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A Antiga Escola Normal Pedro II

Escola Modelo e depois Escola Normal Pedro II

Portador de um modesto diploma de professor normalista, conquistado no antigo Colégio Pedro Palácios de Cachoeiro de Itapemirim, que me habilitava ao ensino primário, fixara-me em Vitória nos idos de 1936, para dar umas aulinhas de português, de geografia, de aritmética, e, nas horas vagas, escrevia artigos um tanto ingênuos sobre ensino e pedagogia, que saíam no “Diário da Manhã” ou na “Revista da Educação”, ambos publicações oficiais, E foi então que Ciro Vieira da Cunha, sempre inclinado a proteger, generosamente, os jovens metidos a intelectuais, convidou-me para substituir, durante alguns meses, a Professora Judith Leão Castelo, titular da cadeira de Pedagogia da Escola Normal Pedro II, da qual era diretor.

Fundada no início do século e submetida a rigorosa reforma de modernização no governo de Jeronymo Monteiro, a Escola Normal Pedro II funcionava ali naquele prédio ao lado esquerdo do Palácio Anchieta, onde é hoje a escola Maria Ortiz.

Naquela época ainda não havia ensino superior em Vitória, de sorte que aquela escola secundária (posteriormente é que veio a infeliz classificação de 2º grau) e outras como o Ginásio Espírito Santo, o Ginásio São Vicente de Paula, o Colégio Americano e o Colégio do Carmo reuniam em seus quadros a fina flor da intelectualidade capixaba, recrutada por meio de concursos públicos de muita repercussão.

Compunham o corpo docente da Escola Normal Pedro II, além de Ciro Vieira da Cunha e Judith Leão Castelo, já citados, mais Alberto Stange Junior, Aurino Quintais, Rita Tozzi Quintais, Manoel Lopes Pimenta, Cícero de Moraes, Quintino Barbosa, João Chrisostomo Beleza e outros cujos nomes me escapam.

Embora já habituado no curso normal que frequentei no Colégio Pedro Palácios, de Cachoeiro, ao convívio com a beleza, a brejeirice, a ironia, as insinuações e o desafio de uma maioria absoluta de garotas de 16, 17 anos, visto que pouquíssimos rapazes faziam o curso de professor primário, quando eu ia dar minhas aulas na Escola Normal Pedro II, sentia-me esmagado pelo charme, veneno e arte de tantas meninas que me rodeavam na mesa, ao fim de cada aula, para reclamar e reivindicar notas, ou fazer perguntas irreverentes e irrespondíveis. Era tal meu deslumbramento e consequente ineficiência que, certo dia, Dr. Ciro me advertiu irônico: - “Ormando, vê se ensina a essas meninas pelo menos o que é Pedagogia”.

Mas a alegria durou pouco, pois Dona Judith Castelo reassumiu sua cadeira cinco, seis meses depois e eu perdi aquela posição, que me parecia o máximo para um jovem de 21 anos. Então, o Secretário da Educação da época, Fernando Rabelo, chamou-me e disse que o único lugar disponível para oferecer-me era uma cadeira de Desenho no Liceu Muniz Freire de Cachoeiro de Itapemirim. E minha resposta teria de ser rápida, no máximo em dois dias, porque, do contrário, seria forçado a atender infalível indicação do Prefeito Fernando de Abreu, que controlava quase todas as nomeações para cargos estaduais naquele município.

Da antiga Escola Normal Pedro II que administradores públicos, mais tarde, tiveram a insensibilidade de extinguir, guardo algumas recordações marcantes: a qualidade de seu ensino ministrado pela plêiade de professores já citados e outros mais, a aproximação, a integração e a identificação de jovens de todas as origens em busca de uma profissão digna porém muito mal remunerada e os momentos felizes que me proporcionaram minhas aulas, com sua alegria, sua vivacidade, sua esperteza, sua irreverência e sua cordialidade.

Recordo tudo com bastante nitidez, principalmente de uma de minhas últimas aulas naquela escola, em 10 de novembro de 1937, após a qual tive a notícia do golpe de Getúlio, da outorga de uma nova Constituição de cunho fascista e do início do Estado Novo que se prolongaria até 1946, com suas perseguições e suas arbitrariedades insuportáveis.

O dia era ensolarado e bonito, como sói acontecer em Vitória, e eu, ao deixar o velho prédio da Escola Normal Pedro II, caminhei apreensivo (por ser simpatizante dos movimentos socialistas) em busca da casa de um amigo que, naqueles idos, possuía a raridade de um rádio, para ouvir, à noite, o anunciado pronunciamento de Getúlio Vargas e para um dedinho de prosa sobre o importante acontecimento.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Ano 1994. Nº 44
Autor: Ormando Moraes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2012



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