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A Importância da Mulher na História do Estado

Capa do Livro: A Mulher na História do Espírito Santo da autora Maria Stella de Novaes

De 1835 a 1844, existiam aulas para o sexo feminino. Entretanto, no seu Relatório, como Diretor da Instrução, em 1859, dizia o Sr. João dos Santos Neves que "o ensino primário de meninas dava-se, em toda a Província, em uma escola pública, na Capital, e duas particulares, em Itapemirim e São Mateus, ambas desprovidas".

"Assim, — continua o ilustre relator — a mulher, que é considerada sem direito como o homem, é ainda escrava".

Sugeria ao Presidente da Província que se deviam repartir com as meninas os mesmos benefícios dados aos jovens; escolher-se uma senhora, que soubesse costurar, e de reconhecida honestidade, garantida pelo vigário, pelo presidente da Câmara Municipal e pelo Inspetor da Instrução local, para servir-lhes de mestra de costura, em cuja residência se reunisse diariamente. Ficaria, então, o professor público encarregado de ir, à tarde, lecionar às meninas.

A senhora escolhida, pelo conselho composto das referidas autoridades civis e religiosa, receberia 100$000, por ano.

Seguia-se, de certo, ainda, nesse tempo, o velho tema de que "à mulher bastava saber contar, ler e escrever, além do conhecimento das prendas domésticas". Era o preconceito de que "mãe de família não precisa saber muito", preconceito fortalecido pelo atraso da época. Remontava ainda aos tempos das invasões mouriscas e permaneceu, como herança, no povo lusitano, até que foi, gradativamente, suplantado pela influência francesa, após o casamento de Afonso VI. Resultara, igualmente, da deficiência dos meios de comunicação com os outros povos, em viagens morosas, no que se referia ao Brasil.

Cingia-se a mulher à condição de máquina de trabalho doméstico, tolhida do progresso e da vida, na incoerência, portanto, de "formar a personalidade dos filhos", sem o direito, porém, de argüir, perante a evolução natural da sociedade... Entretanto, já nos fins do século XVII e nos princípios do século XVIII. Fénelon, Fleury e Madame de Maintenon reagiam, na França, contra o atraso da educação feminina. Fleury indignava-se da ignorância a que estavam condenadas as mulheres, cujas almas eram tratadas como se fossem de espécie diversa da alma dos homens. Como se não tivessem igualmente uma razão a conduzir, uma vontade a dominar, paixões a combater, saúde a conservar, bens a dirigir e o cumprimento dos deveres, sem a necessária aprendizagem. Considerava um paradoxo que as meninas aprendessem apenas o catecismo, as costuras, a dança, o canto, alguns trabalhos manuais, a vestir-se na moda, cumprimentar e falar com civilidade.

A reação dos três educadores franceses foi enaltecida por Monsenhor Dupanloup que, no seu fino trabalho La Femme Studieuse, aconselhava até às mulheres o estudo do latim, e declarava que a filosofia não lhes era interdita. Com aplausos, o Abade Fénelon avançava que deveriam conhecer rudimentos de Direito.

Aqui, porém, adotava-se o velho provérbio, que Charles Expilly anotara, na visita ao Brasil: — "Uma mulher já é bastante instruída, quando lê correntemente suas orações e sabe escrever a receita da goiabada. Mais do que isso seria um perigo, para o lar".

 

Submetia-se, desse modo, a mulher à autoridade discricionária do mais forte, que, desde a gênese da família, na passagem bíblica da costela de Adão, e à vida quaternária das cavernas, até a organização social gradativa das aldeias, vilas e cidades, impunha a Lei e deixava à famosa "cara metade", na posição de ser criada unicamente para a perpetuação da espécie.

Esquecia-se o homem de que Deus não lhe retirou um osso do pé nem da cabeça. No primeiro caso, sim, a mulher poderia ser pisada, relegada ao plano inferior; no segundo, erguer-se orgulhosa, para proclamar o que o povo chama "Casa de Gonçalo", "onde canta a galinha e não o galo". Mas, a Sapiência Divina evidenciou a humanidade a posição da mulher, no seu destino futuro de companheira e não escrava do homem: tirou-a de perto do coração, na parte média do corpo, num plano de igualdade e fraternidade.

A situação da mulher, nesses tempos antigos, foi bem definida, aliás, nos conselhos de um "Abecedário da Roça":

 

Minha fia p'ro ocê casá (A)

Ocê percisa sabê (B)

Percisa se convencê (C)

Do modo de procedê, (D)

Pru que ocês as muié (E)

Num pode nunca sê chéfe (F)

Pru genro te protege (G)

Ocê deve com amô pagá, (H)

Si ele acaso te pidi (I)

Coisas do tempo do jota, (J)

Nunca zangada ficá (K)

Que ele te chega na pele, (L)

Que um home de ciúme treme, (M)

Memo que, no inferno, pene, (N)

Si fique, no corpo, um nó, (0)

Num busque nunca rompê, (P)

Nem memo sabê pru quê, (0)

Si ele acertô, ou se erre, (R)

Faça a Jesus uma presse, (S)

Pru cabra se convertê. (T)

(Não conseguimos o fim).

E, assim, ao império da onipotência masculina, que só reconhecia a força bruta, como fator dos direitos concretos, a mulher, os filhos e os escravos foram mantidos, na mais completa submissão, embora sendo, pelo direito natural, partes da associação familiar organizada. Eram as exigências dos costumes antigos, reforçados pela formação doméstica mourisca, e oriundos, como vimos atrás, das ocupações bélicas e venatórias do homem primitivo, exigências, porém, que seriam necessariamente, suplantadas, pela evolução natural da inteligência feminina, ao impulso da força extraordinária, que se chama VONTADE NA ALMA DA MULHER!

Certamente, conforme o apreciou o Sr. Batista de Melo, em brilhante artigo do Jornal do Comércio, de 27 de Janeiro de 1935, o mundo teria de reconhecer o terceiro meio de reação das civilizações, umas sobre as outras, para se modificarem relativa e profundamente, segundo as circunstâncias e a forma de agir. A conquista pelas armas e a força da palavra e das artes eram os meios, para isso, empregados na antigüidade. Aperfeiçoaram-se, como prova dessa faculdade inerente à alma humana, que é a inteligência, distinguida pela evolução. A guerra tornou-se metódica e sábia: tem suas leis. Com o advento da imprensa, o livro e o jornal avantajaram-se à tribuna. E surgiu uma surpresa universal: — a esses meios de reação das civilizações, ou melhor, a esses marcos da evolução da humanidade, juntou-se outro, numa verdadeira revelação do seu valor, porque era antes incógnito e desprezado: — A INFLUÊNCIA DISCRETA E PODEROSA DA MULHER.

A Influência da Mulher


Particularmente, porém, foi surgindo, no Espírito Santo, o concurso das mulheres, para preencher o abandono da sua educação. A decantada inferioridade mental já se desmentia, compensando o descaso dos administradores. Verificava-se, aliás, desde os tempos da Capitania, a influência anônima da mulher, pela cultura e pela economia, no Espírito Santo, embora tal influência tenha sido sempre. Injustamente, atribuída ao homem, como único elemento de prestígio. Notava-se ainda a sobrevivência do princípio greco-romano de que a família só se mantinha pelos varões. Sim, era apenas urna espécie de sugestão coletiva, que impedia o reconhecimento daquela atividade constante, já referida, quando tratamos do trabalho das mulheres indígenas e das lusitanas, vindas para o casamento, no Brasil. E, mesmo nos avançados tempos do século XIX, ainda se avantajavam as índias espírito-santenses, no artesanato. Uma das provas foi à remessa de valiosos crubixás, para o Museu da Corte, em 1819. Eram graciosamente enfiados, de modo a formarem lindos colares.

Certamente, no século da colonização do Espírito Santo, como em todos os povos primitivos, a caça, a pesca e a guerra, com todas as suas características da destruição, davam ao elemento masculino o tom de superioridade que encobria as ocupações "menos perigosas e mais circunscritas" da mulher, registradas, aliás, por Margaret Mead, em Woman Position in Society Primitive: ocupações, porém, que, na realidade, muitas vezes, até pesadas e duras, consolidavam as bases da economia e da cultura. Assim, numa investigação retrospectiva da atividade da mulher, no Espírito Santo, distinguiremos as tecelãs, as costureiras, fiandeiras, ceramistas, trabalhadoras de roçados, hortelãs etc.. sem se descurarem de suas ocupações domésticas: — preparo dos alimentos, e cuidados com o marido e os filhos.

— Qual o viandante que, nos dias atuais, percorrendo o interior do Espírito Santo, não observa ainda a presença da mulher, no duro trabalho da lavoura?

A limpeza dos cafezais, a horticultura, o plantio da mandioca, a seleção do café, por exemplo, têm sempre a colaboração da mulher. E a apicultura?

Na sua Viagem de Estudos ao Espírito Santo, Gustav Giemsa e Ernest Nauck escrevem que as mulheres, de preferência, cozinham, cortam e costuram, remendam roupas, alimentam os animais, ordenham as vacas, além de realizarem, no campo, outros trabalhos variados e leves, como a colheita do café, limpeza do pasto etc. Mulheres de oitenta e cinco anos, ainda ativas nas plantações, dão, assim, bom exemplo à juventude.

— E quantas jovens, quantas mães de família batem na máquina de costura, o dia inteiro e até altas horas da noite, para assegurar a manutenção da família, ou prover a educação dos filhos? Quantos jovens puderam conquistar um título, graças ao trabalho de suas mães, ou de uma irmã devota?

Assim, humildes e ignoradas, alheias, mesmo, aos resultados econômicos e sociais dos seus esforços, constituíam, e perseveram as mulheres espírito-santenses, como elementos consentâneos com a afirmativa de Gina Tombroso: — "Não é exatamente no domínio da cultura, da arte, da ciência que se deve procurar a mulher superior. As mulheres sublimes e ignoradas criaram, pelo seu esforço, as tradições morais que nos regem, conquistaram, pelo seu sofrimento e pelos seus sacrifícios, o prestígio que desfrutamos; muitas encaminharam os homens e lhes inspiraram ações generosas e nobres empreendimentos; outras souberam sofrer, oferecendo espontaneamente o sacrifício de suas próprias aspirações, para suster o braço, adoçar a amargura e consolar os que se batem pelo ideal". Quanto ao trabalho, na instrução da mocidade, lembremo-nos das mamãs antigas, primeiras mestras, no recesso do lar, nas fazendas e povoações, longe das vilas e cidades. Era o bê-á-bá rigoroso, completado pelos garranchos, na lousa; era tabuada, sob a disciplina da palmatória. O catecismo, decorado embora, e as orações ensinadas aos filhos, pela manhã e à noite.

E as tarefas de crochê e bordados?

Assim, como as abelhas operárias, eram as mulheres espírito-santenses, fadas incógnitas, que salvaguardaram as bases da sociedade. E continuam...

Registremos, nesta passagem, a segura contribuição que a Sra. Da. Henriqueta Rios de Sousa ofereceu à vida e ao progresso do Espírito Santo, Viúva, aos quarenta e oito anos, com onze filhos, quase todos menores, no seu recanto do Monte Líbano, soube educá-los e orientá-los, para que se tornassem elementos prestantes ao seu torrão natal. Basta que nos lembremos do seguinte: — Da. Henriqueta Rios de Sousa deu ao Espírito Santo um bispo sábio e santo que, em quatorze anos de episcopado, fundou colégios e asilos, reformou o clero, consolidou o patrimônio da Diocese, criou e dirigiu o serviço missionário, adquiriu à residência episcopal, além de outros empreendimentos, que seria longo enumerar. E foi o primeiro bispo espírito-santense: — Dom Fernando de Sousa Monteiro.

Deu dois Presidentes do Estado, que projetaram o nome do Espírito-Santo, no cenário nacional: os Drs. Jerônimo e Bernardino Monteiro. Nenhum espírito-santense se esquecerá jamais do quanto sua terra deve ao Dr. Jerônimo!

Ainda, na descendência de Da. Henriqueta, contam-se médicos, engenheiros, advogados, militares, professores, e mães de família que, na modéstia e na operosidade dos seus lares, foram continuadoras de suas virtudes.

Da. Henriqueta Rios de Sousa nasceu em Paulo Moreira (Minas), a 20 de maio de 1839, e faleceu, na Vitória, a 27 de abril de 1927.

Professoras

No apreciado estudo sobre os Costumes do Povo Espírito-Santense, o Pe. Antunes de Sequeira registra as "aulas de Da. Maria Miranda, chamada Velha Mocinha, mulher de espírito, que lecionava, na Rua das Flores, a mais de trinta alunas; Da. Ana Joaquina, na Praça João Clímaco: Da, inacinha de Azevedo, na Ladeira da Várzea; Da, Rochinha Sousa, na Ladeira da Matriz; Da. Joaninha Seixas, nas Obras do Batalha.

"O ensino, - continua o ilustre cronista - reduzia-se a ler, escrever e contar, a bordar, fazer crivos e rendas de almofada, a bilros soltos".

Lemos numa crônica de A Província do Espírito Santo (1885), que, sentadas na esteira, numa sala, as mocas trocavam os bilros e cantavam:

Santo Antonio de Lisboa,

Espelho de Portugal,

Ajudai-me a acabar

Esta tarefa real,

Que me deu à senhora mestra,

Para de tarde entregar,

Se eu, pois não acabar,

Ela me há de castigar.

As Mulheres de Regência

Exaltemos as mulheres de Regência! Diz o noticiário do naufrágio do "Imperial Marinheiro", em 1887, que "foram elas, frágeis criatura, que tem o coração maior do que o mar, pela pujança dos seus sentimentos da caridade e do amor, que excitaram coragem do pescador Bernardo, para que fizesse a temerosa travessia, e apressaram os socorros de agasalhos e hospedagem em que tanto se distinguiu a população da localidade”. Mas, se algum dia, surgir um artista iluminado pelo ideal da pintura histórica, desejoso de fixar, na tela, a tragédia daquele naufrágio, não se esqueça de uma figura destacada, na praia: anima o intrépido pescador, com toda a vibração da sua alma e plenitude de sua consciência, perante o dever de humanidade: a mãe do Caboclo Bernardo!

 

Fonte: A Mulher na História do Espírito Santo: história e folclore
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2014

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