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A maior tentação do poeta é ser poeta (para Otinho)
17/02/2012

Não existem os poetas, diz-se. Serão eles algum invento do vento, alguma espécie de sabedoria de Deus, que terá criado o poeta sem semelhança de qualquer outro ser, nem dele mesmo. Um poeta não quer ser deus, ele o é por natureza, concebido como uma árvore, uma montanha, podendo ser, ainda, um punhado de terra, o sal do mar, a pedra do rio. Pode ser nada do que supomos.

Poetas são exímios jogadores de esperteza. A palavra é sua peça de xadrez, seu dominó. Ao contrário dos que blasfemam, o poeta não é nuvem, nem inútil. O poeta tem corpo, é coisa sólida, pois seu poema é o corpo, mesmo quando morto, e seu poema é a alma de quem o lê. Tendo um corpo, portanto, o poeta tem a seu favor a física: o corpo é sempre parte do mundo. Pois que poetas e outros seres vivem nessa suposição de que existe harmonia entre o corpo e o mundo.

Nunca se saberá se Otinho leu Platão. O gênio antigo também nunca conheceu Otinho e sua obra de abstração poética. Os dois devem-se um aperto de mão e alguma conversa. Falha do tempo. Segundo Platão, “Toda criação ou passagem do não-ser para o ser, é poesia ou fabricação”. Diante da teoria platônica, Otinho teria a comentar que se trata de coisa sem importância. À sua maneira, diante da barbearia do Jorcel Garcia, sob o testemunho das palmeiras da praça Costa pereira, Otinho definiria essa questão citando sua própria verdade: “Eu sou Otinho, poeta da cidade, quem não me conhece?” Em outras palavras, como se perguntasse, “quem é esse tal de Platão?”

De que forma se julgarão os loucos e os ingênuos? (Se é que lhes cabe julgamento.) Por se tratar de um ser inacabado, o homem venera o ato do julgamento, entregando sua alma ao desconhecimento e à estranheza. Esta é a forma que encontrou para se valorizar e eximir-se diante dos outros homens.

Louco ou ingênuo, quem era Otinho?

É assim que se diz dos poetas. Dos poetas como Otinho, sem editora, sem livros para mostrar, sem noite de autógrafos. Ironizou os críticos, não lhes permitindo a oportunidade de ler o que escrevia. Privilégio de Rosinha ou de algum íntimo amigo que lhe pagasse o cafezinho.

Diga, você aí, um poema de Otinho! Digo eu um deles: “Quando minha rosa desabrocha, a alma do poeta Otinho vai pra Beira-Mar... é lá que Vitória é linda!”

Poeta único, personagem de si mesmo, não era louco nem ingênuo, como queriam os que mal o conheceram, os mesmo que vêem nos poetas uma praga abstrata. Nem louco e nem ingênuo, leitor. Porque não há ingenuidade no amor, menos ainda no poema que o descreve. Quanto à loucura, essa é a paisagem do mundo. O que há é a coragem interior de criar, apesar do desespero da nossa própria dificuldade em criar.

Com o repouso do coração de Otinho, diminuíram os bons ruídos da cidade, Otinho serenizou-se. Poetas não morrem; serenizam. Calaram-se o compromisso e a ansiedade de Otinho. Nunca mais ter que preencher aqueles papéis todos que carregava, amarfanhados, rabiscados, segredados. Carregava mais papéis do que podiam suas pequenas mãos. Mas na cabeça tudo podia, o poeta Otinho, cuja sabedoria nos persegue pelas ruas da cidade. Esse poeta das calçadas, praças e escadarias, o passo sempre apressado, pronto para algum lance da alma. Quando via um pássaro, uma mulher bonita, e até quando via nada. Parava, olhava em direção ao céu, abstraía-se, escrevia, guardava, rasgava, declamava e se ia rua afora como um Bashô ocidental. Se ia pelas ruas de Vitória, um cafezinho aqui, outro ali.

OS: Caro Otinho, deste poeta aprendiz para o poeta que conheci nos desvãos desta ilha, permita este poema filho do outono e da madrugada:

 

Faço-me de tolo

Só sei que versos eu os faço.

Faço versos para mim

E para minha amada

Que os entende e os aguarda.

Sabe ela e sei eu

Que os versos que faço

Faço-os de mim.

Quem me vê, só o gesto vê.

 

Vitória, maio de 1996.

 

Por: Marien Calixte
Livro: Escritos de Vitória – Personalidades de Vitória, 1996
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 

 

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