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A Manteigueira - Por José Carlos da Fonseca

Da foto tirada do Penedo, vê-se ao fundo o Morro da Manteigueira e no alto dele a casa que diziam ser mal assombrada

Quando cheguei a Vitória, em janeiro de 1951, vindo de São José do Calçado, fui morar em Jucutuquara, na casa do Sinhô Honório (Antônio Honório da Fonseca e Castro), meu parente e calçadense como eu.

Jucutuquara daqueles tempos era como se fosse uma cidade autônoma. Tinha de tudo para seus habitantes, e ficava distante e isolada do centro, tal o vazio que a separava das últimas casas do Forte São João.

Nesse espaço largo e verde havia um manguezal imenso ao lado do qual passava solitário o velho bonde levando escassos passageiros com destino a Fradinhos e à Praia Comprida.

Aliás, para falar de Jucutuquara daqueles tempos, meus tempos, valho-me do Escritor Adelpho Monjardim, em sua Vitória Física, que bem descreve o local.

“Jucutuquara moderna é uma pequena cidade; o mais importante e populoso bairro da capital, sob o ponto de vista de econômico. O casario, denso, ocupa toda a planície que se estende entre as montanhas e galgando-as forma com seus telhados vermelhos contraste com os altos cimos verdejantes. Por vezes sombreado pelo sépia vigoroso das rochas. Ao norte, austero e bizarro, avulta o Frei Leopardi (Pedra dos Olhos), com as pupilas vazias voltadas para a amplidão.”

Tal era assim o bairro que conheci ao chegar à capital de meu Estado.

Mas antes dessa história toda é preciso que eu dê as razões pelas quais fui parar em Vitória.

Nesse tempo tive de obter um certificado de reservista, pois com 19 anos completos só conseguiria emprego mediante apresentação desse papel. Meu objetivo era voltar para Niterói, onde vivera uns tempos e estudara no Colégio Plínio Leite, mas com o indispensável documento na mão e a necessidade inadiável de arranjar trabalho.

A repartição militar ficava num velho prédio cinzento, ao lado da Confeitaria Pinguim, e lá fui eu me apresentar. O sargento que me atendeu deu-me uma relação de documentos, para que eu voltasse na semana seguinte, com três retratos três por quatro. Por enquanto eu estava dispensado.

Voltei no bonde para Jucutuquara e fiquei andando pelas margens da vala do córrego de Fradinhos. Certo dia fui por uma trilha do mangue até à beira-mar e vi de perto aquele belo e imenso canal de entrada da baía de Vitória. Ao longe, pequenas ilhas pontilhavam as águas mansas. Numa delas uma construção bizarra, indefinida à distância, apenas a riscar na paisagem calma a vaga silhueta de uma velha manteigueira. Sim era a ilha da manteigueira. A casa, diziam mal-assombrada, era habitada por fantasmas e duendes, contaram-me depois.

Na semana seguinte fui reapresentar-me ao Exército. Depois de longa espera o sargento recebeu meus papéis, entregou-me um certificado provisório, e acrescentou que eu teria que prestar juramento à bandeira depois de um ano. Voltei exultante com o documento na mão. Minha experiência militar durara portanto o espaço de uma semana. Faltava agora o emprego; que tanto podia ser em Niterói ou em Vitória mesmo.

Já havia feito alguns amigos, Christiano, Christiano Dias Lopes (em cuja casa morei também alguns meses) e Antenor Carvalho, que estavam cuidando de fundar um jornal. Folha Trabalhista se a memória não me trai. Christiano, meu parente e conterrâneo, convidou-me a ficar em Vitória e a trabalhar no novo jornal. Eu já escrevia na Ordem, de São José do Calçado. Topei e fui ficando.

Jucutuquara passou a ser minha nova Pátria. Todas as tardes, quando o bonde de volta apontava na curva do Saldanha, eu revia a velha manteigueira, misteriosa e distante, como parda gaivota pousada na mansidão das águas da baía de Vitória.

Não sei que fim levou essa estranha construção. Nem se a ilha que lhe servia de suporte ainda existe. Quase tudo em Vitória foi aterrado. Até as lembranças. Mas hoje persiste na minha memória a figura da manteigueira vista lá da curva do Saldanha como uma paisagem inapagável dos meus primeiros tempos de Vitória.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 1995
Autor: José Carlos da Fonseca
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014



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