Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A Igreja de Santiago – Governo Jerônimo Monteiro

Igreja de São Tiago, 1912, obra do artista Álvaro Conte que retratou a igreja antes da demolição de uma das torres no Governo de Jerônimo Monteiro (1908-1912)

A reforma administrativa do Estado, operada por Jerônimo Monteiro, exigiu mais espaço para as repartições públicas.

O velho palácio, antigo Colégio dos Jesuítas, além de residência para o presidente, era, como ainda é, sede administrativa do governo.

Ao invés de construir um edifício amplo, e nele instalar os novos serviços, preferiu, o Executivo, desapropriar a igreja de Santiago, anexa ao palácio, por sessenta contos de réis, e, sobre as paredes sagradas e seculares do templo, edificar as dependências reclamadas.

Foi um atentado inqualificável, cometido contra os testemunhos históricos da cidade, um erro sacrílego, que germinaria frutos amargos. Sob o mesmo critério, outros poucos monumentos de fé, de trabalho e de heroísmo seriam desfigurados por cirurgias plásticas, para que não mais se os indentificassem com aqueles, que à história pertenciam.

Já me referi ao Convento de São Francisco, cuja mutilação se deve aos saudosos Padre Leandro Dal' Uomo e ao cultíssimo Bispo D. Benedito Alves, o terceiro prelado que dirigiu o rebanho católico do Estado. O convento do Carmo, cuja igreja barroca, com belíssimo tímpano trabalhado, em cuja cartela se lia a data de sua fundação,(32) modificou-se numa arquitetura inexpressiva de desenhistas atrevidos e irresponsáveis. Sacrilégio cometido contra o tribunal histórico da cidade, pelo Bispo D. Fernando e pelo seu ilustre irmão. A ninguém é dado duvidar das honestas intenções desses dois homens privilegiados, que tanto trabalharam pela grandeza da terra capixaba. Não se pode, porém absolvê-los da culpa de terem concorrido para o empobrecimento do patrimônio histórico da Capital, tão exíguo em recordações de sua vida atribulada de capitania esquecida. O engenheiro francês, Justin Norbert, autor do projeto e das obras do palácio, foi sádico. O belo conjunto, formado pela escadaria, palácio e igreja, enobrecido pela missão que desempenhara na vida heróica da cidade, foi despido do singelo estilo colonial para receber vaidosa roupagem, de mau corte, da arquitetura de Luís XVI. O plano conservou, reformada, a torre maior da Igreja, aquela cujo relógio marcava o tempo, de quarto em quarto de hora, e a que tocava rebate, conclamando o povo devoto à prece e à defesa contra inimigos e flagelos da ilha. Pouco sobreviveu. O presidente Nestor Gomes mandou demolí-la pelo mestre de obras Ribeiro, em 1920, sob o pretexto de melhor esquadrejar uma sala da Secretaria de Justiça! Desapareceu, assim, o único marco, verdadeiro e fiel, da fundação da "Cidade-Presépio", como se apelide hoje, na imaginação romântica da juventude culta, a vila construída por Afonso Brás.

A restauração do Palácio se impunha pela necessidade do arte de morar. Faltavam-lhe condições higiênicas, compatíveis com o conforto da vida moderna. Desfigurá-lo foi ilógico e bárbaro. A demolição da Igreja Santiago foi crime e, mais ainda, profanacão. Não se deve esquecer o papel desempenhado pelo Colégio e Igreja Santiago na vida atormentada do Capitania. Por mais de duzentos anos, os Jesuítas exerceram função preponderante sobre os colonos desorientados e desprotegidos, não só da fortuna, como dos favores da Coroa. Escrever a obra inaciana no Brasil, e em particular, a do Espírito Santo, é recordar a epopéia ciclópica da nossa formação. Tão intimamente se entrelaça a ação dos Jesuítas na vida social, política e econômica do Brasil-colônia, que é impossível apreciar-se uma, desconhecendo-se a outra. Afrânio Peixoto, Padre Serafim Leite, Capistrano de Abreu e Pandio Calogeras assim externam seus pensamentos. Os donatários das capitanias foram homens, que praticaram feitos gloriosos nas guerras da conquista da África e da Ásia. Mas o Brasil era um cenário diferente. Habitado por uma série de tribos, na maioria nômades, não formavam governo e exércitos organizados, de modo que a vitória, alcançado hoje, garantisse a paz de amanhã. As guerrilhas eram infindáveis e o desassossego, provocado pelos indígenas, não propiciava a lavratura das terras. Fácil concluir que a espada não era arma aconselhada à conquista e pacificação dos povos. Só a bondade, empunhando a cruz da fé cristã, poderia realizar o milagre da conquista efetiva do território descomunal. Feliz inspiração teve D. João III, quando, antepondo Tomé de Souza à autoridade dos capitães-mores, para defender o litoral da cobiça dos corsários, confiou aos Jesuítas a conquista do gentio. A capitania de Vasco Coutinho teve o privilégio de acolher vultos dos mais expressivos da catequese cristã. Manoel da Nóbrega, Afonso Brás, Brás Lourenço, José de Anchieta, Manoel de Paiva, Gregório Serrão e tantos outros aqui aportaram aqui viveram o drama da nostalgia e a angústia da conquista. Os Jesuítas, ordem universitária, têm, como base econômica de sobrevivência, a educação da mocidade. Vivem do ensino, trabalham educando. Suas "Casas" são colégios, que amanhã se transformam em universidades. Por isso edificam em caráter de perenidade. (33)

Roma, sede da Companhia, recomendava: "Não se construa sem prévio plano e atenda-se à perpetuidade, porque ainda que custe mais, são mais baratas".(34) Foi assim que Afonso Brás e Brás Lourenço deram ao Colégio Vitória feitura ciclópica para atender, através dos séculos, ao seu mister. A igreja de Santiago, que lhe era anexa, parede e meia, abria para a Praça João Clímaco, outrora Largo do Colégio e depois Afonso Brás, onde o terreno perde o aclive, como que a oferecer descanso às fadigas da subida. Suas torres assimétricas, atalaias perfiladas, quebravam a monotonia das linhas horizontais; alçando-se sobre a paisagem, divisavam a costa distante.

No primitivo altar-mor se veneravam relíquias de São Maurício e das Onze Mil Virgens. No sacrário, os missionários, nas vésperas de suas "entradas", oravam a Deus, invocando-lhe a proteção. Do seu púlpito, ouviram-se palavras de fé, de louvores, de confiança, dos Nóbregas, dos Aspicueltas, dos Serrões, dos Vasconcellos e a voz serena e cantante de Anchieta, recitando ali seus hinos piedosos à Virgem Maria. Tomé de Souza, Mem de Sá, Salvador Corrêa de Sá, Duarte da Costa renderam graças a Deus, pela assistência que lhes não faltou do céu. Do altar de Santiago saiu Brás Lourenço, empunhando a bandeira de S. Maurício, em 1561, para comandar, com Belchior de Azeredo, a expulsão das naus francesas, que queriam saquear a vila.(35) Sob as lajes frias e sagradas do seu adro repousavam os despojos de José de Paiva, irmão carpinteiro, que ajudara a construir a igreja, de Diogo Jogues e do maior de todos, pelas suas virtudes de evangelizador das selvas, o venerando Padre Anchieta, cantor místico de Reritiba.

A importância dada pelos governos aos templos capixabas não condiz com a tradição religiosa do povo. Foi inútil, quase, o carinho devoto daquele punhado de cronistas, que nos transmitiram as tradições das primeiras famílias da capitania. Em dois decênios, as autoridades da república, por pouco, apagariam do cenário vitoriense os vestígios do passado, pobre mas glorioso.

A Ordem Terceira do Carmo ruiu. A capela de Nossa Senhora da Conceição, foi demolida em benefício da construção do teatro Melpomene. Não se respeitaram os votos piedosos de Francisco Frade e sua mulher. Comprou-a o governo de Muniz Freire, por cinqüenta contos de réis, para que Monsenhor Pedrinha constituísse o patrimônio do bispado. Henrique Coutinho, com a mesma finalidade, adquiriu a igrejinha da Misericórdia, meio em ruína, da irmandade, que se transferira de Vila Velha.(36) Gozava, a confraria, dos privilégios da Misericórdia de Lisboa, outorgados por Felipe II. Era uma capela, modesta e pobre, cuja principal função consistia em manter o hospital e congregar as almas generosas e pias no amparo à pobreza, dar sepultura aos irmãos, no cemitério ao lado, e aos indigentes, sob sua proteção, em outro campo santo, abaixo do hospital.

A compra de Henrique Coutinho foi aproveitada para se construir o edifício da Assembléia Legislativa, Palácio "Domingos Martins". Herdou o Tribunal de Justiça, a antiga Casa da Lei (37) onde se instalou condignamente. Assim desapareceu mais uma modesta capela, oratório de devotos humildes, testemunha viva e silenciosa, sabe Deus de quantos episódios de fé, de amor e gratidão anônimas. O destino é irônico. No chão da modesta ermida de Nossa Senhora da Conceição se construiu o teatro, no da Misericórdia, a Assembléia Legislativa do Estado.

 

NOTAS

(32) Inaugurada em 1591 sob o priorato de Frei Agostinho de Jesus.

(33) "Das ordens religiosas, todas, a dos Jesuítas representou o mais notável papel, e suas construções são os únicos monumentos grandiosos ainda existentes daqueles remotos tempos". Von Martirus - "Como se deve escrever a História do Brasil" - segundo Serafim Leite.

(34) Serafim Leite S. J. Tomo I.

(35) Gesto repetido por sucessores dele em 1625 a 1640 contra os holandeses.

(36) Carvalho Daemon supõe a Misericórdia fundada em Vila Velha em 1595, por Miguel de Azeredo, a pedido do P. Anchieta na atual Rua Frei Palácio. Diz também que, em 1º junho de 1606, se funda em Vitória, o Hospital de Caridade de N. S. de Misericórdia, na capela do mesmo nome. Cezar Marques - pág 245.


Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2016

Igrejas

Ruínas da Igreja Velha de São Mateus

Ruínas da Igreja Velha de São Mateus

Ruínas de um templo construído por índio e escravos. Para sua construção foram utilizadas pedras que vinham como lastros nas embarcações. Diz a lenda que em suas paredes foram escondidos tesouros

Pesquisa

Facebook

Matérias Relacionadas

O Ensino – Presidente Jerônimo Monteiro

Que era o ensino no Espírito Santo, até 1908? Um mito e, para as famílias abastadas, em pequeno número por sinal, um privilégio

Ver Artigo
Jerônimo Monteiro – Os Primeiros Passos

Jerônimo Monteiro foi um predestinado. Surgiu no horizonte governamental na hora justa de sua maior dificuldade histórica 

Ver Artigo
Jerônimo Monteiro – Urbanismo em Perspectiva

O volume de terra, material escasso na ilha de Vitória; para aterrar o banhado, não preocupou o governo de Jerônimo Monteiro 

Ver Artigo
Ainda a cidade que Jerônimo Monteiro encontrou

A cidade não se modificara na sua estrutura colonial. Não havia edifícios públicos, que correspondessem à necessidade funcional da administração

Ver Artigo
Surge ao longe a estrela prometida – Jerônimo Monteiro

No Campinho, brejo e mangue, o quartel de Polícia mostrava-se imponente

Ver Artigo
Então Vitória era assim (1908-1912) – Era Jerônimo

Um bonde a tração animal trafegava pela cidade baixa, de Vila Rubim ao Forte São João, passando pelo Largo da Conceição, Ruas do Rosário, Cristóvão Colombo e Barão de Monjardim

Ver Artigo
Quarto Minguante – Marcondes de Souza e Bernardino Monteiro

O período de 1912 ao começo de 1920 corresponde ao princípio e ao fim da crise internacional, oriunda da primeira guerra, que rebentou em julho de 1914 e teve armistício em novembro de 1918

Ver Artigo