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A Ex-Escadaria Maria Ortiz - Por Gabriel Bittencourt

Escadaria Maria Ortiz em construção

Depois da criação da Companhia das Índias Ocidentais, na Holanda, em 1621, os portos brasileiros não tiveram mais sossego. O primeiro, a sentir o peso de seus ataques, foi Salvador, então capital do Brasil, e responsável por mais de um terço da exportação do açúcar colonial. Foi saqueada e ocupada pelos batavos, apesar da expedição terminar por redundar em fracasso, com a rendição dos invasores. Entre estes, destaca-se a figura do vice-almirante Piet Pieterz Heyn, que conseguiu escapar e prosseguir seus saques pelo Brasil.

É assim que, a 12 de março de 1625, sob a orientação de Rodrigo Paulo (flamengo de origem, mas casado com portuguesa e aqui residente), chegou a Vitória o corsário holandês, com intuito de saquear a cidade.

Piet Heyn, portanto, já era uma figura lendária quando atacou o Espírito Santo. E, ao que tudo indicava, de nada adiantaria a resistência chefiada por Francisco de Aguiar Coutinho, embora trinta e oito baixas já se contasse do lado inimigo, após alguns dias de luta.

Conta a história, porém, — mais lenda que história —, que esta tendência ficou invertida, quando do derradeiro assalto à cidade alta, pela íngreme rampa que lhe dava acesso, onde residia Maria Ortiz. É que esta jovem, talvez por indignação ou desespero, passou a atirar sobre os invasores tachos de água fervente e toda sorte de material que lhes freasse o ímpeto da conquista. Este ato de coragem teria levantado o moral dos ilhéus, e terminou por repelir os corsários, pondo-os para correr.

Essa história criou tradição no Espírito Santo, não olvidando o povo a brava capixaba que, da janela do sobrado de sua residência, rechaçara o invasor estrangeiro. Ao que parece, porém, a consagração de seu nome ao logradouro ocorreu muito tempo depois de seu falecimento.

Maria Ortiz era filha de pais espanhóis, e nasceu em Vitória, em 1603, ao tempo da União Ibérica, período de grandes conflitos entre a Holanda e a Espanha, cujo rei governava também Portugal. Seus pais vieram em uma das imigrações promovida por Felipe III, em 1601. Maria Ortiz faleceu nesta cidade, em 1646.

Quanto a Piet Heyn, foi um dos mais notáveis almirantes holandeses. Em 1628 tomou a famosa frota espanhola de prata, próximo a Cuba, cujo saque rendeu à Companhia das índias Ocidentais mais de um milhão de libras esterlinas. Depois do fracasso do episódio da Bahia, foi, sobretudo, graças a Piet Heyn, que a Companhia se capitalizou e pode, finalmente, em 1630, desembarcar nas costas pernambucanas — a Zuikerland —, dando início ao domínio holandês do Brasil. O ataque à frota de prata, cujo feito perdura em canção folclórica holandesa, permitiu à Companhia pagar dividendos da ordem de 75%, naquele ano.

A rampa, onde se localizava a residência de Maria Ortiz, era encimada do pelourinho, símbolo da autoridade e justiça portuguesas, passando a ladeira a ficar conhecida com este nome.

A antiga ladeira do Pelourinho dava acesso aos transeuntes da Rua do Ouvidor para a cidade alta. Tinha início, também, no começo da antiga ladeira do Chafariz e passou o logradouro por diversas denominações: ladeira da Assembleia, da Cadeia, ou do Trapiche.

O nome Maria Ortiz, porém, nunca deixou de ser reverenciado pelos capixabas. Tanto que, em 1899, quando se determinou a colocação de placas nos logradouros públicos da Capital, por influência do escritor e político Pessanha Póvoa, mudou-se a denominação daquela artéria para ladeira Maria Ortiz. É com esta denominação que sobrevém o governo Florentino Avidos, cuja ação, bastante ampla, preocupou-se, sobretudo, com a urbanização de Vitória.

Desde a administração Jerônimo Monteiro, com as demolições da cidade alta, que a ladeira não se harmonizava mais com esta parte da cidade. Nessa época, já surgira o Boulevard (Rua Pedro Palácio), arborizado por iniciativa do prefeito Washington Pessoa (1913). Seus acessos, no entanto, ainda continuavam estreitos ou tortuosos, guardando ainda a feição colonial.

Para suprimir tais deficiências, determinou Avidos a derrubada de todos os antigos casarões da ladeira do Chafariz, fazendo surgir ali importante via, ladeada de residências assobradadas, que o povo denominou ladeira da Boa Ideia. Já a ladeira Maria Ortiz, estreita e íngreme, transformou-se em belíssima escadaria, de degraus em pedra lavrada, ladeada de belas residências, algumas até mesmo decoradas com móveis franceses e telas pintadas por artistas italianos, segundo Elmo Elton.

A obra, contratada pelo Serviço de Melhoramentos de Vitória, foi inaugurada a 15 de novembro de 1924, em comemoração ao aniversário da República. O projeto arquitetônico, de Henrique de Novaes, foi executado por Polliti, Derenzi & Cia., ao custo de 39:000$000.

Com o passar dos anos, a especulação imobiliária e a consequente febre de construção que assolaram a cidade, destruíram seus casarões, substituindo-os por verdadeiros caixotes verticais que enfeiam Vitória e tumultuam o espaço urbano. A escadaria, entretanto, mantinha-se mais ou menos incólume, com ampla possibilidade de restauração.

A falta de sensibilidade que campeia nas administrações públicas, no entanto, optou por sua destruição, inutilizando pela marreta os degraus de convite e todos os demais, feitos em granito lavrado à mão, apesar do protesto de todos que por ali passavam. O Conselho Estadual de Cultura, em derradeira medida, ainda tentou salvá-la, abrindo às pressas processo de tombamento do consagrado patrimônio histórico. Tal iniciativa, porém, só serviu para acelerar a destruição por parte da empreiteira da Prefeitura, recuando, posteriormente, ante a repercussão do caso na imprensa, quando o piso da escadaria já se encontrava todo destruído.

Agora, em nossa opinião, a nova escadaria que lá está já não possui valor histórico. Não há mais porque prosseguir o processo de tombamento. As pedras lavradas foram substituídas por lâminas de granito industrializadas, sobre degrau de concreto armado, violentando-lhe a feição tradicional. Nas próprias consultas feitas ao C . E . C . quanto às cores que deveriam ser restauradas, sequer atentou-se com as tonalidades sugeridas (mediante pesquisa realizada pelo então conselheiro Fernando Achiamé).

Resta, portanto, somente como pecha à memória da atual administração municipal — a de ter mutilado, totalmente, este histórico logradouro, que era a escadaria Maria Ortiz.

A Tribuna - Vitória (ES), 4 de agosto de 1987.

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2021

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