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Antônio Athayde e a Colonização
do ES
Discurso
proferido pelo Dr. Antônio Francisco de Athayde, presidente
da Casa do Espírito Santo, na noite de 23 de maio de
1935 em Sessão Solene do Instituto Histórico
e Geográfico do ES, fundado em 12 de junho de 1916.
“Há
quatro séculos, na data de hoje, o benemérito
fidalgo Capitão e Governador Vasco Fernandes Coutinho,
com sua família e mais 60 povoadores, aportava na bela
enseada de Piratininga, em sua caravela – Glória
– trazendo os rebentos de nossa civilização.
Quando hoje,
pela manhã, as salvas atroavam de diversos pontos da
cidade, saudando com galhardia, o alvorecer da data magna
do nosso povoamento colonial, recordava, que, da amurada da
caravela mensageira, também Vasco Coutinho fez saudar
a nova terra e a nova gente, acordando a natureza virgem que
dormia seguramente há mil anos, para iniciar o trabalho
promissor da felicidade humana.
Despertadas,
assim, as hostes bravias dos Goytacaz e dos Aimorés,
deu-se fatalmente o encontro ou o choque renhido e tenaz do
selvagem contra o civilizado.
No entanto,
Vasco Fernandes Coutinho procurou inteligentemente, com rara
habilidade, vencer as hostilidades do meio e aproximar-se
do índio. Fez-se estimado na tribo, fomentando ele
mesmo a catequese leiga, na falta da religiosa, pois os jesuítas
Afonso Braz e Pedro Palácios, ainda não tinham
começado metodicamente a santa missão. Todos
os serviços rurais caminhavam regularmente, desde que
as tribos assaz satisfeitas, estavam mais ou menos pacificadas
e os colonos bem instalados em suas geiras.
Animado e conformado
do relativo progresso de sua Capitania, resolveu Vasco Coutinho
partir para Lisboa, em 1552, afim de trazer novos colonos
e conseguir mais elementos de prosperidade, deixando a testa
do serviço administrativo a D. Jorge de Menezes, seu
companheiro de viagem e de governo, com recomendação
especial de não serem perturbadas suas ordens nessa
interinidade.
Triste revés
de sorte!... Fez-se de vilão o seu substituto!...
Na sua ausência,
as hostes de rebelaram. Travam-se sucessivos combates. Os
índios são escravizados, açoitados, maltratados
e vendidos. Jorge de Menezes, o responsável por toda
essa vilania, bem assim, Castelo Branco, Manoel Ramalho e
Bernardo Pimenta não souberam prudentemente corresponder
à confiança do Governador. São trucidados.
Todos os serviços
agrícolas de desorganizam, completamente. Os colonos
fogem espavoridos para diversos pontos da Capitania.
Verdadeira catástrofe!...
Nesse momento
de tão profunda desolação, chega, de
volta, o donatário à sua Capitania – encontrando-a
reduzida a miséria!...Contudo, ele não sucumbiu
à hecatombe. Tentou ainda salvá-la. Apela para
o Governador e Capitão General do Estado, Mem de Sá,
que se achava na Bahia.
Este, atendendo
o pedido de socorro, mandou imediatamente seu filho Fernão
de Sá, com uma regular expedição, para
combater os índios rebelados, e morre, infelizmente,
em combate , à margem do Cricaré – rio
São Mateus, em abril de1558.
Triste fatalidade!
Vasco Coutinho, contudo pode ainda enfrentar as dificuldades
e melhorar a situação dos seus colonos; porém
o seu abalo moral era tão violento e profundo, a sua
saúde tão comprometida que só teve tempo
de voltar para Lisboa, entre os seus, em 1561, exaurido de
todos os recursos e completamente pobre!
Assim desapareceu
do cenário da vida, meus senhores, o benemérito
fundador da nossa civilização! Se é certo
que quem administra é sempre vítima de graves
injustiças, evidentemente, não faltaram pois
ingratidão e injúrias para tecerem as urdiduras
à coroa do martírio do nosso donatário,
tendo Varnhagem na História do Brasil T. 1º, pag.
152, feito juízo temerário sobre a sua personalidade,
dando eco à maledicência dos desafetos do seu
governo.
Entretanto,
Damasceno Vieira, Cezar Marques, Rocha Pombo e outros, consideram
Vasco Coutinho o donatário que melhor compreendeu a
responsabilidade de seu encargo, esforçando-se sempre
pela prosperidade da sua fértil e reputada capitania.
Já muito
doente, fez comunicar ao Governo Geral de Mem de Sá
sua partida do Espírito Santo.
Em Lisboa, fez
seu pedido de renúncia ao Rei, de sua capitania.
Mem de Sá
manda eleger provisoriamente governador do Espírito
Santo, o capitão-mor Belchior de Azevedo, provedor
da Fazenda Real,
com a notada recomendação de – se aparecer
algum herdeiro de Vasco Coutinho lhe entregar imediatamente
o governo.
Foi convidado
em Lisboa o seu filho Jorge de Mello que não quis aceitá-la.
Coube então a capitania ao seu filho natural Vasco
Fernandes Coutinho, casado com a nobre dama de Pizza, D. Luíza
Grimaldi.
Falecendo este
2º donatário do Espírito Santo, sucedeu-lhe,
na governança da Capitania, a sua eminente esposa,
cuja administração foi eficientemente pacífica
e próspera. Desenvolveu-se, logo, a catequese dos três
insignes Jesuítas – Affonso Braz, o pacificador
das tribos capixabas e fundador do Colégio São
Thiago; Anchieta, o famoso apóstolo do Brasil, o celebra
catequista de Reritiba, e Pedro Palácios, o fundador
do maravilhoso e deslumbrante Convento da Penha, cujo o terreno
foi doado pela respectiva governadora Luíza Grimaldi.
Reivindiquemos
as glórias de Vasco Coutinho, caríssimos confrades.
Vós bem o sabeis. O sublime ideal do Instituto é
zelar com amor o que é nosso, defendendo o patrimônio
material, intelectual, social e moral do Estado do Espírito
Santo, que é também o da Pátria. Sem
autonomia estadual definida, a Federação não
pode existir.
Façamos
aqui o culto cívico ao Passado; pois, se sabemos e
valemos alguma coisa, perante a civilização,
devemos a ele somente. Consagremos, pois, a nossa grande veneração
ao saber e à experiência dos nossos antepassados,
que à semelhança dos velhos troncos de velhas
árvores, souberam vencer idades e procelas pela atual
felicidade.
O culto cívico
que hoje prestamos à memória de Vasco Coutinho,
constitui um serviço relevantíssimo que beneficia
a comunhão espírito-santrense, desenvolvendo
respeitosamente a educação moral do povo, em
homenagem ao Passado – que é o nosso mestre.
Defendemos,
integralmente, com patriotismo as nossas fronteiras, as nossas
tradições, os nossos heróis, as nossas
magnificências, as nossas glórias, as nossas
relíquias tumulares, pois assim honramos e dignificamos
a nossa terra e a nossa raça.
Evoquemos neste
instante a memória de todos os mártires que
argamassaram com seu sangue, a civilização do
novo Espírito Santo.
Parafraseando
as estrofes evocativas do poeta Natividade Saldanha, digamos:
Os Jovens capixabas,
Descendentes de heróis, heróis vós mesmos,
Pois a raça de heróis não degenera.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Vasco Fernandes
Coutinho é o glorioso fundador do Povo Capixaba!
Salve! O benemérito
donatário da Capitania do Espírito Santo”.
Nota: Dr. Antônio
Athayde era Presidente honorário do Instituto Histórico
e Geográfico do E.S. e da comissão encarregada
das comemorações do 4º Centenário
do Espírito Santo em 23 de maio de 1935.
Participou em 1916 da
fundação do Instituto Histórico e Geográfico
do Espírito Santo, organização não
governamental em funcionamento até hoje com sede própria
no Parque Moscoso em Vitória. Foi Presidente da primeira
diretoria eleita entre 1917 e 1919 e reeleita para o período
de 1919 até 1921.
PESQUISADO
POR WALTER DE AGUIAR FILHO
FONTE: INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO ESPÍRITO
SANTO
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