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* ENTREVISTA COM ARNALDO BARROS - 22/12/05 *
22/12/2005

Site: E as histórias dos túneis?
Arnaldo: Os túneis do Convento ... Ronilson era um camarada que morava ali na Prainha, que era vidrado nesse negócio, ele ira pra Iriri, na ilha dos Franceses ver se achava tesouro dos piratas, e aí viajava naquilo, eu já sabia dessas lendas do Convento, dos túneis que os jesuítas fizeram para escapar de ataques, que esconderam seus tesouros, tem aquela história do santo do pau oco, então vai ver que tem muitas imagens lá cheias de ouro. O Ronilson andou procurando isso e uma vez ele chegou a falar que entrou em uma gruta (o Convento tem várias grutas, já entrei em várias lá) e encontrou uma gruta com uma inscrição com o nome de Frei Pedro Palácios. A gente era estudante na época, vidrado nessas histórias, nessas lendas fantásticas da época da invasão holandesa em Vila Velha, retratados pelo Benedito Calixto em seus quadros, então a gente ia futucar, ver se achava alguma coisa. E olha, deu muito trabalho: sábado, domingo... E eu trabalhava na época, trabalhava na feira porque a renda familiar era pequena e a gente estudava num colégio caro (Marista), então tinha que complementar. Meu pai trazia algumas mercadorias do interior para a gente revender e eu vendia na feira. Toda hora de folga que eu tinha, ia com o Gilson procurar o tesouro. Tinham muitas lendas.

Inclusive, a do lendário Padre José. Era um padre que ajudava na missa do Convento. Ele não era franciscano, era outra ordem religiosa, era padre mesmo. Mas ele era um padre meio pra frente, tomava cachaça, fumava, tinha uma orelha grande, andava de batina por aí, tinha um furo na orelha. Chegava no Simões, que tinha uma loja na esquina da rua Antônio Ataíde com a rua Castelo Branco e estava sempre lá tomando uma pinguinha. Ele morava dentro da mata do Convento, onde o pessoal fazia ofertas de animais. Tinha gente que vinha cumprir promessa, do interior, trazia bezerros, cabritos, oferecia alguma coisa a Nossa Senhora, e chegava aqui, não tinha onde colocar esses animais, colocavam na mata do Convento. Lá então os padres fizeram um cercado que abrigava esses animais. O padre José morava ali. Ele era um padre que tinha muitas amantes - não era lá um padre muito certinho -, e que tinha muitos filhos aí por Vila Velha. A gente ficava catando quem eram os filhos do Padre José, pelo tamanho das orelhas.

E o padre sempre misterioso. Depois que o padre José morreu, nós ficamos em busca do que ele deixou e não falou com ninguém.

Site: Como o Sr. se envolveu com a cultura de Vila Velha?
Arnaldo: Além dessa diversão, havia os Ternos de Reis (Reisados). Eu já conhecia alguns fatos folclóricos do interior, Não que eu participasse diretamente, mas apreciava. Estranhamente, quando cheguei aqui em Vila Velha, que a gente imaginava uma Cidade, ao lado de Vitória (não era o interior), a gente nem imaginava que ia encontrar isso aqui. Mas chegamos aqui e encontramos, então a gente se identificou com isso.

É muito interessante essa questão do fato folclórico, pois tem uma função pedagógica, educativa, por exemplo: No interior, o Estado mandava uma professora para ficar na casa de um fazendeiro, num cômodo qualquer e ensinar as crianças. Essa era a escola do interior. Muitas vezes elas chegavam lá e utilizavam como método pedagógico as coisas da roça mesmo. Então essas manifestações são formas de ensinar e até mesmo de intimidar às vezes. Como por exemplo: - Olha não vai lá, que tem a mula sem cabeça, o lobisomem, o bicho-papão. Ao invés de dizer que é perigoso, você pode morrer, dizia que tinha o bicho-papão. Tinha também o carcaieiro. Os carcaieiros são esses mendigos que andam com um saco. O que em alguns lugares é Homem do Saco, em outros é chamado de carcaieiro, cheio de carcalhos.

Então nós chegamos aqui e encontramos essas festas bem parecidas com o interior que eu conhecia. Foi quando eu conheci o Seu Benedito, ali perto do Canal Bigossi. Ele tinha um boteco, uma vendinha que vendia raízes, cachaçinha, vela, coisa pouca, só para ele se sustentar. O seu Benedito, como o nome indicava, era devoto de São Benedito. Era comum as mães batizarem os filhos com nome de santo e depois o filho ficava a vida toda fazendo reverência ao santo. E ele conhecia a congada, era mestre de congo.

Site: E a história de que mataram o Benedito?
Arnaldo: Mataram o Benedito. Infelizmente teve um dia que houve um desentendimento na venda dele, e mataram o Benedito. Foi um corre-corre, porque os grandes e pequenos da sociedade conheciam o Benedito porque ele fazia a festa dele, uma vez por ano, com sua banda de congo, e trançava Vila Velha toda. Não tinha nada para fazer, não tinha televisão, tinha no máximo um rádio, ou um futebol no campo do Tupi. E a procissão era interessante, porque percorria as ruas de Vila Velha. Mas o Benedito morreu, aquilo foi acabando e esse fato folclórico sumiu. Ele não deixou substituto. Depois eu terminei comprando o rádio do Benedito, que nem tenho mais, um rádio de válvula.

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