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Pintura do artista Kleber Galvêas.

Uma breve biografia de Kleber Galvêas

Em busca de ar puro, minha família veio para o Espírito Santo, há três gerações. Meu avô era farmacêutico no Rio de Janeiro e, recém-casada, minha avó ficou tuberculosa. Naquele tempo, ainda não se conheciam os antibióticos (a penicilina só foi descoberta em 1940). O único tratamento recomendado era o ar puro da montanha.

Meu avô radicalizou: vendeu tudo no Rio e embarcou num trem da Leopoldina em direção à Serra do Caparaó, onde o Pico da Bandeira era tido como ponto culminante do Brasil. Desceu na estação mais alta da linha, Divisa (hoje Dores do Rio Preto, próxima ao ponto de encontro do ES, MG e Rio) Lá comprou um terreno; construiu casa e farmácia (Pharmácia Galvêas). Ela era completa: sala de exames, alopatia, homeopatia, laboratório de manipulação.

Minha avó sarou e teve nove filhos. A farmácia prosperou com a explosão do café arábica na Serra do Caparaó. Meu pai foi estudar medicina na Praia Vermelha, Rio. Voltou formado sanitarista. Casou; eu nasci e fomos morar em São Mateus, onde ele ajudou a montar e dirigiu o primeiro Posto de Saúde Pública do norte do ES.

Com a família no sudoeste e nós no nordeste do Estado, fazíamos todos os anos, de 1949 a 1955, pelo menos duas viagens em diagonal, percorrendo o ES de norte a sul. A primeira delas, atravessando uma floresta quase contínua. Nas seguintes, passando sempre por queimadas que avançavam até a estrada. Cruzávamos o Rio Doce de balsa, dentro de um Austin ou Jeep, espremidos entre caminhões de 5 m de altura, carregados de carvão.

Mudamos para a Prainha, Vila Velha, em 1955. A cidade se resumia ao nosso bairro. A Praia da Costa era uma fazenda com bois. Entre ela e a Prainha, apenas mangue e caranguejos. Acompanhei a explosão imobiliária que deixou a Praia da Costa sem praças.

Em 1974, mudei para a bucólica Barra do Jucu. Na Rodovia do Sol, sem pontes e sem asfalto, não circulavam carros. Concluída a estrada iniciou-se a ocupação desordenada e a degradação do entorno da Barra. O Rio Jucu virou um córrego e, na sua foz, são lançados os esgotos de Araçás, Barra e Terra Vermelha.

O ar poluído, diferente do tempo dos meus avôs e da minha infância; a floresta destruída, sem que sequer soubéssemos o que estávamos queimando; a Praia da Costa ocupada, 100 anos depois de Copacabana (que preservou suas praças); e a degradação absoluta da Barra do Jucu, foram transformações que acompanhei de perto. Isto influenciou minha formação e provocou meu caráter para a reação. Pesquisa recente indica que Meio Ambiente é também preocupação de 2% dos capixabas.

Enquanto for possível vamos respirar fundo, abrir os olhos, conhecer nossa terra e sensibilizar o próximo.

Por: Kleber Galvêas (05/2008).

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