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A Condessa da Praia da Costa

Foto do Morro do Moreno, remanescentes da Lagoa em 1985

A Condessa da Praia da Costa era dona Elfrida que conheci, sendo que a Revista Capixaba em meados para o final dos anos 60 publicou matéria fotográfica sobre a mesma chamando-a desse título.

Ela era mãe de alunos que estudaram no meu tempo no Colégio Marista na Praia da Costa e conheci o marido dela.

Bem mais tarde a revi como professora da UFES e como intérprete da CVRD. Depois ela já viúva e doente, a visitei morando no Morro da Lagoa perto da Ponta da Fruta em Vila Velha, quando nos atendeu muito bem, levei umas laranjas de fazer doce cedidas por um amigo comum.

Estávamos numa fase de contatar personagens de Vila Velha para deixar depoimentos, para a história contemporânea, sendo que ela contou-me de forma resumida algum aspecto da vida dela, e mostrou-me inclusive lembrança que trouxera da Europa de escavações arqueológicas que participara, que era uma ponta de lança de bronze, reutilizável do tempo dos romanos.

Esses guerreiros, procuravam ser práticos e não perdiam oportunidade de reaproveitar uma ponta de lança, caso a madeira da mesma quebrasse e assim as pontas eram feitas com um encaixe perfeito, para sua reutilização. Era obra de hábeis ferreiros da época. Pois bem, mas quem era esse casal?

O nome dela era a rigor Elfride Orssich Slavetich, formada em arqueologia pré histórica na universidade de Praga, hoje capital da República Theca.

Foi assistente científica da cadeira de pré historia da Universidade de Viena - Áustria, tinha esse sobrenome eslavo por conta do marido, um croata. Ela seria de uma casa detentora de título de nobreza do extinto império Austro Húngaro dissolvido no final da Primeira Guerra Mundial em 1918.

Talvez nobre seria o marido ou ambos, questão a esclarecer.

Dona Elfrida, como conhecíamos, veio a falecer e recebeu homenagem do segmento das artes plásticas, na mostra, "Luzes para Elfrida" que ocorreu na sede do Instituto Jerônimo Monteiro em Vitória, quando revi um de seus filhos, que há muito não contacto.

A partir de então, o espaço desse Instituto para ocorrer exposição de artes plásticas chama-se Galeria Elfrida Orssich Slavetich.

Vários aspectos da vida dessa importante família poderão oportunamente ser melhor esclarecidos, para enriquecer a história canela verde.

Pela Revista de Cultura nº 19 da UFES, de 1981, o marido dela, Adam Orssich Slavetich, nascera em 1895 na Croácia, e doutourou-se em Arqueologia pela Universidade de Viena, tendo desenvolvido inúmeros trabalhos arqueológicos na antiga Iugoslávia e na Áustria.

Veio para o Brasil em 1951, e me recordo que Dona Elfrida me contou, eles estiveram primeiro no Paraná, depois o mesmo veio trabalhar com pedras preciosas no vale do Rio Doce em Minas Gerais, e em seguida vieram para Vila Velha, e aqui faleceu em 1968, aos 73 anos.

Referente a sambaqui que observou existir em Vila Velha, Adam deixou a observação: observei restos indubitáveis de um sambaqui recentemente destruído na margem de uma lagoa que se acha ao pé do Morro de Nossa Senhora da Penha a leste. Além de terra tipicamente preta misturada com conchas, vi numerosos fragmentos de ossos grandes, possivelmente humanos.

Dessa região Alberto Stange fez referência a existência de restos de sambaqui, e a lagoa citada é o remanso do meandro que o leito antigo do Rio da Costa fazia, antes de sair na Barrinha.

A destruição final do sambaqui fatalmente ocorreu quando da abertura da retificação desse curso d'água, cujo eixo principal ficou em linha reta, foi executado pelo DNOS no final dos anos 50, formando o que é hoje o Canal da Costa.

Na época não se falava em impacto ambiental de uma obra e nem de medidas mitigadoras, e muito pouco de preservação de manguezais e de sítios arqueológicos.

Pesquisa apurada no que resta, bastante degradado, talvez conseguiria achar alguma coisa significativa.

Essa lagoa era muito conhecida pelos moradores de Vila Velha pois no que a poluição era quase nenhuma, pescava-se muito no local e até banhavam-se e mergulhavam. Hoje quem passa pela Terceira Ponte a vê agonizante dia após dia.

Sempre contou nos trabalhos de campo e de escritório com a colaboração de sua esposa.

O Irmão Evaldo do Colégio Marista de certa feita andou pesquisando sambaqui com Adam na região da Serra.

O arqueólogo deixou um "Relatório preliminar sobre observações arqueológicas no território do Estado do Espírito Santo e métodos de pesquisa empregável na localização, e registro de sítios arqueológicos e pré-históricos".

Adam observava que amontoados em sambaquis não são formigueiros e distam poucos metros um dos outros e têm diâmetro de 2 a 3 metros.

Creio que para resgate da história de Vila Velha vale a pena o aprofundamento da pesquisa da biografia desse dinâmico casal.

 

Por: Roberto Brochado Abreu. Membro da Casa da Memória de Vila Velha. (14/10/2009)



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