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A Intenção da Semente Cronicas e Causas - Celso Saade

Capa do Livro (verso) de Celso Saade

ATOS, FATOS E BOATOS

Por volta de 1955, durante a campanha de Eurico Rezende para governador do estado, um grupo de jornalistas reativou “O Continente”, um jornal com finalidades de campanha.
Quem assinava a coluna social se escondia atrás do pseudônimo de “Osman Quissama” e intitulou a coluna de “Atos, Fatos e Boatos”.

Isso gerou certo desconforto para o amigo Osman Magalhães porque muitos achavam ser ele o autor que, na verdade era eu. E na época, muito pouca gente ficou sabendo.

Daí a lembrança de intitular este capítulo rememorativo com o mesmo nome de uma coluna social de muitas décadas atrás.

 

No século passado foi construída a primeira ponte ligando Vitória ao continente, batizada como Ponte Florentino Avidos. Décadas depois se construiu a segunda, chama até hoje de Segunda Ponte. E quando finalmente foi construída a terceira, Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça, esta ficou definitivamente popularizada como a Terceira Ponte!

Seguindo-se essa linha de pensamento, a Ponte Florentino Avidos deveria chamar-se “Primeira Ponte”, o que não ocorreu, pois, paradoxalmente, só é conhecida como Cinco Pontes”! O estranho é que não são cinco pontes, mas uma ponte com cinco vãos e, “de quebra”, perto dela há outra com apenas um vão, complemento da primeira. Para variar, essa também tem história: por força dos aterros realizados na baía de Vitória o mar debaixo dela desapareceu. Pronto. A partir daí só ficou conhecida como a Ponte Seca, sem sugerir que as outras sejam molhadas, espero.

Há mais sobre pontes. Existe uma ligando Vitória à Praia de Camburi que, desde a inauguração até hoje, só é conhecida como Ponte da Passagem, o que nos faz refletir: e as outras, não são?

Quando eu escrevia este capítulo, acabava de ser inaugurada a ponte Governador Carlos Lindemberg, ao lado da velha e obsoleta Ponte da Passagem, que seria demolida. Embora a lembrança do governador possa estar eventualmente presente, a nova ponte se manteve fiel á velha alcunha da “Ponte da Passagem”, pois nem a tecnologia e nem a beleza dos seus estais foram capazes de modificar o nome que o uso consagrou.

Outros fatos sobre Vitória nos remetem ao Penedo que domina a entrada da barra para o Porto de Vitória. Esse majestoso monólito simboliza a pujança do povo vitoriense e a solidez nas mais diferentes atividades da cidade. Só que o Penedo não está situado em Vitória, mas no município de Vila Velha.

O terminal ferroviário da Companhia Vale do Rio Doce em “Vitória” também não está na capital, mas no município de Cariacica. Isso nos faz lembrar o “trem europeu”, cujas estações estão dentro das cidades e o mais perto possível das zonas urbanas mais movimentadas. Pode-se citar como exemplo a cidade italiana de Milão. Quando se chega de trem há uma estação chamada “Milano” e, alguns quilômetros à frente, outra estação denominada “Milano Centrale”, sempre voltadas tais estações para o conforto e a praticidade do usuário.

Na cidade de Avignon (sul da França) a estação ferroviária fica bem junto ao centro. Alguns hotéis estão tão próximos que não se necessita de taxi. Os “maleiros” levam as bagagens a pé, nos carrinhos.

Ainda sobre trens, já tivemos em Vitória – leia-se Vila Velha- outra ferrovia chamada Leopoldina Railway, há muitos anos desativada, que transportavam passageiros para o Rio de Janeiro. Era comum viajar-se de chapéu e capa (guarda-pó) para proteger a roupa da fuligem que emanava da chaminé da “maria-fumaça”. Era o famoso “trem noturno”. Mas impressionante mesmo era a pontualidade com que o “noturno” saía. Rigorosamente ás seis horas... Da manhã!

No ramo de supermercados, vivenciamos uma situação inédita. Enquanto os nomes ou slogans das empresas apregoam um dos mais importantes itens para cativar o comprador, que é o preço – costumam ser “O Preço Bom”, “O Preço Baixo”, “O Barateiro” etc. – há uma empresa que, a partir do próprio nome já deveria afastar de vez o comprador. É que a rede de supermercados “Carone”. No entanto, é uma das mais importantes empresas do ramo no Espírito Santo.

Vitória pertence a um arquipélago, sendo a maior e principal das ilhas. Há mais de 50 anos, as obras de aterro modificaram a paisagem urbana da cidade, ficando as partes aterradas mais próximas do mar, transformando-se no que hoje é a Avenida Beira Mar, que também tem nome. Mas, pelo sim pelo não, é menos provável uma pessoa chegar à Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, porque nem todo mundo sabe o verdadeiro nome do logadouro.

Uma parte do aterro da Avenida Beira Mar ia do Cais das Barcas, no centro, até as proximidades do Clube Álvares Cabral. Sobre o nome “Cais das Barcas” vale observarem que as barcas antigas, a motor de centro na verdade umas duas lanchas, e que faziam somente o trajeto Vitória-Paul (Vila Velha), pararam de funcionar a mais de meio século. Dentro desse hiato, foi implantado pela Condusa um sistema de transporte hidroviário bem mais consistente e composto de uma frota de lanchas que realmente auxiliavam o usuário nos trechos Vitória-Prainha (Vila Velha), Vitória-Paul (Vila Velha), Vitória- Terminal Dom Bosco (Beira Mar) e, por pouco tempo, Vitória-Rodoviária, na Ilha do Príncipe. Era Aquaviário.

Todo esse sistema também foi desativado há mais de duas décadas. Com isso atento para um fato relevante. Durante todo aquele período de implanta-desativa-implanta-desativa, um meio de transporte permaneceu inalterado, em números redondos, por um século, e até hoje vigoram fazendo ligação Vitória-Paul-Vitória. Refiro-me aos botes chamados “catraias”, barco movido a remos. Com certeza a maioria dos capixabas não está familiarizada com esse termo. Entretanto todos nós chamamos seus condutores de “catraieiros”.

Porque, então, não homenagear esses guerreiros que trabalham inclusive à noite, à luz de lampiões, rebatizando o local de “Cais das Catraias” ou “Cais dos Catraieiros”? Ficaria mais intimista, mais explicativo e, com bons olhos, até bucólico. Esse meio de transporte a remo é um remanescente no Brasil, e por isso merece ser preservado, e melhorados seus atracadouros pelas autoridades ditas competentes.

Para o capixaba unir ou modificar nomes não causa a menor estranheza, desde quando, há muitas décadas, um vereador ilhéu, do alto da sua erudição na tribuna, pretendeu passar aos seus pares o resultado de um projeto de sua autoria, como sendo um fato realmente auspicioso e alvissareiro e, em alto e bom som, mandou bala: um fato “auspissareiro”!

Não se sabe, por falta de provas taquigráficas, se esse edil foi o mesmo que, vendo ser rejeitado um grande e ousado projeto urbanístico de sua autoria, mas que em determinado trecho agredia acintosamente a lei da gravidade, muito irritado, prometeu aos demais colegas que na próxima sessão da Câmara ele derrubaria essa tal lei que, a propósito, nem conhecia.

Mas dentre os casos mais estranhos conhecidos, este, com certeza, conquista um lugar de destaque: nos anos 50, morava em Vitória um rapaz suíço muito educado. Um dia, ele foi à policia registrar uma queixa, levado uma grande caixa. Disse haver comprado uma máquina que na mão do vendedor funcionou muito bem. Quando, porém chegou a casa verificou tratar-se de um engodo: ele havia sido passado para trás. Ato contínuo abriu a caixa e mostrou a tal máquina. Indagado sobre que máquina era aquela, desconhecida dos policiais, o rapaz respondeu com a maior naturalidade: “È uma máquina de fazer dinheiro!”. O vendedor nunca foi encontrado, mas o suíço passou um bom tempo saboreando chocolates da sua terra... Na cadeia.

Há muitas e muitas décadas, uma escola de samba da capital valorizou no seu samba enredo o velho tema “descer o morro para brilhar no asfalto”. Achei algo estranho, mas não sabia exatamente o quê. Só depois do Carnaval é que a ficha caiu: naquela época, Vitória não tinha nenhuma rua asfaltada.

A Avenida Nossa Senhora da Penha corta em linha reta vários bairros da capital. Ela é muito pouco lembrada pelo seu verdadeiro nome, praticamente apagado da memória da cidade. Estou falando da “Reta da Penha”, como ela sempre foi e continua sendo conhecida por todos.

O município montanhoso de Domingo Martins realiza anualmente seu famoso, e hoje internacional, Festival de Inverno. No ano de 2009, entretanto, como a programação já estava pronta com antecedência, resolveram antecipar as comemorações, e assim o Festival de Inverno começou no outono mesmo!

Um hábito curioso seria o de observarmos as placas com nomes de ruas. Em uma casa na subida que dava acesso à entrada de carros para a Faculdade de Odontologia da UFES, havia sido afixada uma placa com os dizeres “Rua Alameda Getúlio Vargas”. Soube que tiraram a placa, provavelmente para corrigi-la, mas, por mim, deixaria como estava. Pelo menos já conhecemos o tamanho do rombo cultural.

Mais dantesca ainda é a placa situada imediatamente antes do acesso ao Clube Libanês, na Praia da Costa (Vila Velha). Para homenagear um dos fundadores do clube, aquela pequena área ganhou uma placa: ”Rua Alameda Munir Helal”. Tempos depois foi substituída por uma nova placa onde se lia: “Rua Alam. M. Helal”. E com a última substituição, aí sim, ficou uma graça: “Rua Alan Munir Helal”. E assim explica a metamorfose de “Alameda” até chegar a nome de gente. Penso também em pedir às autoridades municipais, pelo amor de Deus, que deixem como está, porque está muito bom.

Em tempo: aquele pequeno jardim também não é rua, não tem CEP, e eu fico pensando o que é que aquela placa está fazendo lá.

 

Fonte: A Intenção da semente - Crônicas e ‘causos’, 2011
Autor: Celso Saade
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Outubro/2013



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