiar
de palácio. A candidatura do Dr. Argêo Monjardim
que andou no ar alguns meses, não passou de “boi
das piranhas”.
Enquanto a comissão coordenadora do Partido Republicano
Espiritosantense amortecia o choque entre os “monizistas”
e “monteiristas” – Nelson Monteiro, líder
da Assembléia Legislativa, Xenocrates Calmon e Moacir
Ávidos, herdeiro presuntivo do governo, levaram o nome
de Aristeu Aguiar à consagração unânime
dos corifeus políticos. O preço do beneplácito
do Presidente Ávidos foi a garantia de sua eleição
ao Senado Federal.
O velho médico Joaquim Teixeira de Mesquita foi o refém
escolhido pelo Dr. Florentino Ávidos para guardar-lhe
a cadeira de senador durante o período de carência
constitucional. A vice-presidência do Estado, cuja vacância
se resguardou, na eleição de março de
1928, seria o prêmio à fidelidade do bisonho
senador temporário. Foi o único compromisso
imposto ao Dr. Aristeu para ascender à presidência
do Estado. E foi cumprido, mais pelo jovem Presidente do que
pelo senador “interino”, que se aclimatara no
velho casarão da Rua Moncorvo Filho. Renunciou sem
disfarçar sua acrimônia dispéptica. O
Secretariado de Aristeu Borges de Aguiar só foi conhecido
no dia da posse. Nem todos os titulares foram nomeados na
cerimônia protocolar.
Os escolhidos eram todos capazes e dignos, mas o povo os recebeu
com reserva, porque pertenciam à mesma família,
com exclusão de três nomes, também ilustres,
porém da mais estreita intimidade do Presidente. Foi
o primeiro erro cometido pelo governo, porque atingiu a malícia
das massas populares. E o povo, que parece surdo e cego, desperta,
às vezes, ao ruído mais sutil, vendo coisas
que só a fantasia pode representar.
Até
o advento da revolução de 1930 a política
nacional se processava intra-muros, numa esfera limitada de
elite familiar em que o povo era praticamente expectador passivo.
Os governos deliberavam de plano. Não havia preocupação
de popularidade. Os partidos não dependiam do favor
das massas, mas do apoio que lhes prodigalizava o Poder Central
da República. Os partidos não passavam de ficção.
O voto era “recolhido” pela autoridade, como se
fora um tributo periódico, devido ao governo, pelos
favores administrativos realizados. O povo não estava
politizado. Sua força não era complanar, não
se compunha em benefício de uma resultante. Esse sistema,
não obstante, em contradição com o regime
republicano democrático, foi o clima, sob o qual se
processou a vida da primeira república, com proveito
indiscutível para a nacionalidade.
Na
pobreza demográfica do Estado escolheu os melhores
valores. Se a escolha recaiu no ambiente familiar, foi apenas
o fator confiança que atuou.
O
governo Aguiar não alterou, sensivelmente, a fisionomia
da ilha. Durou apenas vinte e oito meses e assistiu à
mais desastrosa queda do café, jamais registrada na
história econômica da América: o fechamento
da Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929. Foi
o grande general da revolução comandada por
Getúlio Vargas.
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de 1929
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