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A Longa Trajetória de O Diário – Por Marien Calixte

Capa do Livro: O Diário da Rua Sete, 1998

Mário Tamborindegui comprou o jornal para servir a Chiquinho. Na compra, mudou-se também o seu registro social, que passou a ser Empresa Gráfica O Diário Sociedade Comercial e, na década de 60, transformou-se em Ltda. Entre 1955 e 1958, o jornal forte era A Tribuna, depois vinha A Gazeta. Os dois de certa forma se equilibravam. O DIÁRIO não competia, não tinha ainda as características que viria a ter na década de 60 e um pouco na de 70: o charme, a função de laboratório da imprensa capixaba, a independência.

Entre 1955 e 1958, o jornal foi usado para torpedear Carlos Lindenberg, Jones Santos Neves e todo mundo que não fosse Chiquinho. Era essencialmente sectário. Possuía página política, esportiva, policial e de notícias sociais. As manchetes eram extremamente agressivas, do tipo "Políticos querem lotear o ES", "Oligarquias do PSD...", "Oligarquia de Carlos Lindenberg..." "Os ricos querem dominar o pequeno Estado do ES...". A Tribuna era o jornal do Adhemar de Barros pai, do PSP, que estava com Chiquinho, e fazia uma dobradinha com O DIÁRIO contra o PSD, que tinha A Gazeta como sua trincheira.

O máximo de cultura que havia nos jornais eram os anúncios dos cinemas Glória, Carlos Gomes, Santa Cecília, Trianon, Vitória, Jandaia. A cidade, naquela época, tinha oito cinemas. Quando comecei nO DIÁRIO, fui substituir o crítico que havia lá, remanescente do pessoal do PSD, que era Arthur Carlos Gerhardt Santos. Ele assinava a coluna com o pseudônimo de Inspetor Clousot, nome de um famoso diretor de cinema na época, George Clousot.

Mais tarde, O DIÁRIO passou oficialmente das mãos de Tamborindegui para Chiquinho. Antônio Galdeano, importador e exportador do Rio de Janeiro, empresário da construção civil, homem de muitos negócios e dono de extensas terras em Carapina, ajudou a comprar o jornal para Chiquinho. Para não aparecer, Chiquinho mantinha como seus representantes o filho Renato Aguiar e Setembrino Pelissari, jovem advogado da ala jovem da UDN. Chiquinho, líder desse partido, tinha aliança com o PSP, PTB, Partido Comunista e outros partidos, que formavam a chamada Coligação Democrática contra o PSD e o PTN.

VIOLÊNCIA

Em 1958, assumem efetivamente a direção do jornal Setembrino Pelissari e Plínio Marchini, que fazem um tipo de jornalismo extremamente violento, com palavras duríssimas. Embora A Gazeta não adotasse essa prática, nunca dizia o nome do jornal O DIÁRIO. Referia-se a ele como "o jornal que se edita na Rua Sete" ou "o jornal da Rua Sete". O DIÁRIO tratava A Gazeta como "o terceiro prostíbulo da Rua General Osório" (numa alusão às duas antigas casas de prostituição do local, que funcionavam nos números 120 e 130). Ou então, "aquela Sra. da Rua General Osório", "a vetusta dama" e outras expressões desse tipo.

A troca de farpas era constante, em parte como decorrência do espírito irascível de Setembrino e de Plínio, um jornalista que naquela época já passara pelA Tribuna, por Sete Dias e pela Rádio Espírito Santo. Aí nasceram os apelidos de Carlos Lindenberg, que era denominado pel0 DIÁRIO como "o homem do chapéu preto". Depois, veio o segundo apelido, o de "papa-terra". Pelo fato de ser proprietário de terras a norte do Estado (a família tem fazenda até hoje, em Linhares), dizia-se que ele as tinha roubado quando era governador. Essa acusação, entretanto, nunca ficou provada, até porque ele tinha documentação que chegou a publicar nA Gazeta.

A vitória de Chiquinho deu esperanças de que o jornal melhorasse. Aconteceu exatamente o contrário. Era muito rudimentar, tinha política, fofoca e notícias dos municípios, cujo teor variava conforme a posição política do prefeito em relação a Chiquinho. O DIÁRIO se valia muito do noticiário que, naquela época, vinha por telégrafo, através da Western Telegraph Company, uma empresa inglesa. Tinha oito páginas, o esporte ocupava página interna, e política página externa. A página policial era extremamente agressiva, muito mais que a dos outros dois jornais. A Tribuna, às vezes, tentava ousar um pouco, numa fase em que foi dirigida por Dalton Martins da Costa, do Partido Comunista, e Arlon José de Oliveira, um dos melhores profissionais que a imprensa capixaba já teve. O DIÁRIO já possuía também coluna social. Por lá passou uma série de colunistas: José Carlos Monjardim Cavalcanti, o Cacau, na década de 50, Hélio Dórea, Carmélia M. de Souza. Na década de 60, Esdras Leonor escreveu uma coluna muito curiosa e original, chamada Vitória confidencial.

Mesmo com Chiquinho no Governo, A Gazeta evitava ao máximo citar o seu nome. Quando não tinha outro jeito, dizia "o governador do Estado" e só. Raríssimas vezes citava "o Sr. Lacerda de Aguiar". Além de não citar o nome, um jornal não admitia jornalista do outro, tendo eu sido um caso raro. Escrevi nO DIÁRIO e nA Gazeta na mesma época, sobre cinema, com pseudônimo em um e assinando o nome em outro. Não houve restrição porque cinema e crítica literária eram assuntos que não mereciam grande importância.

TUDO PRECÁRIO

Como nA Gazeta, nO DIÁRIO era tudo precário, comprado de segunda mão. Só havia dois linotipos. A Gazeta era mais equipada - possuía uma clicheria. NO DIÁRIO, para fazer clichê era preciso apanhar um vôo até o Rio de Janeiro ou ir a Campos de carro. A Gazeta não fazia nem se O DIÁRIO pagasse em ouro. Para usar a clicheria da Rua General Osório era necessário empregar subterfúgios, como por exemplo enviar uma pessoa totalmente estranha para solicitar o serviço. Mas A Gazeta descobriu e, para impedir que o emissário dO DIÁRIO tivesse acesso ao clichê, passou a fazer perguntas. As fotografias publicadas pela imprensa na época nada tinham de jornalísticas, porque não existia repórter fotográfico. O que havia eram os fotógrafos da cidade (Mazzei, Pedro Fonseca, Marinho Carlos, Paulo Bonino, Buarque) que cediam fotos de personalidades da terra existentes em seus arquivos, reproduziam fotos de revistas e, eventualmente, faziam o registro de algum acontecimento, como a posse de alguém, a chegada a Vitória de alguma personalidade importante - aquelas fotos posadas. Algumas vezes, era feito também o registro de um crime, mostrando-se o rosto de um criminoso e do delegado de Polícia, que tinha fotografia já pronta.

Sonhou-se que O DIÁRIO ia comprar máquinas da Última Hora, mas o dinheiro não saía. Chiquinho era grande figura humana, personalidade extremamente importante, mas não era homem de meter a mão no bolso e distribuir generosidades. Não foi o caso do grupo Lindenberg, que investiu e fez de A Gazeta uma das grandes empresas jornalísticas do País. O DIÁRIO poderia ser hoje o maior jornal do Estado e ter, inclusive, impedido o crescimento de A Gazeta, que na década de 60 foi colocada a venda, após o golpe militar. A empresa foi oferecida a várias pessoas e por várias vezes a João Calmon, que, não se sabe por que, não a comprou.

O DIÁRIO, porém, não tinha alguns trunfos do concorrente. Além da competência de José Mesquita, fazendo o jornal, A Gazeta teve na sua direção uma figura ímpar na história da empresa: Eugênio Pacheco de Queiroz, que estruturou o jornal e entregou uma empresa com muito dinheiro para ser administrada pelo talento de Carlos Lindenberg Filho (Cariê).

Quanto aO DIÁRIO, Chiquinho nomeou Plínio Marchini como diretor e eu como subsecretário de redação. Setembrino Pelissari era o representante político do Governo, e ditava a linha política do jornal. Nessa época, entraram jornalistas novos, veio gente do Rio de Janeiro, os salários eram razoáveis para a época, a carteira dos funcionários era assinada. Mas faltou à frente do jornal um empresário que tomasse dinheiro do Governo e nele investisse, tornando-o uma empresa. Alfredo Copolillo, o primeiro jornaleiro capixaba, dizia, na década de 60, referindo-se ao jornal da Rua Sete: "O pessoal não tem o mínimo senso do patrimônio que tem na mão. Deixa tudo abandonado, sujo".

Em certas épocas, a vendagem dos dois se equivalia. O DIÁRIO chegou a ter uma vendagem, na década de 60, maior que A Gazeta. Mas A Gazeta já possuía uma estrutura empresarial de respeito.

Naquele período, as pessoas que dirigiam o jornal tinham muitos nome diretor-geral, diretor, diretor de redação, secretário de redação. O nome editor só veio na década de 70.

FURACÃO JÂNIO

Jânio Quadros tomou posse como presidente da República em 1961, quando Plínio Marchini era diretor de redação de O DIÁRIO. O Dr. Ademar Martins, de esquerda, tinha feito a campanha de Jânio em Vitória e foi por ele levado para Brasília, para ser subchefe da Casa Civil. Era muito ligado ao Plínio e aO DIÁRIO. Morava na Rua Sete e sempre encontrava a turma do jornal na Praça Costa Pereira para bate-papos e cerveja. Grande piadista, leitor de jornais e colaborador anônimo de O DIÁRIO, Ademar pediu a Jânio um cargo para Plínio como diretor do SAPS no Espírito Santo, órgão equivalente à Cobal. A nomeação foi publicada no Diário Oficial. Ciente do fato, Carlos Lindenberg foi a Brasília dizer ao presidente Jânio que ele acabara de nomear um inimigo seu para o SAPS.

Jânio, então, baixou outro decreto destituindo Plínio, que passou apenas 24 horas no cargo. Ademar nada pôde fazer. O DIÁRIO, que havia noticiado a posse, em lugar de publicar a exoneração, publicou na capa um editorial de meia página esculhambando Carlos Lindenberg. Plínio escreveu aquilo tomado de muita revolta. Ele calmo já era virulento, nervoso nem se fala. Plínio se tomou de ódio por Carlos Lindenberg, sendo reciprocamente correspondido, até se tornar diretor de A Gazeta, porque ele era um talento que A Gazeta jamais poderia desconhecer. A partir daí, mesmo mantendo a amizade com Ademar Martins, O DIÁRIO passou a atacar Jânio.

A ERA JANGO

Jânio renunciou em agosto de 1961 e entrou João Goulart. Mais uma vez O DIÁRIO sonhou, porque Jango era muito amigo de Chiquinho. Mas nada aconteceu. Pelo contrário: piorou. Chiquinho não dava importância aO DIÁRIO porque não entendia daquilo. Diretores como Plínio só tinham poder político ali na redação. Os outros diretores e acionistas não se interessavam pela empresa. O jornal tinha dinheiro porque o prestígio do Governo fazia entrar anúncio no jornal. Os diretores se contentavam em ter esse dinheiro provisório. Sonhamos que Brizola viria com uma mala cheia de dinheiro, mas isso nunca aconteceu.

Naquela época, o jornal começou a publicar manchetes do tipo "O Brasil precisa ser dos trabalhadores", "João Goulart defende os trabalhadores" etc.

Nas redações dos jornais chegavam pacotes do USIS, o United States Information Service, do Governo americano, com material fotográfico completo, fotografias bem feitas, de tudo o que se imaginar. A gente recebia e... lixo.

Esse material era a salvação de muitos jornais e A Gazeta usava aquilo de ponta a ponta. Já vinha com título e tudo. Mas, como era propaganda americana, O DIÁRIO não publicava.

A última entrevista exclusiva que Jango deu como presidente foi comigo, na Praia da Costa, tendo sido publicada ao lado de uma foto - sempre repetida -com a seguinte manchete: "Goulart exclusivo: O Brasil é dos trabalhadores".

Foi uma matéria com mais de meia página, que falava de reforma agrária, reforma urbana etc. Na ocasião, o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, disse para mim: "O senhor seja o mais breve possível porque o presidente está muito ocupado". Eu quis fotografá-lo e não foi permitido. E João Goulart ficava fumando, fazia cigarro de palha, um típico homem rural.

Brizola era tido como um homem importante do Governo e O DIÁRIO cobria bem o Brizola. Eu tive a petulância, na coluna Pessoas e Fatos, de fazer uma crítica a Brizola. Disse que Brizola estava exagerando no seu radicalismo. Fui chamado à atenção por Chiquinho e por Plínio, severamente. A coluna poderia ser suspensa, porque o jornal chegava a Brasília.

Nessa época, vieram do Rio de Janeiro para O DIÁRIO vários jornalistas, inclusive Eloy Nogueira da Silva, que trabalhou na Última Hora e chegou aO DIÁRIO com ideia de comprar máquina nova, terreno para sede própria etc.. Naquela época eu era secretário de redação, que era uma função burocrática.

Eloy Nogueira da Silva chegou com um sonho, e todo mundo ficou entusiasmado porque ele veio do Rio, era um "especialista em João Goulart". Antes do golpe, ele mudou dO DIÁRIO para A Gazeta e alterou sua linha editorial, passando-a de uma direita radical, bem conservadora, para uma posição simpática ao presidente. Essa mudança levou a uma situação curiosa, após o golpe de 64: os militares queriam fechar A Gazeta, e não O DIÁRIO.

O GOLPE

Quando veio o golpe militar, as manchetes tanto de O DIÁRIO quanto de A Gazeta voltaram a ser extremamente agressivas. O DIÁRIO dizia, por exemplo: "Os ladrões que perderam jamais voltarão ao poder". Não podia falar ladrões do PSD porque eles entrariam na Justiça. Não havia Lei de Imprensa, a lei era o próprio Código Penal. Eu mesmo respondi a três processos na época em que era redator-chefe. Em certa ocasião, O DIÁRIO publicou numa coluna que não era minha uma acusação contra Vitor Costa, que trabalhava no gabinete do governador. O processado fui eu, pela função. Depois ele retirou a queixa, nós éramos amigos, somos até hoje. Há outra história interessante envolvendo Vitor Costa, que era comunista fichado. Por incrível que pareça, quem lhe deu a mão quando ele foi perseguido por suas ideias políticas foi Gutman Uchôa de Mendonça.

Com o golpe militar em 1964, a orientação que chegou à redação era de que não se provocasse os militares mas também não se atacasse João Goulart.

A SAÍDA DE CHIQUINHO

Depois do golpe, O DIÁRIO perdeu o caminho. Havia uma recomendação do Chiquinho de que mantivesse uma linha de informação que não fosse agressiva a João Goulart, até porque nos primeiros tempos se imaginava que ele poderia voltar. Então nós decidimos o seguinte: o jornal vai ter mais assunto de polícia. Crime, morte. A manchete passa a ser de polícia: "Cadáver aparece boiando na praia..." Naquela época, um cadáver chocava. Também tinha um pouco de esporte (Rio Branco e Desportiva estavam renascendo), noticiário internacional, mas polícia é que era o forte. Aí veio o general Dilermando Monteiro, que comandou um Inquérito Policial Militar (IPM) contra Chiquinho e diversos secretários de seu Governo, acusados de corrupção.

Ao que parece as acusações tinham motivação política, porque ele já era rico antes de ser governador. E no mandato, não ficou mais rico.

Mas a verdade é que Francisco Lacerda de Aguiar acabou renunciando, após ser absolvido por uma Comissão Especial constituída na Assembléia para investigá-lo. Quando ele saiu, a gente continuou a fazer jornal policial, dando porém mais espaço para a cultura.

A renúncia causou grande frustração, pois o jornal não havia melhorado durante todo o tempo em que ele esteve no Governo. Embora na época o País não tivesse dinheiro a rodo e as coisas não fossem fáceis, ainda assim a diretoria dO DIÁRIO poderia ter feito uma economia para o jornal, capaz de lhe dar uma impressora, sede própria, uma estrutura de empresa. O pagamento dos funcionários era feito em vales semanais ou quinzenais, mas, na prática, a gente nunca sabia quando ia receber. O salário era curto, e não havia parâmetro para salário de jornalista. Chiquinho não dava a mínima para o jornal, que era usado por Setembrino apenas como instrumento político, para escrever contra Carlos Lindenberg e o PSD. O velho Lisboa, com aquele charutão na boca, xingando todo mundo, era quem arranjava um dinheirinho aqui e ali, pedia emprestado ao Alfredo Copolillo, grande figura do jornalismo capixaba como jornaleiro e distribuidor de jornal, que emprestava para O DIÁRIO, A Gazeta e A Tribuna.

Chiquinho saiu do Governo do Estado. Os políticos se desarvoraram pois ficou claro que o governo militar não seria uma coisa passageira, embora os militares falassem que aquilo era uma "revolução democrática", apenas para botar o País no rumo.

LABORATÓRIO

Com a saída de Chiquinho, seus representantes no jornal venderam as cotas. Vieram, então, o Edgard dos Anjos, o Jakaré (Fernando Jakes Teubner) e José Carlos Monjardim Cavalcanti (Cacau), que se tornou diretor comercial. Imaginou-se uma nova era. A gente não sabia qual seria a direção do jornal com Edgard dos Anjos. Para se ter idéia de seus planos, basta saber o seguinte: com aquela sua mania de grandeza, ele dizia que queria fazer dO DIÁRIO "o New York Times de Vitória". Decidiu-se fazer dO DIÁRIO um grande laboratório. Aliás, nenhum de nós tinha noção desse laboratório, pois era uma coisa espontânea, explosiva, uma planta que nasce do nada. Não havia uma direção específica.

O Edgard, então, colocou um monte de gente no jornal. Amylton de Almeida foi ser o novo colunista social, função que não chegou a exercer por dois meses. Carmélia foi para lá, mas também durou muito pouco tempo. Criou-se também uma clicheria, cujo instalador foi Júlio Sosa, um peruano. Excelente profissional, forneceu todo o material e montou a clicheria, mas acabou brigando com Edgard, devido a falta de pagamento.

O DIÁRIO não podia contar com o apoio de Christiano, pois se ele tivesse de favorecer alguém, favoreceria A Gazeta, por amizade e tradição política. O DIÁRIO era tido como de esquerda, mas na verdade não tinha nada de esquerda e nem de direita. Era um jornal sem ideologia definida. Aliás, nenhum jornal do Estado foi de esquerda, a não ser a Folha Capixaba, que era comunista e fechou na década de 50. A única coisa que andava para a frente nO DIÁRIO era a liberdade de imprensa.

A gente tinha liberdade para escrever, apesar de haver no País uma ditadura. O pagamento é que era uma coisa incerta para jornalistas e gráficos, embora algumas pessoas tivessem ganhado dinheiro com O DIÁRIO. Na época, Edgard tinha um escritório na Rua 13 de Maio e se dizia que o dinheiro parava ali, sem chegar a subir a Rua Sete.

O jornal se posicionou com relação ao Esquadrão da Morte de uma maneira curiosa. Embora falasse contra as chacinas, os delegados ligados ao esquadrão viviam na redação, costumavam beber cerveja com o pessoal e alguns deles até escreviam matérias, dando a versão da polícia. Dessa forma, mesmo falando contra o Esquadrão da Morte, o jornal sempre tirava da reta a cara do pessoal que o integrava. Esses caras freqüentavam a redação, dando a versão da Polícia. Não havia uma posição radical do jornal de denunciar o esquadrão, mesmo porque entre os policiais que iam sempre à redação diversos eram amigos do Edgard.

Nessa fase, o noticiário policial era mais importante do que o noticiário político, até mesmo em jornais ultraconservadores, como no caso de A Gazeta. Para se falar de política, era sempre necessário ter um certo cuidado. Só se podia falar de político que era da direita ou simpático ao Governo Militar na gestão de Costa e Silva e, principalmente, na de Médici. Políticos considerados de esquerda estavam banidos, até como colaboradores do jornal. Em 1969, Edgard dos Anjos, naquele processo de loucura de fazer um grande jornal, chegava na redação e dizia: "Vamos acabar com esta ditadura. vamos colocar os militares para fora. Vamos unir a Nação". Na verdade, ele nunca foi esquerdista e queria apenas entusiasmar o pessoal para fazer um jornal mais atraente.

Pouco depois do AI-5, pedi demissão do jornal.

Nessa época, tive a oportunidade de ser diretor de Turismo da Prefeitura de Vitória, o que não só melhorou o status social, mas também deu para ganhar uma "bobagem" a mais. Deixei o jornal um ano. Chegou lá uma geração de talento, que fez laboratório nO DIÁRIO e acabou indo para A Gazeta. Outros profissionais acabaram saindo do Estado. NO DIÁRIO, podia-se escrever com liberdade e fazer o que se quisesse, mas no final do mês não aparecia dinheiro.

CLICHERIA

O peruano Júlio Sosa, dono da clicheria dO DIÁRIO, começou uma experiência de fabricar dólar. Ele fez um clichê igual ao dólar, imprimiu e me mostrou: "Aqui salário grande, o futuro dO DIÁRIO". Mais tarde, ele acabou saindo do País. Júlio era uma pessoa ótima, grande bebedor de cerveja e cachaça. Com vários filhos e uma vida familiar normal, era uma pessoa romântica. Aqueles latino-americanos (bolivianos, peruanos) que vinham foragidos das ditaduras da América do Sul e chegavam ao Brasil na esperança de que aqui fosse uma democracia, iam todos para a casa do Júlio. E ele apadrinhava a todos, dava cama, comida e roupas. Ele aceitava bem a minha pessoa, e a gente tinha uma relação de amizade. Eu chegava na clicheria e dizia:

- Júlio, tem esse clichê, com fotografia, para a edição de amanhã.

Como ele era mais um dos que não recebia, respondia invariavelmente: Sin plata, non faço. Sin plata, non hay cliché.

Ele tinha montado a clicheria e o jornal só cedeu o espaço. Para convencê-lo, eu dizia: "Logo logo o Edgard e o Jakaré vão estar aqui pra acertar com você. Além disso, se a foto não sair, vai ser ruim para nós. O repórter fez um esforço danado para trazer a notícia e a matéria não pode sair sem o clichê".

- Marien, essa coisa não me pega. Eu quero saber é do dinheiro que Edgard não me paga. Aliás, esse Edgard não é anjo coisa nenhuma. É uma ratazana.

Sosa fazia um discurso em espanhol e esculhambava todo mundo. Mas no final, apanhava a fotografia e perguntava: "Qual é o tamanho do clichê?" Ele sempre fazia, nunca deixava de fazer. Mas primeiro dava um esporro, dizendo que a gente era imbecil, porque estava trabalhando de graça. Batia a porta na cara, mas depois pedia desculpa.

OPERAÇÃO CHRISÓGONO

Em 1974, O DIÁRIO estava pré-falido. Ninguém sabia o que ia acontecer. Na sucessão de Arthur Carlos Gerhardt Santos no Governo do Estado, um grupo de empresários e políticos queria fazer de Chrisógono Teixeira da Cruz o governador. Contando sua escolha como certa, esse grupo (que incluía Cariê Lindenberg, Américo Buaiz, Otacílio Coser e empresários da construção civil) resolveu comprar O DIÁRIO.

Eles imaginavam que, sendo Chrisógono governador, ele ia ter A Gazeta à disposição e O DIÁRIO como inimigo. Então era necessário neutralizar O DIÁRIO. Ficou-se esperando, então, o anúncio da indicação de Chrisógono para o Governo. Nesse páreo para governador, corria por fora Carlito von Schilgen, que era primo dos Lindenberg, que, por sua vez, tinham preferência pelo Chrisógono. Carlito sabia disso mas confiava no seu prestígio de médico sanitarista. Ele tinha amigos militares poderosos na época, a quem prestou favores como médico. Sabia-se que Carlito era um candidato forte apenas da linha militar, enquanto Chrisógono teria o empresariado a seu lado.

O pessoal dO DIÁRIO estava em euforia, imaginando que tinha os patrões mais ricos do Estado. Entre outras promessas, havia a de comprar as instalações onde funcionava o jornal - metade de um quarteirão pertencente a Dionízio Abaurre.

Mas nada disso se concretizou. Os militares optaram por uma terceira alternativa e escolheram Élcio Álvares para governar o Estado. Os amigos de Chrisógono perderam o interesse e decidiram vender o jornal. Élcio não quis comprá-lo, Eurico chegou a pensar na idéia, mas nunca terminou a conversa. Aí O DIÁRIO entrou em parafuso. Nem os donos iam lá. O jornal saía por causa dos adiantamentos de Alfredo Copolillo, que era quem o distribuía nas bancas. Ele circulava regularmente, mas tirava 500, 600 exemplares.

Sérgio Egito foi tocando o jornal, que inclusive melhorou, com bons títulos, mais matérias de polícia do que de política, porque em política não se sabia o que ia acontecer, e até porque nós estávamos todos sob ditadura, com censura direto na redação.

Um dia, Américo Buaiz, com quem eu tinha trabalhado nos anos 60 e tinha uma relação de amizade, me chamou ao escritório e disse: "Não temos mais interesse no jornal, que precisávamos para o caso de Chrisógono ser o governador. Deu Élcio, tudo bem. Mas, o que nós vamos fazer com o jornal? Nada. Então, eu quero pedir um favor a você, Marien, que fique um tempo nO DIÁRIO - até a gente resolver essa situação. Porque o jornal está publicando algumas coisas ruins contra amigos da gente, tomando uma direção panfletária".

SEM RUMO

O jornal estava sem rumo. Tinha os patrões ricos, e mais nada. E ninguém recebia. Todo mundo estava com três, quatro meses de salário atrasados: gráficos, jornalistas, o pessoal da administração. Eu fui lá, vi a situação, me informei, conversei com o pessoal e disse a Américo: "O negócio está feio. Primeiro vocês têm que pagar todo mundo. Depois, ou vocês fecham o jornal, e assim acaba a dor de cabeça, ou vocês vendem para outro grupo ou pessoa. Inicialmente, no entanto, é necessário colocar em dia a situação que está lá. Vocês têm dinheiro para isso, porque vai pegar muito mal pra vocês se essas dívidas ficarem pendentes". Então, eles botaram tudo em dia.

Eu completei o terceiro mês indo lá e quebrando o galho. Naquela época (1974), tinha outras funções na Fundação Cultural e, ao mesmo tempo, estava na Administração do Porto de Vitória como Relações Públicas.

Um dia, Américo me chamou e disse: "Marien, está no momento de passar O DIÁRIO. Nós não conseguimos ninguém que comprasse, porque ninguém tem interesse em fazer jornal nessa situação política... Resolvemos passar O DIÁRIO para um grupo de jornalistas do qual você seria o líder. É para manter o jornal. Se não nós fechamos aquilo, pagamos e jogamos tudo no lixo". Eu respondi: "Mas Américo, como é que nós, jornalistas, vamos pagar esse jornal, se nós vivemos de salário e recebemos atrasado?"

Aí Américo disse que ia transferir o jornal de graça e combinou que eu pagaria a título simbólico uma quantia correspondente a aproximadamente 50 mil reais, afirmando: "Eu vou tirar esse dinheiro do banco para você, vou ser seu avalista, você vai me pagar essa cota que nos representa. É uma operação simbólica e isso vai ser pago ao banco".

- Mas como eu vou pagar isso ao banco, Américo?

- É simples. Nós todos vamos botar publicidade nO DIÁRIO, você faz uma caixinha, vai pagando e eu vou segurando no banco. Eu confiava no Américo de olhos fechados. Ele estava me propondo um negócio bom.

Depois eu descobri o seguinte: Américo, sabidamente, estava recebendo a parte que ele pagou ao Edgard dos Anjos e ao Jakaré quando eles compraram o jornal. Os outros sócios, não: deram de graça mesmo. Ou seja, Otacílio, "seu" Eugênio (em nome de S.A. Gazeta) e outros passaram de graça mesmo. Isso eu descobri depois, através do "seu" Eugênio, que me contou a verdade num momento extremamente dramático. O que ocorreu?

Em nome daqueles empresários, Américo me utilizou para que eu comprasse O DIÁRIO. Todos assinaram o livro de ata fazendo uma doação, inclusive ele, e não uma venda. Mas, como ele estava cobrando simbolicamente, me pediu sigilo disso.

Passado o tempo, nenhum deles botou dinheiro nO DIÁRIO.

DECADÊNCIA

As duplicatas começaram a vencer e o dinheiro prometido não entrava. O DIÁRIO, que já tinha fama de mau pagador, começou a enfrentar um clima cada vez pior. A praça confiava nA Gazeta, que estava progredindo, Cariê falando em sede nova. A Tribuna já era do João Santos. Toda a polarização, que antes era entre O DIÁRIO e A Gazeta, passou a ser entre A Gazeta e A Tribuna. O DIÁRIO saiu do mapa. Tinha dia que se tirava jornal só para dizer que o jornal saiu. O assinante não recebia o jornal, as bancas algumas vezes recebiam para dizer que o jornal estava lá. Ao assinante a gente mentia: "Vai chegar, vai chegar; quebrou a máquina, faltou luz". Aliás, a gente não pagava luz nem água; nunca pagou imposto de renda nem INPS.

As duplicatas continuaram vencendo sem que eu pudesse quitá-las e Américo começou a me cobrar.

Um dia, eu estou na Codesa, no antigo Porto de Vitória, "seu" Eugênio entra na minha sala. Eu pensei: ele vai me cobrar e eu já estou devendo a Américo Buaiz. Ele sentou e disse:

- Marien, o que está acontecendo?

Eu contei toda essa história do Américo, das promessas dele e ele disse:

- Marien, nunca me foi dito isso. Nem a mim, nem ao Cariê nem ao Chrisógono. Nem o Otacílio sabia. Nós demos o jornal de presente para você e você desse para quem você quisesse. Nós não falamos isso com você porque Américo era a pessoa do grupo mais próxima de você e ficou encarregado do contato com você.

Aí eu chorei como criança.

Então, "seu" Eugênio disse:

 - Vamos fazer o seguinte: você vai ao banco e procura o gerente em meu nome, eu já falei com ele. Eu avalizo o título, depois você vai pagar o banco. Mas "seu" Eugênio, vai me criar a mesma situação.

- Eu resolvo o problema no banco, você pode confiar em mim.

Eu sai dali, limpei os olhos no banheiro, nem falei em casa essa história. Fui ao banco falar com o gerente. Ele tirou o título da gaveta: "Já está aqui avalizado pelo “seu” Eugênio. As formas de pagamento eram as mais suaves possíveis e, se houvesse qualquer problema, eu falaria com "seu" Eugênio. "O senhor não precisa se preocupar". Eu assinei e fui para O DIÁRIO aliviadíssimo.

O dinheiro saiu. Eu peguei o dinheiro e mandei entregar a Américo Buaiz, e consegui, através do jornal, um pouquinho de dinheiro aqui, um pouquinho ali. "Seu" Eugênio manteve corretamente a palavra dele e consegui sair daquele buraco.

NOVA ESPERANÇA

Não recebi salário dO DIÁRIO a partir desse fato.

Pagava as contas procurando colocar em dia, mas vi que o jornal precisava de alguma coisa a mais para sair daquele buraco. Não éramos empresários nem políticos. Éramos eu, José Carlos Rizk e o diretor financeiro.

Nessa altura, O DIÁRIO era um jornal de 800 a 1.000 exemplares. Quando tinha uma coisa muito importante, um bom assunto policial, a gente esquentava violentamente, e a tiragem chegava aos 1.500, 2.000 exemplares. Isso tirando três rodadas, de manhã, às 10 horas e ao meio-dia, porque mais do que isso a máquina não agüentava.

Mas venda em banca nunca sustentou jornal e O DIÁRIO não era diferente. Os anúncios é que sustentavam. A gente começou a botar uns anúncios, editais do Governo etc. Eu arranjei um diretor comercial, o Humberto Musso, que fez um trabalho ótimo.

Em 1976, fizemos um caderno de 300 mil cruzeiros, que era uma fortuna na época. Pagamos as dívidas do jornal, pintamos parede, consertamos as má-quinas, trouxemos um técnico do Rio de Janeiro para morar em Vitória e fazer a manutenção das máquinas, com salário, nessa esperança de que o jornal ia dar um salto. Ele deu uma melhorada nas linotipos, agente tinha uma clicheria funcionando aos trancos e barrancos, a impressora ainda dava para quebrar o galho e então vislumbrou-se um certo futuro. Muito embora nós, os donos do jornal, continuássemos sem receber. O que a gente fez foi parar de tirar dinheiro do bolso para pagar besteiras.

Por esse sucesso publicitário dO DIÁRIO, o Humberto Musso foi chamado e aceitou ir para A Tribuna, então sob a direção do Antônio José Miguel Feu Rosa.

O DIÁRIO começou a entrar numa fase negra outra vez, porque a gente não conseguia encontrar outro diretor comercial. Ninguém queria segurar aquela barra.

Eu não agüentava mais dirigir redação, atender imposto de renda, oficial de justiça, ver os funcionários recebendo vale, um sacrifício danado. Mas o jornal saía, pegando dinheiro de venda adiantado com "seu" Alfredo Copolillo, que foi um grande colaborador. Ele compreendia a situação e às vezes adiantava o dinheiro de uma semana de venda do jornal para pagar a folha, comprar papel (pegava papel emprestado com A Gazeta). O "seu" Eugênio continuava me ajudando. Uma vez o Cariê ajudou também. Nessa época, aconteceu uma situação curiosa envolvendo O DIÁRIO e Djalma Juarez Magalhães, cujo jornal chegou a me criticar e até a Terezinha (não ele, mas a Maria Nilce com as doideiras dela)... Djalma é uma figura interessante, porque a mulher dele esculhambava com as pessoas na coluna e ele telefonava no mesmo dia para pedir desculpas. E a gente ia perdoando o Djalma nessa história, e a própria Maria Nilce. Pois bem, Djalma chegou a pedir papel três vezes a0 DIÁRIO, "pelo amor de Deus". O DIÁRIO emprestando papel para o Jornal da Cidade sair... Era o favelado emprestando ao outro favelado.

DESPEJO

Um belo dia, os advogados do Dionízio Abaurre trouxeram uma ordem de despejo. Ir para onde? Fazer o que? E aqueles trinta e tantos empregados? Gráficos com 30 anos de casa, jornalistas, o que eu ia fazer com aquelas pessoas? Eu tinha uma responsabilidade com aquilo ali. Eu, José Carlos Rizk e o outro gerente.

Foi quando alguém sugeriu: "Você, que tem um amigo desembargador, vai a ele e vê se tem uma forma de pedir vistas do processo até ter uma solução. Ou então paga o aluguel". Mas nem isso o proprietário queria mais: "Preciso do prédio para fazer uma obra", alegava. E apareceu uma enorme planta de um prédio de 10 andares, que nunca foi construído. Pura mentira. Então, consegui que um desembargador pedisse vistas do processo, sendo seguido por vários outros. Era uma solução dentro da lei, não tinha nenhuma ilegalidade.

Os advogados do Dionízio Abaurre ficaram tiririca com essa história - eles sabiam que a gente estava empurrando com a barriga. Nesse meio tempo providenciamos a mudança: fomos para Jardim da Penha, que naquela época estava começando a florescer. Alojamos O DIÁRIO num prédio inacabado por falta de dinheiro, cujo proprietário era um rapaz do interior, Celso. Hoje lá fica o Bordel. Isso, de 1978 para 1979. Fizemos para ele uma promessa que não podíamos cumprir, mas tínhamos que fazer, para tirar O DIÁRIO da Rua Sete.

Para desmontar e remontar as máquinas, chamamos um técnico (um cara que bebia pra burro), já idoso, que foi de muita serventia. Trouxemos ele para tirar as duas linotipos, a impressora, a redação. Depois de avisar aos leitores, ficamos sem circular três dias, tempo durante o qual botamos tudo no caminhão e instalamos o jornal na marra, trabalhando 24 horas por dia. Eu nem ia em casa. Tirei licença dos outros trabalhos. O jornal voltou a funcionar - agora já longe do centro, um problema sério. Longe de distribuidor e de tudo o mais. Tivemos que comprar uma Brasília amarela, de segunda mão.

Começamos uma campanha dentro do bairro para os moradores comprarem o jornal. O primeiro jornal dentro de um bairro foi O DIÁRIO, prédio pintadinho, tudo bonitinho, luz elétrica, água, clicheria lá em baixo com a gráfica, gráfica com a rampa de frente para a rua. Uma euforia que só tínhamos tido na época do Chiquinho e na época em que os caras ricos compraram O DIÁRIO. Entretanto, os problemas começaram novamente a se acumular, e tinha o aluguel. Nós não podíamos mais falsear com o Celsão como nós falseávamos com o Dionízio Abaurre. Além de ser pobre, o Celsão emprestava o carro, tomava cerveja conosco, era amigo do meu cunhado já falecido, Luizinho Brito, que intermediou uma conversa com Zé Maria Feu Rosa. O Zé Maria esteve um dia lá em casa e disse o seguinte:

- Marien, eu tenho pretensões de me candidatar a deputado estadual, federal e até a governador. Temos algum dinheiro aí com algumas empresas e a gente pode te ajudar. Você aceita?

- Aceito, é claro.

- Nós queremos apenas uma arma para lutar contra pessoas que serão contra a gente no futuro.

Ele colocou dinheiro nO DIÁRIO para se transformar, futuramente, num cotista. Com esse dinheiro nós botamos o jornal em dia, inclusive a dívida da mudança. Tínhamos um dinheirinho no banco, coisa pouca... E Zé Maria começou a mandar a Prefeitura da Serra botar anúncio nO DIÁRIO, que não fechou nessa época porque eles, Luizinho e Zé Maria, ajudaram. Isso foi em 1979.

SITUAÇÃO DIFÍCIL

Financeiramente, mesmo com a ajuda de Zé Maria e Luizinho Brito, a situação era difícil, e eu não estava mais suportando. Estava cansado, era hora de mudar. Eu não queria mais ser diretor de jornal, queria voltar a ser jornalista, ter meu trabalho no Porto, progredir na nova empresa. Ia desaparecer a Administração do Porto de Vitória e seria constituída a Companhia Docas do Espírito Santo. Não agüentava mais gráfico pedindo dinheiro, jornalista na minha casa pedindo vale, conta de água, luz, descarga quebrada no banheiro. Tinha que telefonar para o diretor da Telest pedindo que não cortasse o telefone, para a Escelsa pedindo que não cortasse a luz...

Nessa época, apareceu um comprador para O DIÁRIO.

O Zé Maria Feu Rosa estava esperando sair da Prefeitura da Serra, crescer na política, e investir mais nO DIÁRIO. Mas foi aquela coisa que ficou assim, aquele dinheirinho pouco... Era uma boca de espera. Foi ele mesmo que me disse que o Dr. Eurico Rezende queria comprar O DIÁRIO.

Marcamos encontro num domingo na casa do Zé Maria, lá em Jacaraípe. Eu, Zé Maria, Eurico Rezende e Luizinho. Dr. Eurico confirmou que queria comprar. Eu fiz a ele um relato sincero da situação. Ele respondeu que ia Brasília conversar com umas pessoas que tinham dinheiro, com o filho dele, mas me mandou um telegrama dizendo o seguinte: "Marien, fique à vontade a respeito da venda dO DIÁRIO. No momento não posso fechar."

Eu falei com o Zé Maria e com o meu cunhado, e eles disseram: "Fique à vontade pra fazer o que você quiser, mas a gente gostaria de permanecer".

Um dia, apareceu o nome de outro interessado: Hugo Borges Filho, que eu conhecia mais ou menos, porque fora colega da minha mulher na Faculdade de Direito em Colatina. Conhecia melhor o pai dele, o Hugo Borges, que era deputado, homem de algum recurso, de situação estável, com quem eu trabalhei na Rádio Espírito Santo.

O Hugo Borges Filho foi lá e acertamos, ele deu uma pequena parte - uns duzentos e poucos mil cruzeiros, na época - e assinou promissórias com aval do pai. Abri o jornal de porta a porta.

COMEÇO DO FIM

O Huguinho entrou no dia 23 de novembro de 1979. Aí fui para casa e comuniquei à família que tinha deixado O DIÁRIO, recebido aquele dinheiro, tinha as promissórias na mão. Quer dizer: nos seis meses seguintes a gente ia receber um certo dinheiro do Huguinho. Ótimo, dá pra acertar a vida. Ia sair dO DIÁRIO não rico, nem com dinheiro, mas com menos dívida. Mas Huguinho não conseguiu acertar o jornal. Ele não entendia de jornal, irritou-se porque havia problemas demais. A gente lia o jornal e via que não tinha anúncio. Os salários começaram a atrasar.

Eu, que não tinha mais nada a ver com o jornal, acabei sendo acionado na Justiça trabalhista porque Huguinho não foi à Junta Comercial fazer o registro de que tinha assumido a empresa, nem eu dei baixa do meu nome, por uma falha do meu advogado e do meu contador.

Os empregados entraram na Justiça querendo receber os direitos deles, direitos absolutamente corretos, embora eu não tivesse mais nada a ver com aquilo. Teve empregado dO DIÁRIO que chegou a dizer que ia ganhar meu apartamento, um outro disse que ia vender minha casa. Eu nem contei isso em casa para não criar pavor na minha família. O estresse que isso me causou me levou ao ponto de ter que tomar comprimidos para trabalhar. Estava aterrorizado com a eventualidade de perder meu carro, meu apartamento e ficar na rua. Tive que batalhar na Justiça para me defender e provar que não deixei de pagar a ninguém. Tive o testemunho de vários profissionais de que, enquanto eu fui dono do jornal, com todo sacrifício, os empregados recebiam os seus direitos.

Aconselhado pelo José Carlos Rizk, fui a um advogado especialista nesse assunto, o Dr. Cleone Heringer. O Dr. Cleone é que me tirou dessa situação, e merece minha homenagem.

Hugo Borges Filho nunca pagou as minhas promissórias. Eu as tenho todas originais e copiadas, passadas em cartório pelo meu advogado. Depois o pai quis pagar e eu não quis receber.

Mais tarde, os empregados assinaram um documento me isentando, perante o juiz. Porque eu tinha sido correto com eles. Tudo foi resolvido com dignidade, e espero continuar dormindo tranqüilo como estou dormindo hoje.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Marien Calixte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2018

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