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Lembrando do Mestre
Autor: Kleber Galvêas - Pintor
Tel.: (27) 3244-7115
Homero
Massena fez sua última exposição em 1968.
Não havia nenhuma galeria no ES, ela aconteceu na entrada
do Carlos Gomes. O teatro estava caindo aos pedaços.
Uma reforma completa foi iniciada logo após e Massena,
convidado para pintar o teto. Ele tinha 84 anos, subiu escadas
íngremes e realizou o trabalho.
Massena
revolucionou nossa pintura. Até 1951, data da inauguração
da Escola de Belas Artes do ES, preponderava aqui a escola
da Irmã Tereza Monteiro Novaes, no Colégio do
Carmo. Ela estudou pintura com Carlos Reis em Vitória
e acadêmicos famosos no Rio. Foi mestra dedicada por
mais de meio século. Com suas discípulas produziu
obras para culto das igrejas católicas, eventos cívicos
e decoração de residências. Iniciou centenas
de capixabas na pintura, uma dessas foi minha mãe,
de quem tenho dois óleos de 1938, para análise
e comparação com os de Massena. A Escola do
Carmo era de maneiristas: o desenho bem acabado e as figuras
representadas com contornos bem definidos recebiam a cor,
como complemento. Faziam, na verdade, desenho colorido.
Na
escola de Massena a pintura se liberta. O desenho continua
a ser feito com rigor de perspectiva, claro-escuro e definição
de espaços. Perde a sua função de contorno
e ganha importância como estrutura, orientando a cor
aplicada com pinceladas soltas, tintas diluídas, criando
veladuras ricas em matizes. É a pintura com suas tintas
cozinhadas na paleta e texturas representando a natureza dos
materiais, o movimento, a luminosidade natural e emoção.
Tudo isto com fatura original e extrema economia, até
no tema. O resultado envolvente nos coloca em comunhão
com a natureza capixaba.
Impressionista,
ciente das transformações provocadas pela luz
na forma e cor dos objetos, certo de que o branco puro e o
preto inexistem na natureza e de que a linha do horizonte
é abstração, Massena pesquisa ao ar livre,
ganhando dimensão como antropofágico. Digerida
a técnica que absorveu nos grandes centros como Rio
e Paris, foi capaz de criar ume estilo próprio e inconfundível
mesmo para o leigo, representando nossa natureza com elegância.
Diante de uma tela sua, sabemos onde estamos. A sensibilidade
do artista perenizou trechos da nossa terra, nossa gente,
nossos costumes e nos emociona.
Massena
viveu de 1885 a 1974: viu nascer a república e o homem
pisar na lua; a evolução dos transportes, do
cavalo para os carrões e aviões; o aparecimento
do rádio, TV... Concordava com os futuristas italianos
que consideravam a velocidade como principal agente de transformação
da vida e estética moderna; desprezava, entretanto,
suas considerações sobre a beleza do som das
metralhadoras e a coleção do Louvre. Via em
Mondrian, a expressão mais lúcida da estética
moderna e a pop arte o retrato da sociedade de consumo. "A
novidade não é necessariamente a rejeição
do velho. Enxergamos longe quando observamos de cima de uma
base sólida e alta. A evolução acontece
por curzamentos, mutações são vistosas,
mas transitórias, dificilmente deixam descendência".
Romântico como Juscelino, viu a interação
entre sua obra e a arquitetura moderna, quando ele quis uma
tela sua para decorar o gabinete da presidência, no
Palácio do Planalto.
Embora
tenha sido fundador, professor e o 1º diretor do Centro
de Artes da UFES, nossa Universidade esqueceu o artista. Nós,
capixabas, depositários da pintura mais antiga exposta
nas Américas (Convento da Penha) e da pintura mais
antiga feita no Brasil (Reis Magos), passamos a ter com Massena
uma escola de pintura, a sétima do Brasil. Rever a
sua obra, na hora em que acontecem profundas transformações
na paisagem e estilo de vida dos capixabas, pode nos proporcionar
reflexões muito interessantes, para ajudarmos a construir
o futuro.
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