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DIA-A-DIA
NO BONDE
Fonte: Ecos de Vila Velha
Autor: José Anchieta de Setúbal
Mulher
não viajava nos estribos do bonde. Se o veículo
estivesse lotado e não houvesse lugar para ela sentar,
quase sempre alguém se levantava, comportamento muito
próprio da época. Caso isso não acontecesse,
viajava em pé, entre os bancos.
A passagem do bonde custava, por pessoa, quatrocentos réis.
A metade do percurso até Aribiri, em ambos os sentidos,
custava duzentos réis. No reboque, considerada condução
de segunda classe, pagava-se metade desses valores. Os estudantes
gozavam, nas passagens, de um desconto de cinqüenta por
cento controlados pela Companhia Central Brasileira de Força
Elétrica com fornecimento de carteiras de passes destinadas
a durar exatamente o período escolar de um mês.
Para que esses passes fossem renovados, mensalmente o educandário
dava o visto nas carteiras prestes a expirar, comprovando
que os seus portadores realmente eram estudantes em atividade
escolar.
Tripulantes e passageiros, pelos encontros constantes no vai-vém
das viagens, acabavam se familiarizando uns com os outros.
Da nossa parte gravamos os nomes e as imagens de alguns desses
profissionais. Como condutores: João de Jaburuna, Maurício,
Floriano – apelidado de Beija-Flor – e João
Cabeção. Como motorneiro lembramos Alarico,
residente em Aribiri e conhecido por ser um nordestino muito
falante e também pelas suas meias-paradas dos bondes,
favorecendo o embarque e desembarque de passageiros fora do
ponto. O seu Hermínio, um fiscal sempre atencioso para
com a clientela, retinha o veículo sob a sua responsabilidade
se alguém mais distante necessitasse pegá-lo.
Se uns são lembrados pelos seus favores, outros marcaram
ponto em sentido contrário. Nesse rol incluímos
a figura pouco simpática, pelo menos para nós
quando estudante, de um fiscal cujo nome não nos ocorre.
Sabemos que tinha uma das vistas vazada e por isso, pejorativamente,
era conhecido como Galo Cego. Entretanto, ninguém ousava
chamá-lo pelo apelido, muito mais por respeito que
por medo.
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