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A História da Praia do Suá - Por José Carlos Mattedi

Praia do Suá, 1910 - Acervo UFES

Olhando Maria Assumpção postada em sua janela, é como ver uma foto daquelas antigas, quase desbotada, apeada em uma moldura de madeira esburacada por cupins. Sim, Maria está lá, repousando em uma das janelas – ou seriam quadros? – de sua velha casa, vigiando o tempo, aquele mesmo tempo dos homens que nem os ventos de sua rua conseguiram apagar. Bem, antes do destino pensar em fechar sua janela e mandá-la para outros jardins, ela resolveu então remexer no baú de suas reminiscências para nos contar um pouco daquele lugar, num pretérito mais que perfeito...

Maria, filha de portugueses, de limpa memória, tem 73 anos de boas recordações daquela época... No quintal de sua casa, mangueiras de copas imensas cobriam de sombra o cotidiano da família, sob um tempo silencioso, sem o barulho das máquinas, o ruído dos carros e o canto dos sofridos. Lá fora, no leito de uma rua quase sempre enlameada, pisavam figuras rudes que, de tanto carpintejar as ondas do mar, traziam calosas e toscas mãos, e um corpo perfumado de essência marinha. Eram os pescadores, respeitados e admirados por Maria, também filha de marujo — do quadro de sua janela, ela costumava observar o vai-e-vem de redes e puçás, anzóis e arpões...

O cotidiano daquele tempo, portanto, era assim: o sol e a lua, vizinhos no além céu, bisbilhotavam lá de cima, com longos bocejos, o remanso dos moradores daquele lugar, fosse dia ou fosse noite... O lugar, gente, era a Praia do Suá, isso na primeira metade do século passado. Bairro de hábitos provincianos, tinha uma orgulhosa colônia de pescadores que só recebia a visita de pessoas chiques, quando apareciam por lá para comprar peixe, para tomar banho de mar ou para acompanhar a tradicional Festa de São Pedro — o padroeiro daquele povoado ilhéu de conforto, luxúria e modismos.

Para eles, pescadores do Suá, abaixo de Deus e do santinho Pedro, só havia algo de mais importante: o mar... Dali tiravam o sustento de suas famílias e movimentavam a economia do lugar. Esse mesmo mar encantou Maria, e fez dela uma sereia, e a ela revelou ricas histórias dos marujos e dos nativos da Praia do Suá, que somente as profundezas dos oceanos sabiam. São essas histórias — ainda vivas, curiosas, engraçadas e, às vezes, tristes — que ela, e outros habitantes do antigo bairro, passam a nos contar...

Bom passeio!  

Sangue lusitano

Correm nas vias (ou veias?) da Praia do Suá o sangue lusitano. Tudo começou no além-mar, num lugar chamado Póvoa do Varzim, distrito do Porto, na segunda metade do século XIX. Pescadores insatisfeitos com o mar local decidiram tentar a sorte no Brasil. "O mar lá é tão bravo, que se chega a ficar até um mês sem ir pescar, por causa das ondas. Esse litoral é chamado de 'Costa Negra'. Isso dificultava o sustento das famílias", conta Antônio da Silva Terroso, pescador português. Um grupo aportou na então miúda Vitória, vindo a residir no bairro da Capixaba.

Tempos depois, já na primeira década do século XX, os patrícios decidiram mudar de local. Descontentes com o problema das correntes marítimas no canal da baía, que atrapalhavam a navegação, somado à longa distância entre o Centro e a barra, resolveram baixar remos e redes nos terrenos baldios do Suá, ao norte da capital. "Dava trabalho ir até a boca da barra. Tinha que remar bastante. Por isso, vieram e invadiram aqui", conta José Pedro Rodrigues da Silva, 71 anos, neto e filho de pescador. Seu avô, João Rodrigues da Silva, nascido em Póvoa do Varzim, foi um dos fundadores da colônia, então formada por cerca de quarenta famílias portuguesas.

O ano provável da ocupação foi o de 1906, de acordo com Maria Assumpção. Sendo as famílias sustentas por lobos-do-mar, e coordenadas pela Colônia de Pesca Z2 (hoje Z5), logo, assentou-se a vocação pesqueira do futuro bairro. No grupo de marujos, os que mais se destacaram na construção do arrabalde, segundo os moradores mais antigos, foram: Torquato Francisco Marques, João Ribeiro, Eugênio Leopoldino Reis, David Maio, José Almiro Rodrigues da Silva, David Fanguetro, o Belmiro, o Lavradeira, além de João Rodrigues da Silva. E mais Antônio Rodrigues Cristelo, com os filhos Aires e Joaquim, e Júlio Diniz com o filho Álvaro — esses chegaram durante a Primeira Guerra Mundial, vindos também de Póvoa do Varzim.

A Praia do Suá era lugar de muita areia, água, lama e mosquito. A antiga vila tinha casinhas de estuque, construídas à beira mar, cobertas com palha ou zinco. Os barcos repousavam no remanso da prainha, de superfície rugosa mas quase lisa, de fundo arenoso e com serenas marolas. "Melhor lugar não existia. A areia era pura, e o mar a coisa mais linda", conta a velha portuguesa. O santo padroeiro dessa comunidade —não podia ser diferente — era São Pedro, o santo de devoção dos pescadores, e que deu origem, no local, a uma das festas mais populares do Espírito Santo.

Suar, pássaro ou noite?

A origem da palavra "Suá" causa controvérsias, não existindo uma versão oficial. A explicação popular diz que o nome surgiu a partir do percurso que os moradores do Centro faziam até a praia, e para isso tinham que "suar". Alguns já preferem a versão do pássaro conhecido como "Suam", uma espécie que predominava na região. Outros afirmam que a expressão originou-se das constantes visitas de um professor francês, encantado com as noites enluaradas do lugar, e que cumprimentava os pescadores com um alto "Bom Soir" (Bom Noite).

Essas variantes, entretanto, perdem força ao se constatar que a antiguidade do topônimo está documentada em uma carta de 1767 — achado levantado pelo livro A Festa de São Pedro na Praia do Suá, de Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco, com pesquisa de Léa Brígida de Alvarenga Rosa. Nela, o engenheiro José Antônio Caldas, especialista em fortificações, faz a seguinte análise: "Esta praia se divide pelo meio com o monte de pedra chamado Itapebuçu. O Itapebuçu é morro que assinala a geografia da Praia do Suá".

Terreno arenoso

A zona norte da capital capixaba, no final do século XIX, não ia além de Jucutuquara. Dali pra adiante, havia apenas praias desertas e manguezais. A Praia do Suá, lugar desabitado como toda a região, era apenas uma pequena faixa de terreno arenoso, incrustada entre dois morros: o da Garrafa e o de Bento Ferreira. Cercado a leste pela então baía (hoje, canal) de Vitória, ao norte pela Praia de Santa Helena, e a oeste e ao sul por áreas úmidas e mangues, como o de Bento Ferreira, o lugar encantava aos antigos.

Sua localização ficava próxima à boca da barra, facilitando o tráfego dos barcos pesqueiros, e sua orla se estendia do Morro de Bento Ferreira, onde se engastava o quebra-mar, até as imediações da atual Prodest, no pé do Morro da Garrafa. Ali ainda se agrupavam as ilhotas Sururu, Rasinha e Cinzenta — depois atrofiadas com os aterros.

Mas, para se chegar lá, só existia um caminho, que não fosse o mar. Passava-se por Jucutuquara, em seguida Maruípe, dando a volta por trás do Morro Grande, até alcançar a Ponte da Passagem, no braço norte do estuário de Vitória. Seguia-se então margeando o canal, cruzando depois o Morro Barro Vermelho até atingir as Praia Comprida e de Santa Helena. Mais à frente, chegava-se finalmente à paradisíaca Praia do Suá, de águas rasas e mansas, e com o Morro da Garrafa coberto por densa mata Um passeio longo e cansativo...

 

Fonte: Praia do Suá – Coleção Elmo Elton nº 9 – Projeto Adelpho Poli Monjardim, 2002 – Secretaria Municipal de Vitória, ES
Prefeito Municipal: Luiz Paulo Vellozo Lucas
Secretária de Cultura: Luciana Vellozo Santos
Subsecretária de Cultura: Joca Simonetti
Administradora da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim: Lígia Mª Mello Nagato
Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Condebaldes de Menezes Borges, Joca Simonetti, Elizete Terezinha Caser Rocha, Lígia Mª Mello Nagato e Lourdes Badke Ferreira
Editor: Adilson Vilaça
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Cristina Xavier
Revisão: Djalma Vazzoler
Impressão: Gráfica Sodré
Texto: José Carlos Mattedi
Fotos: Raquel Lucena
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020

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