JVV: Parece que Vila Velha já teve um Jornal...
Ubaldo Senna: Teve. Era do Sr. Miguelzinho Aguiar. Era impresso pelo Sr. Emiliano, no Beco do Ataíde. Era o “Partido Obreirista”, isto tudo na década de trinta.
JVV: E o cinema, como apareceu?
Ubaldo Senna: O cinema começou onde é a 1ª Igreja Batista e depois passou para o Continental, hoje Centro Cultural D. João Batista. Antes do cine Careta, então o dono era “Seu” Tininho. Passavam filme de Carlitos, do Chicabóia, de Tom Micks, tudo do cinema mudo. Na época tinha filme no domingo e no meio de semana. A entrada valia 500 réis. Eles anunciavam o filme com dois garotos carregando pelas ruas o cartaz num quadro de madeira.
Gritavam: “Hoje no CECI, belíssimo drama em cinco atos por Tom Micks”. E os garotos riscavam com uma tinta o braço de quem se aproximavam do cartaz e se guardasse a mancha não lavando entrava gratuitamente na sessão.
JVV: Voltando à questão ideológica, e os crentes em Vila Velha?
Ubaldo Senna: O 1º reduto, bastante conhecido era a “Escola Dominical”, de Dª Beatriz. Ficava perto da minha casa. Ela chamava para cantar hinos lá, para ver se conseguia adeptos. Minha mãe já dizia que o fanatismo religioso é o ópio do povo.
JVV: Como surgiu a Fábrica de Bombons Garoto?
Ubaldo Senna: Na praça Capitão Octávio Araújo, perto do radagázio, havia uma fábrica de balas “pelada” (bala sem papel de enrolar). O dono, Sr. Inácio Higino, morreu e “Seu” Henrique comprou as máquinas da viúva, e deu emprego na fábrica que abriu lá na Glória, que chamava “Esconderijo de Bode”, porque tinha muito cabrito por lá.
O Sr. Henrique tinha uma torrefação lá em Caratoíra, chamava Café Gato Preto, e começou a fábrica na Glória, onde havia uma fábrica de ladrilhos.
JVV: E a fábrica que havia na Prainha?
Ubaldo Senna: Onde é o Colégio Godofredo Schneider, era a foz do córrego Inserica, tinha um taboal e de tal forma que o mar adentrava por ali possibilitando um pequeno cais onde atracavam embarcações, os “pontões”. A fábrica era de um alemão, Dr. Fritz, que morava em frente ao dispensário da Praça da Bandeira. A fábrica era de beneficiar areia monazítica, que vinha de Guarapari. Dos pontões a areia ia em vagonetas para a fábrica. De lá, pelo porto de Vitória, ia para a exportação.
JVV: E o hotel do Sr. João Nava?
Ubaldo Senna: A história do hotel do Sr. João Nava, na rua Vasco Coutinho, se confunde com a do Batalhão. Ali ficavam alojados os militares que vieram organizar o que antecedeu ao 3º BC, que foi o 50º Batalhão de Caçadores. A sala de ordens deste Batalhão ficava em gente, na casa que hoje abriga o bar de “Seu Lalau”. O pessoal jazia rancho no Beco do Ataíde. O Sr. João Nava era o cozinheiro do batalhão, e cuidava da horta. No final das contas a mulher do Sr. João Nava, Dª Maria, quando enviuvou e depôs faleceu, passou o prédio para o Sr. Panizardi Augusto.
JVV: O que tinha na Praia de Inhoá, antes do aterro de onde surgiu a EAMES?
Ubaldo Senna: Tinha uma aldeia de pescadores, com choupanas. Havia uma fábrica de meias que cheguei ver funcionar. Era importante indústria de confecções da época. Mais a frente, com acesso por mar, tinha um armazém, antigo depósito de pólvora, hoje em ruínas. Em frente da praia tinha a famosa Ilha da Forca, engolida depois com o aterro da EAMES.
| <<Voltar | Continuar >> |