Site: O sr. veio de Cariacica e foi morar em qual bairro de Vila Velha?
Arnaldo: Eu vim pro Centro de Vila Velha, eu morei na Luciano das Neves em frente à Igreja Batista. Era vizinho do Tuffy Nader. Eu vim voltar a conviver com ele aqui já como prefeito.
Site: Hoje o sr. mora aonde?
Arnaldo: Hoje eu moro na Barra do Jucu, e estou com 63 anos.
Então nessa época que eu vim para cá a gente foi se enturmando, e foi participando de todos eventos sociais. Naquele tempo era muito comum as domingueiras, se hoje você tem tênis, celular, naquela época tinha o seu modismo, que era alpargata roda, é um calçado feito de sisal. O solado dela era de sisal e uma lona por cima e era muito barato. As pessoas podiam adquirir com muita facilidade e era vendida na vendida na venda do Zezeu (Elizeu Pedro de Queiroz), o Antenor Braga, essas lojas. Antigamente não tinha supermercado, havia vendas, que vendia de tudo, secos e molhados e alpargatas roda ficavam lá com aqueles montes amarrados numa corda e a gente ia até lá e comprava, aquilo fazia sucesso com as meninas. Tinha o banlon, que era uma camisa de cores variadas de um tecido especial sintético, mas ele ressaltava muito. O banlon era um padrão de status dos jovens. Foi nessa época que começou a aparecer por aqui o Roberto Carlos apresentando suas musiquinhas. Ele não era famoso. Veio apresentar as musiquinhas dele no Boris Castro Show que era da Rádio Espírito Santo, que era um programa de auditório que distribuía prêmios, e nessa época vieram vários, essa turma que faziam parte dos “The Fivers”, o Ademir, o Almir, moravam ali na Toca. Eles vieram do nordeste e moraram muito tempo ali na toca.
Roberto Carlos veio aqui várias vezes procurar Ivan Reis para apresentar ele lá no Bonfim, onde ele foi até vaiado, coitado, ninguém o conhecia, também ele não cantava nada, como não canta até hoje. O tipo da música dele é agradável, vale apenas o estilo, mas voz mesmo, vale o recurso eletrônico, que naquela época não tinha.
Mas o que era gostoso na época era o aspecto urbano da cidade, nós não tínhamos prédios, era tudo casa baixa era aquele ambiente familiar, ainda como na cidade do interior, todo mundo conhecia todo mundo.
Site: Quais eram as diversões?
Arnaldo: Para os jovens havia as domingueiras. Domingueiras eram em vários clubes que nós tínhamos por aqui. Nós tínhamos o Golfinho Iate Clube, o Olímpico, o Atlético, o Clube dos Sargentos e o Arci lá no Ibes. As domingueiras eram o seguinte: quase não era música ao vivo, colocava o aparelho de som e reproduzia em disco - vinil, naturalmente, na época -, todas as músicas que estavam fazendo sucesso no momento. Então tinha Jairo Maia Disco o Cassino Pinheiros, outras lojas que vendiam e os clubes adquiriam, faziam grandes coleções para ficar rodando aquilo o dia todo, até de manhã.
Site: O Clube Golfinho era aonde?
Arnaldo: O Golfinho Iate Clube ele começou na estrada da Marinha, na antiga rua São João na época da colonização, lá em Inhoá, logo depois da casa de Homero Massena, aquela ruazinha que vai pro Godofredo Schneider, era logo na frente já quase chegando no portão da Marinha, o Golfinho Iate Clube era por essa razão, pertinho do mar. Depois foi para onde é a Câmara Municipal, hoje.
Nessa época a Prainha era prainha, praia, de um lado praia, do lado direito mais para fralda do lado do morro do Convento que onde tem hoje aquela quadra poliesportiva, aquilo ali era um cais de atracamento de barcos de portos que conduzia pessoas para baía de Vitória, sobretudo os pescadores. As donas de casas iam lá diariamente, escolhiam os peixes fresquinhos que chegavam, os senhores aposentados também. O que a gente mais via por ali era as donas de casa, antes do almoço, irem lá esperar chegar os barcos, e às vezes eles passavam a noite e chegavam de madrugada e vendiam ali mesmo. O que sobrava lá, logo depois de 9, 10 horas, eles traziam para o mercado da capixaba, uma parte, a outra parte ia para o mercado de Paul.
Aqui nós tínhamos vários mercadinhos, pois como não tinha supermercado, era pulverizado aqueles mercadinhos, era tudo padronizado. O mercado ali da Prainha onde é hoje a Secretaria de Saúde, aquilo ali era um mercado. A outra parte ia para pro mercado de Paul que ficava naquele canto onde tem o cais da lancha em Paul. Ali havia uma integração da linha de bonde com a linha de lancha lá em Paul. A pessoa ia de bonde, a linha de bonde terminava em Paul e ali ele pegava a lancha e atravessava.
Nas domingueiras os jovens iam para o Clube Golfinhos, se divertiam, passavam o dia todo dançando. Era o primeiro ritual de passagem da adolescência, que ele começava a namorar, muitos desses aí hoje são casados com as meninas que conheciam.
Site: O sr. também casou com alguma menina dessas domingueiras?
Arnaldo: No meu caso não, pois eu fui para Minas e me casei lá. Mas a maioria deles, como Reinaldo Passos Vieira que casou com Vivi, separou depois, mas se conheceram nessa época das domingueiras. A Aldinha que namorava com Espaquete, e assim por diante. Tinha aquela turma do colégio Marista.
Vila Velha era uma cidade muito familiar sem prédio sem nada, quando você tem esse tipo de urbanismo, de arquitetura, com as janelas abertas de frente pra rua, você visualiza as pessoas, as pessoas se cumprimentam, se conhecem, se cruzam sempre na rua. Ainda que você mora numa rua muito distante, a cidade parece perto. Hoje não, pra chegar na outra esquina tem que pegar um ônibus, porque você não consegue atravessar, a infra-estrutura urbana está toda voltada a um tipo de transporte que conduz a gente a algum lugar, ou pelo metrô ou pelo ônibus. Antigamente não tinha isso, você escolhia seu caminho, você tinha liberdade e ia encontrando todo mundo por aí, e aí que você ficava sabendo das coisas.
Como não havia televisão nem outra atividade, era comum a gente ouvir as histórias dos mais velhos e começava a tomar conhecimento das lendas de Vila Velha, que o morro da Mantegueira, naquele casarão, é mal assombrado, mas tem um tesouro lá, e a gente ficava curioso de ouvir e ir lá, de vez em quando a gente ia até Inhoá.
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