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A Festa da Penha

Convento da Penha

O dia escolhido por Frei Pedro Palácios para celebrar a festa da santa Padroeira era a segunda-feira depois da oitava de Páscoa, dia consagrado, naquele tempo, à  devoção   franciscana   de  Nossa Senhora dos Prazeres. Foi também a época de sua morte, pois faleceu na quarta-feira depois de celebrar a festa na segunda. Para esta última festa tinha mandado vir de Portugal uma imagem de vulto, quando até lá venerava a santíssima virgem no painel trazido na sua vinda para o Brasil.

Segundo Frei Basílio Röwer, frade historiador desta Província, no livro “Páginas da História Franciscana no Brasil”, a festa da Penha atraía multidões, sempre com grande número de romeiros, que, no correr do ano, vinham prestar homenagem à excelsa Padroeira, pedir a sua proteção e cumprir as promessas feitas. A partir de 1774, quando foi feita a reforma da ladeira de acesso ao Convento, os romeiros passaram a ter acesso mais fácil ao topo da colina.

Segundo o historiador, já no século XVII, existia hospedagem para romeiros. Frei Basílio cita Gomes da S. Neto, historiador (1888), lembrando que a cidade de Vitória e a Vila Velha se esvaziavam, pois todos queriam subir a montanha para venerar a Mãe de Deus. “Faltar era considerado quase um pecado. O maior contingente de romeiros de fora vinha de Campos e de são João da Barra. Quando o vapor que os trazia entrava pela barra, eram saudados com o estrugir de foguetes”, descreve.

“Desde a véspera iluminava-se a igreja e o Convento interior e exteriormente. Acendiam-se fogueiras em alguns pontos do campinho, ou sítio das casas dos romeiros; e colocavam-se lampiões e vasos de barro com luzes na ladeira de distância em distância, ficando mais aproximados da capela do S. Bom Jesus para cima. Ninguém, por mais pobre que fosse, deixava de pôr luminária na frontaria de sua casa. As festas externas, infelizmente, degeneraram em lautos banquetes e jogos. Muito triste teria ficado o santo Frei Palácios se em vida tivesse presenciado coisa semelhante. A acreditar, todavia, no que escreve o citado Gomes da s. neto, “não ocorria um incidente funesto a lamentar-se; um delito ou crime a punir-se; nem ao menos um distúrbio, que desequilibrasse a ordem e a tranquilidade pública”, acrescenta Frei Basílio.

Em meados do século XIX, sob o teto da casa dos romeiros, a pretexto de comemorar o dia da padroeira, pessoas usavam o local para festejos profanos. Empanturravam- se de comidas e bebidas e em seguida passavam a noite em torno da roleta ou debruçados sobre as mesas de carteado.  A casa dos romeiros foi parcialmente destruída por um vendaval história em outubro de 1864, o que provocou o fim da heresia no local.

Esse acontecimento deu origem a uma lenda. Segundo ela, aquele que reconstruísse a casa dos romeiros, estigmatizada por servir durante tantos anos a atividades profanas, logo morreria.

Também os operários que trabalhassem nas obras de reconstrução seriam vítimas de acidentes. O padre José  Ludwin, que a partir de 1916  foi  o  capelão do Convento, resolveu desafiar a lenda e em 1920 autorizou a reconstrução da casa dos romeiros, cuja ruína parcial prejudicava a aparência do Convento. Desfez-se a lenda sem nenhuma conseqüência danosa.

A festa propriamente religiosa consistia em vésperas solenes e missa solene no outro dia. Para o sermão era geralmente convidado um pregador conhecido.

Ao ofertório da Missa acontecia publicar-se carta de liberdade a escravos como foi feito em 1871, na presença de pessoas de destaque. Não há notícia explícita, mas é de supor que de tarde houvesse procissão, como já era costume em 1621 e Frei Apolinário da Conceição, outro frade historiador da Província, confirma no seu tempo.

No tempo do guardião Frei Vitorino de Santa Felicidade (1842 a 47), a Festa da Penha foi oficializada pelo governo da Província do Espírito Santo. Aos 12 de novembro de 1844, a Assembléia votou a lei 7, em virtude da qual o dia da festa foi declarado de “grande gala”, e como tal feriado para todas as repartições públicas. “Assim se guardou até o Advento da República; e se a festa por motivo justo era transferida e o dia escolhido não era domingo, o governo transferia também o feriado”, explica Frei Basílio.

O Presidente da Província, Dr. Manuel d’Assis Mascarenhas, foi mais tarde interpelado pelos deputados por ter sancionado a referida lei e esta mesma ridicularizada por causa da expressão “grande gala”, que os representantes da nação achavam imprópria num decreto do Poder Legislativo da Província. Mas o Presidente justificou-se com o culto imemorial da virgem da Penha e com grande devoção de todos os espírito-santenses, os quais, dizia, “certamente tê-lo-iam fulminado com os raios da execração pública, se não tivesse deixado passar este voto dos eleitos da Província”.

Frei Basílio recorda que no ano de 1879, houve intervenção do bispo do rio de Janeiro em favor da Festa da Penha. “constava neste ano a Frei João do Amor Divino Costa que também nas matrizes de Vila Velha e Vitória se pretendia celebrá-la , com que ainda mais escasseariam os recursos para os consertos e conservação do Santuário.  D.Pedro  de Lacerda dignou-se, então, de proibir, por decreto de 14 de abril, semelhante festa nas comarcas de Vitória, sem licença sua ou do Prelado Maior dos Franciscanos.Sua Excelência ponderou que o Santuário devia a sua existência aos Franciscanos e ao auxílio dos fiéis, de modo que as esmolas não deviam ficar reduzidas pela divisão, para se poder concluir as obras de restauração e não ficar adiado ‘o dia suspirado para se ver outra vez fulgir de glória e majestade e de novas galas sobre o píncaro de seu devoto e célebre monte o Santuário da Senhora da Penha’.”, conta o frade historiador.

No intuito de aumentar a devoção a Nossa Senhora da Penha, Frei João alcançou do Papa Leão XIII várias indulgências aos que devotamente visitassem “o sacelo público em honra a Nossa Senhora - chamada da Penha - da Ordem dos Frades Menores” e arrependidos rezassem nela nas intenções da igreja. Nestas condições, o decreto de 6 de dezembro de 1881 concedia 40 dias para o dia da festa na segunda-feira depois do domingo da Páscoa.

Em 1912, a Santa Sé declarou e proclamou Nossa Senhora da Penha Padroeira da Diocese do Espírito Santo.

 

Fonte: Suplemento Especial do Boletim Comunicações da Província da Imaculada Conceição do Brasil, 2011
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012


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