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*ENTREVISTA COM MOLGA - 08/03/06 *
08/03/2006

Site: O que o Museu está precisando hoje?
Molga: Precisamos de restauração, de uma pessoa que seja esclarecida com relação a livros. Eu quero condicionar esses livros, que Massena deixou todos, eu gostaria de fazer redomas para colocar esculturas, ele deixou discos, mas como vou mostrar os discos antigos?

Site: Como a senhora se imagina daqui a alguns anos?
Molga: O Brasil é um país de burocracias. Então tudo que é documento, coisas que eu preciso para me aposentar de vez, demoram a sair. Então, enquanto tudo não se resolvia, eu tinha que continuar trabalhando, mas eu não fugi demais, fiquei no meio de arte, fiquei na Galeria Homero Massena, agora estou no Museu e Ateliê Homero Massena.

Mas eu não penso em ficar toda vida porque vai chegar uma época, em que podem até precisar de você, mas você não tem mais vontade. Meu sonho mesmo, de verdade, é ter um marchand para que eu possa só produzir. Eu não quero mais ficar com a coisa árida de fazer mídia, ver espaço, correr atrás de outras coisas, ver preço. Isso machuca o artista.

Minha vontade é ter um local para trabalhar, mesmo que seja no meu apartamento, mas que seja tranqüilo. Eu quero uma vida mais regulada, quero poder trabalhar, as pessoas poderem me visitar no trabalho, saber que me encontram sempre, que é ali. E ter uma pessoa que vá divulgando meu trabalho, e o marchand faz isso. Aí poderei criar mais, avançar mais no meu trabalho.

Site: Como a arte pode transformar o ser humano?
Molga: O mundo do artista é diferente. Eu viajo muito com pessoas da “melhor idade” para arejar a cabeça e encontro pessoas de todo tipo. Ando muito no calçadão da Praia da Costa, converso com uma pessoa, converso com outra. Eu lido com pessoas de todo tipo. E me vejo muito diferente.

O artista tem uma sensibilidade aflorada, ele enfrenta essas coisas de repartição pública, mas isso para ele não é sadio. É sadio na hora que mexe com arte, fazendo coisas boas, vendo trabalhos de Homero Massena, tendo cuidado com tudo que foi dele. Edy era muito carinhosa, muito minha amiga, cuido em memória mais a ela até do que a ele, pois ele tem a memória bem cuidada e ela foi uma artista anônima, que ficou ao lado dele inspirando. O mundo do artista é de sentimento, emoção, você vê uma folha como ninguém vê, paisagens diferentes.

Site: Como você vê a posição da mulher na sociedade hoje em dia?
Molga: Atualmente é muito diferente do tempo de minha mãe, quando só podíamos ser professoras, quem trabalhava em escritório já era olhada diferente...

Eu acho as mulheres hoje em dia muito guerreiras, é difícil uma que não seja. A que não é procura imitar a outra. As mulheres se agarram com unhas e dentes às suas causas. Mesmo que não sejam valorizadas, pois às vezes ganham metade do que um homem, mas ela se esclarece, segura uma barra e depois, não só trabalham fora, mas em casa também dão conta de tudo! Então são muito responsáveis, guerreiras "pra chuchu".

A mulher desse século é tão guerreira que está vivendo mais do que antigamente. Só que também está se estressando mais, o câncer de mama tem atingido até mulheres jovens, não sei se por estresse ou por hormônios, a ciência ainda vai descobrir.

Site: Cite o nome de uma grande mulher.
Molga: Minha mãe, que já se foi. Para mim, foi a primeira mulher guerreira. Ela deixou de ser diretora do Colégio Vasco Coutinho com disposição para abrir outras escolas, desbravar os bairros Divino Espírito Santo, Itapoã, Itaparica. Ela desbravou aquilo tudo com escolas isoladas.

Site: Como era o nome dela?
Molga: Francelina Carneiro de Setúbal. Deu vida àquela gente que não tinha comida, comia uma marmitinha com peixinho e farinha, vivia com os pés cheios de bicho. E a gente dava as coisas para eles, dava cidadania. Na hora do recreio eu ajudei muito. Então a primeira mulher para mim é ela.

E a segunda é a dona Anna Bernardes, ela foi Secretária de Educação, e continua trabalhando. Já se aposentou, mas ela vai para a Bahia, Paraná, vai para Brasília, inclusive tem uma cadeira em Brasília na área de educação, ela está sempre colocando o Espírito Santo à frente.

Quando teve a inauguração do Vasco Coutinho, ela foi chamada a falar, deu uma aula de história para todas as autoridades que estavam ali. É uma pessoa simples, mas uma sumidade com relação à nossa cultura. Ela teve um acidente numa vista, mas estudou com uma vista só. Então para mim, ela é uma guerreira. E ela não pára.

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