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A lenda do judeu pescador

Rua Duque de Caxias

Contavam os macróbios capixabas que existiu, outrora, na Vila da Vitória, um judeu pescador que conhecia um bom pesqueiro em alto mar, onde colhia tamanha provisão de pescado que ele sozinho abastecia a povoação, enquanto os outros pescadores voltavam no “ora veja”, com as suas canoas vazias. Bafejado, assim, pela fortuna, o pescador Braz Gomes edificou uma elegante casinha de pedra e cal no meio da vila e mais dois casebres na margem do lameirão, dando começo à rua que se chamou da Praia, depois, do Ouvidor e, por último, Duque de Caxias.

O judeu, natural do Algarve, era católico, e atribuía a sua boa sorte à devoção de São Tiago e Santa Marta, cujas imagens mantinha num oratório, ao qual pretendia juntar um crucifixo que conservava guardado numa caixa de madeira, enquanto aguardava um “rico resplendor que já havia encomendado a um ourives”. Mas, deram outra versão à sua prosperidade: espalharam que ele fizera trato com o Diabo, o qual enxotava os peixes para o seu anzol; denunciaram-no ao Santo Ofício, com o agravo de que ele usava a caixa de madeira, onde encerrava o crucifixo, para se assentar.

Metido a ferros, Braz Gomes foi levado para Lisboa, submetido aos Autos da Fé e condenado à “fogueira de lenha benta”.

Alguns fatos parecem provar que existiu mesmo um “Braz Gomes de Siqueira, parte de Cristão novo, mercador; natural de vila de Santos e morador da Capitania do Espírito Santo, Bispado do Rio de Janeiro; convicto e pertinaz”, condenado pela Inquisição de Lisboa, segundo transcrição de um Auto de Fé, publicado no Tomo Sétimo da Revista do Instituto Histórico Brasileiro.

Até fins do último século, constava existir na sacristia da Igreja Matriz de Vitória, um quadro, enviado de Portugal, pela Inquisição, representando o suplício do judeu pescador. Tal pintura, já bastante arruinada, teria sido levada para a Matriz de N. S. do Desterro, em Florianópolis. E o crucifixo, que dera causa à acusação de heresia, seria conservado, em Vitória, pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.


Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos, 1977
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2011

 


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