Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A menina do bar à beira do cais - Por Marien Calixte

Escandinávia Bar

Uma menina, e o que mais? Seus 16, 17 anos, rosto delicado, olhos negros bordados de olheiras, sinais de noites mal dormidas e fome. Os seios ondulantes enalteciam a blusa de tecido leve, presa à bermuda jeans. Pernas longas e bem feitas. A pele clara e um jeito moleque, infantil. Era preciso delicadeza para entender sua sensualidade.

"Tina, me chamo Tina, como a cantora... sabe, aquela...", dizia ela, movimentando os braços, a cabeça e os quadris, figurando o ídolo. Do seu nome de batismo, Celeste, ela não gostava. Veio de uma tia do interior, de onde há pouco chegara, rebocada por uma amiga que lhe falara de ganhar fácil dinheiro americano, vivendo na capital. Descobria, agora, a vida no seu lado mais cruel. Diante dele, as mãos segurando uma carteira vulgar de plástico em cores, a boca, pequena e descolorida, abriu-se num apelo: "Colabora comigo, cara. Larga uma grana, pra comprar comida". Não parecia mentir. Olhando-a, sem rigor, sua figura dizia tudo: pouca idade e pobreza. Ele deu-lhe duas notas de cinco mil. Espantou-se com a generosidade e se ofereceu: "Quer um beijinho?" Ele sorriu: "Peça o que quiser para comer, beber. Guarda essa grana, tá?" Ele tentava alguma gíria, para nivelar-se no diálogo dela, ia precisar. "Sente-se", convidou-a quase ordenando. "Estou legal aqui, se você não quer combinar uma saída..." A resposta não ainda carregava o tom viciado do seu ofício. "Isso pode acontecer. Antes, quero conversar com você, com calma. Minha mãe ensinou-me que não se fica sentado quando uma dama está de pé, mesmo que seja uma menina, como você...". Riu, segurando a carteira e escondendo parte do rosto. Ele, cuidadosamente ia se sentindo fascinado pela situação. "É Minha, educação antiga, questão de gentileza..." ele explicou. "Gostei. É bonito. Posso contar às minhas amigas, para ensinar aos outros caras?", disse ela, tentando puxar uma cadeira, mas ele foi mais rápido no gesto de cortesia que um homem deve ter com urna mulher que deseja sentar-se. Estava encantada. Naquele lugar a gentileza só se revelava quando alguém pagava uma cerveja.

"Tina, não é?" Ela fez que sim com a cabeça, devorando o misto quente e bebendo o refrigerante com avidez. "Tina, preciso de um favor seu", falou aproximando-se dela. Ela arredondou os olhos para ele. "É uma brincadeira legal, uma aventura... algo que você vai gostar". Ela sentenciou: — "Vou ganhar minha grana?" Ele abriu as mãos como um pregador diante de seus fiéis: "Grana, grana, roupas, sapatos, pinturas, jóias, até perfume. E ainda vai passear de carro e dormir num bom colchão". Estava sendo ofertado o paraíso. Ela se comoveu e desconfiou, mordendo o último pedaço do sanduíche: "Você quer um programa diferente!" Ele recolheu as mãos: "Não. Nada do que você está pensando". Tina estava mesmo atenta: "Olha, aqui a gente trabalha no normal". Ele foi claro: "Tina, nós não vamos fazer sexo". Ela fuzilou: "Fazer... hum! Você quer dizer trepar". "Nem isso, Tina. Quer dizer, pode até acontecer, pintar isso..." Ela olhou-o com ironia e algum desprezo: "Você é desse tipo de bicha que transa doideira com mulher?" Ele se sentiu constrangido, mas tentou controlar-se: "Não. Eu sou homem mesmo, gosto de mulher, detesto bicha. Agora segura mais esta, por conta da nossa brincadeira". E entregou uma nota de cinco mil. Ela entreabriu a boca com um leve espanto. Deu um beijinho na nota: "Posso, não? Você, que é educado..."

Ele pediu a conta. "Aqui não é ideal para conversar sobre o meu plano", determinou ele, impaciente porque o garçom demorava. Ela topou.

O carro parou no Terminal Dom Bosco. Pegou Tina pela mão e foi conversar no finalzinho do píer das lanchas. Antes, providenciou uma compensação financeira e democrática para o vigia, um senhor com cara de durão, mas deliberadamente simpático àquela situação.

O local é propício ao encantamento: a noite agradável de maio, pios de aves noturnas, o cheiro de maresia, a figura iluminada do Penedo e as luzes do porto, como se fosse uma festa ao longe. "Parece um colar de pérolas", disse ele, apontando a Terceira Ponte. Tina apoiou-se no gradil do píer: "É a primeira vez que venho aqui. Lugar legal". Enquanto falava ela percorria com a mão o baixo ventre dele. Revelava-se o desejo de ambos. Ele segurou a delicada mão que o excitava: "Teremos tempo para isso". Ela sentiu-se encabulada diante daquele homem gentil e misterioso. Em seus pensamentos aflorou o sonho de voltar ao pequeno lugar, no interior, de onde viera, para, contar a todos que conhecera um homem de educação. Ele tocou sua face levemente, iluminada pelas luzes da Avenida Beira-Mar. Os dois sorriram coniventes, enquanto o céu acolhia-os sob sua ramagem de estrelas. "Tina — começou ele — que tal roupas, sapatos, perfume, pintura, tudo de boa qualidade... Umas palavras novas para falar, um passeio pela noite capixaba, aquela que você ainda não conhece". Ela ficou séria. Tinha uma história para contar: "Olha, cara, eu sei do caso de uma colega... Um homem deu tudo isso pra casar com ela. Dois dias depois desapareceu". Enfatizou: "Eu não quero casar. Estraga a vida da gente. Só quero o cara pra transar e ganhar minha grana". Continuava séria. Naquele momento não parecia uma menina perdida na noite. Era alguém com um plano de vida. Ele tocou seu braço para transmitir-lhe segurança no que ia dizer: "Só quero que você bote uma roupa decente, aprenda alguns bons modos sociais e dê uma saída comigo, uma noite, duas, tudo sem forçar nada". "Mas o que vou fazer por aí, com um cara de educação, gente fina... Eu tenho um negócio, tou na rua, cara..."

Ele entendeu que precisava dizer mais: "Quero curtir a cidade com uma mulher diferente. Alguém que ninguém sabe quem é. Quero mostrar você. Quero surpreender, quebrar a monotonia... mostrar que é a roupa e o perfume que fazem essa merda..." Ela voltou a ficar séria, muito atenta às palavras dele. Havia um modo nobre no seu rosto infantil, ainda não devorado pela corrupção das ruas. Ele compreendeu seu rosto e um traço de compaixão riscou sua cabeça. "Vamos sair daqui", decidiu: "Você vai dormir num lugar legal". "Mas, se você paga, eu tenho o dormitório da Avenida República, o pessoal lá é meu amigo..." "Não. Você vai ficar num hotel com vista para o porto e, amanhã, só sairá de lá quando eu chegar. Combinado?" Ela concordou.

 

Dia seguinte 1: Ele cumpriu tudo que prometera. Levou roupas, inclusive as íntimas, sapatos, bijuterias, batom e ruge, xampu e um perfume de seu próprio uso. No apartamento do hotel, as roupas dela, poucas e surradas, ornamentavam as duas cadeiras disponíveis. Ele sugeriu que ela desse aquela roupa a alguém pobre, em seguida tirou sua própria roupa, levou-a ao banheiro e deu-lhe banho como quem trata de um bebê. Tinha levado, também, um bom sabonete, tesourinha, lixa para unhas. Mais surpresas: pintou-lhe as unhas com esmalte de róseo tom. Ela se sentiu rainha. Abraçou-o e disse-lhe: "Estou esperando por você desde ontem". Ele afastou-a com delicadeza, embora o desejo já o atormentasse. Olhou nos olhos dela — para os quais levou sombra e um colírio — segurando seus antebraços, disse-lhe com um sorriso de dono da situação: "Há muito tempo para muitas coisas". Ele recolocou a roupa e começou a explicar para ela como falar, sentar-se à mesa, segurar os talheres. Entre as lições: nunca encarar os homens, porém manter um olhar vago, com a cabeça sempre em pé, firme. Ela se comportou como uma boa aluna.

O plano abria-se em seu segundo ato. Ele recomendou que ela almoçasse no hotel, dormisse após o almoço, para que, à noite, estivesse com o corpo em forma e o rosto iluminado de boa energia. Na portaria, sugeriu o almoço e sucos servidos no quarto. E nenhuma perturbação para a hóspede. Uma generosa gorjeta ao recepcionista, outra ao atendente dos apartamentos, selaram aquela parte da missão. No apartamento, vestindo apenas calcinha e uma toalha de rosto enrolada ao pescoço, olhava do décimo andar a ampla paisagem: o porto e seus navios, Argolas, Paul, as Cinco Pontes. Brincou de contar os carros, as pessoas, entre essas reconheceu uma colega com sua habitual blusa vermelha, fartamente decotada, presa a uma calça tão justa que a impedia de subir a calçada. Riu e fixou o céu matinal daquela quinta-feira. Estava feliz como em época alguma de sua vida. "Aconteça o que acontecer, eu vou me dar bem..." pensou baixinho, em segredo com suas esperanças.

Dia seguinte 2: A noite se debruçava sobre Vitória. Era o momento mais louco do trânsito, quando os executivos vão em busca dos bares para beber, rever amigos e paquerar. O cenário da aventura estava aberto. Ele chegou ao hotel indagando à recepção se tudo correra como mandara. Ela não saíra e só pedira uma cerveja e sorvete. Quando chegou ao quarto dela viu-se diante de uma cena de humor e comiseração. Na escolha entre as roupas e bijuterias, ela se confundia. Ele usou seu bom gosto e senso. Acalmou-a com um beijo no rosto, escolheu devagar a roupa adequada para a noite, os brincos e um colarzinho, orientou a pintura dos lábios e do rosto, o indicando os locais e a maneira correta onde passar o perfume. Obrigou-a ensaiar alguns passos com os novos sapatos, perguntou-lhe coisas curiosas, aconselhando-a a esquecer o legal, o cara, os palavrões. Sugeriu-lhe sorrir com os lábios semi fechados. E fazer silêncio, o artífice do mistério que encanta homens e mulheres.

Aprovou-a, estendendo-lhe a mão, deixaram o hotel.

No carro dele foram ao bar do hotel Alice. Duas mesas estavam ocupadas por tipos habituais daquele horário. Gerentes de banco, advogados, homens de negócios e apenas uma mulher, jovem e disputada pelos seus dois companheiros. Ele escolheu uma boa mesa perto do bar, onde havia melhor iluminação e onde circulariam mais fregueses. Tina adorou quando ele puxou a cadeira para que ela se sentasse. "Dê uma olhada em torno, mas sem encarar ninguém". Pediu um bom vinho branco, queijo e água. Ela segurava a taça como se fosse uma obra de arte sagrada, conferindo à cena uma sutileza gestual incomum.

"Boa noite. Andou desaparecido... E aqui está... em bela companhia!" Ele ofereceu a mão ao amigo que acabara de chegar e logo concedeu-lhe um lugar à mesa. "Esta é Tina..."O amigo mostrou os dentes como se fosse uma hiena abobalhada, ela fez um aceno com a cabeça e manteve o sorriso preso nos lábios semi fechados. O amigo correu de novo os olhos sobre Tina, demorando-se no perfil de suas pernas. Ela, deliberadamente, colocou as mãos juntas sobre as coxas, num inusitado gesto de recato. O amigo pensou: "Ela é tão fresquinha..."Ele notou o interesse do outro e os três brincaram com este jogo de aparências por algum tempo, até que ele, atento ao seu plano, mudou o rumo das coisas: "Vamos dar uma volta pela cidade". "Por exemplo?", perguntou o amigo, já fascinado pela incrível imobilidade de Tina. Ele engatilhou: "Comecemos pelo desconhecido... Vamos a um bar de calçada, simples..."O amigo perguntou a Tina: "Você topa isso?" Ela afirmou com a cabeça, trocando de olhar com o seu protetor, com quem, aliás, gostaria de sair, a sós, naquele momento. Queria descobri-lo. Tina sentiu na sua coxa esquerda a pressão do joelho do convidado à mesa. Ela permitiu, por intuição, imaginando algum tipo de jogo que o seu amigo preparara para o outro.

Ele pediu a conta. "Deixe seu carro no estacionamento. Venha comigo. Depois trago você. É melhor nós três juntos, vamos curtir... Que acha?", disse para o amigo, definindo tudo, enquanto o outro se levantava em aprovação à proposta, lançando um olhar longo e pesado sobre Tina. Ela esperou que um dos dois puxasse sua cadeira. O amigo o fez desajeitadamente. Tina compreendeu a diferença entre os dois homens e permitiu-se um sorriso mais amplo. A noite estava com o estopim aceso.

Dali foram parar no Scandinávia, um autêntico bar de beira de porto, mulheres, gigolôs, meninos pidões e perigosos, taxistas só cobram em dólar, policiais coniventes e muitos homens procedentes dos tombadilhos e porões de navios. O bar tem à frente um ponto de ônibus, o cais das lanchas e dos catraeiros, o panorama da baía e do porto de Vitória. A má fama ronda o lugar. Portanto, perfeito para a originalidade social imaginada por alguém em busca de aventura fora dos eixos.

Ele, Tina e o amigo ocuparam uma mesa na calçada em frente à avenida Beira-Mar. Nas demais mesas alastrou-se um burburinho. Tina estava deslumbrante à visão dos seus conhecidos e das colegas. Mas ninguém ousou intervir, diante da presença dos dois homens bem vestidos que a acompanhavam, educados demais para o lugar. Além disso, pediram uísque importado.

Ele preferiu manter-se num ângulo que visse de frente os demais fregueses e localizou Tina mais próxima ao seu amigo. Pedida a bebida, instigou a conversa: "Imagine, você no Scandinávia..."O amigo estava com o cérebro comprometido com Tina, sonhando um fim de noite em algum motel. Ela imaginava isso, enquanto beliscava o uísque "como deve fazer uma dama e sua bebida". Ele abriu os braços em direção ao porto e fez que discursava: "Vejam: este lugar é onde a cidade começou. Ali está o mar, a baía de Vitória, o porto e seus mistérios. Somos uma ilha, a cidade toda é um cais... Lembro-me de uns versos: Atlântico, Atlântico! O cais é a casa do mar..."

Quando observou a garrafa de uísque de maré baixa, pediu a conta e fez um anúncio, curvando-se sobre a mesa de metal: "Tina precisa descansar. E você, meu amigo, vou deixá-lo no local do seu carro". O outro tentou mudar o rumo da conversa. Ofereceu-se para levar Tina, repetiu o velho verso dos boêmios "a noite é uma criança", tentou tudo. Tina sorria e sentia sono. Deixaram o bar sob o mesmo olhar de intensa curiosidade dos demais clientes. O amigo ficou, mesmo, no estacionamento. No seu ouvido uma mensagem: "Prepare-se para amanhã. No bar do Alice... começando a noite". O amigo aceitou.

Tina foi conduzida ao hotel. Fez-lhe novas recomendações: dormir bem, tomar um bom café e almoço, descansar à tarde. Era importante não deixar o hotel. Pela manhã, traria outras revistas e flores. Antes de sair, ligou o televisor, deu-lhe um beijo no rosto e prometeu: "Amanhã, será sensacional". E completou com duas notas de cinco mil, colocadas nas delicadas mãos dela, despedindo-se. Ela sentou-se na cama e chorou de prazer e saudade do amigo. Deitou-se com roupa e tudo, dormiu sem ver o filme da tevê. Acordou com o café à porta.

 

Dia seguinte 3: Sete da noite. Depois de visitar Tina no hotel e dar-lhe novas instruções, seguiu para o bar do Alice. O amigo executivo já o esperava ansioso, com dois uísques na cabeça. "Onde está ela?", perguntou, aflito, por Tina. Ele riu, abraçou-o com comedimento e sentenciou: "Aguarda-o nesse endereço". Era do hotel. O amigo deixou os uísques para o outro pagar, enfrentou a confusão da Avenida Jerônimo Monteiro, comentando alto para seu novo carro: "Bicho, aqui vamos nós para aquela delícia..." No hotel, ele encontra Tina na recepção. Cumprimenta-a com dois beijinhos nas faces. Ela mantém-se discreta. Isso o excita ainda mais. No carro passeiam pela zona norte da cidade, os lugares da moda, Triângulo das Bermudas. Ela se espanta com tanta gente. Depois, Camburi. Está inquieta e deslumbrada. O amigo para o carro junto ao calçadão e pergunta se gostaria de conhecer um lugar confortável, maravilhoso. O sorriso dela diz que sim. Logo estarão na fila de entrada do melhor motel ao norte da ilha. "Vou pedir uma suíte que é um sonho". Tina o surpreende: "Tá legal, pra mim. Mas a grana sai antes". Ele parece não entender. Tina insiste: "A grana, antes, é como tem que ser". Pediu uma quantia muitas vezes mais elevada que a tabela das ruas. Ele pensou que fosse uma brincadeira, deu-lhe um cheque. Ela beijou o cheque e, levantando o queixo em direção ao interior do motel, definiu: "Vai ser muito legal".

Às 3 horas, acorda. Procura na cama, no banheiro, na piscina, na sauna, nas saletas, por toda a suíte, não encontra Tina. A portaria informa-o que ela saiu de táxi uma hora antes.

Conferiu suas roupas, seus objetos, o dinheiro, o relógio, estava tudo lá. Não entendeu mesmo.

 

Dia seguinte 4: O amigo executivo passa um dia de trabalho atrapalhado com os novos problemas do mercado financeiro, sem uma chance de procurar por Tina e, naturalmente, por seu amigo. Usa toda sua velocidade e energia, consegue sair um pouco mais cedo. O amigo não apareceu no trabalho e o hotel informa que Tina deixou-lhe uma carta. Tem pressa. Pede para lerem a carta pelo telefone, mas o envelope está fechado e a recepção nega-se a abri-lo. Pega o carro e vai ao hotel. Um bilhete bem direto: "Estou no Scandinávia. Espero por você". A assinatura era do amigo. Sobre Tina, nem uma palavra.

Parte em direção ao bar indicado. É a hora em que vão chegando as mulheres, os taxistas, tripulantes de navios e os bêbados naturais da região. Estaciona o belo carrinho e, no bar, encontra o amigo instalado na mesma mesa e uma garrafa de uísque com menos algumas doses. Não vê Tina. "Diabos, você sumiu e a Tina me abandonou no motel, além de me cobrar uma grana que nem imagina..." Ele sorriu, aconselhou calma ao amigo, aproximou-se dele, pedindo-lhe um abraço. Depois, retirou o paletó de linho, afrouxou a gravata de seda, descalçou os sapatos sob o olhar curioso do amigo.

O outro insistiu: "E Tina? To a fim dessa garota..." Ele afastou-se da mesa e falou mais alto que de hábito, enquanto emborcava uma dose dupla de uísque: "Cara, cumprimente-me. Acabo de pedir Tina em casamento. Ela aceitou. Estou muito feliz!"

O amigo deu uma risada: "Você está aprontando outra. A menina é minha". Ele riu ainda mais alto. "Aprontei e me dei bem, bicho. Caso com ela, hoje mesmo". Um taxista, sentado à mesa ao lado, confirmou: "É verdade o que diz. Ele acaba de acertar comigo para levá-lo, e a Tina, até Guarapari". O amigo começa a ficar revoltado: "Mas você é noivo!" "Era, graças a Tina", fulminou ele: "Exterminei meu noivado". O amigo tem seu último argumento: "Mas Tina é uma putinha... O rapaz da portaria do prédio me contou tudo sobre ela. Você ficou doido?" Ele acentuou, com a aprovação do taxista: "Ela era uma putinha. Agora é minha puta. Estou livre, apaixonado. Foda-se o mundo". Dito isso, saiu correndo em direção ao antigo cais dos catraeiros e atirou-se ao mar, aos berros: "Purificai-vos, canalhas!"

O mar calmo e prisioneiro da baía de Vitória moveu-se levemente tocado pela brisa do nordeste de maio.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 5 - Porto, 1994
Autor: Marien Calixte
Nascido no Rio de Janeiro (RJ).
Jornalista, Radialista, Promotor Cultural, Pintor do gênero abstrato e Escritor.
Autor de Livro de Haikais, Não Amarás, Alguma Coisa no Céu, Lua Imaginária e outras publicações.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2020

Literatura e Crônicas

Quem já passou pelo Marista e não viveu. Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Quem já passou pelo Marista e não viveu. Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Memórias do ex-aluno Luiz Paulo Rangel dos anos em que estudou no Colégio Marista (décadas de 60 e 70), em homenagem prestada aos 60 anos de sua fundação na Câmara dos Vereadores de Vila Velha em 26/03/2014

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Que fim levaram as tanajuras? - Por Francisco Aurélio Ribeiro

Não só o índio que comia, era toda a população, como confirma o relato Auguste de Saint-Hilaire

Ver Artigo
General Osório Número 120 - Por Mário Gurgel

Oferta de uma criatura residente na Rua General Osório 120, para a festa de Natal dos menores da Casa do Menino

Ver Artigo
Moqueca Capixaba - Por Renata Bomfim

As bocas anseiam e marejam como velas errantes ao mar

Ver Artigo
Discurso de Posse como Presidente da AEL - Ester Abreu Vieira de Oliveira

Junto com esta Diretoria, e em estreita aliança com todos os Acadêmicos, pelo difícil e digno dever de conduzir, em 2021, a celebração do I Centenário da AEL

Ver Artigo
Urubu ao molho pardo - Por Elmo Elton

Porque tivesse fama de bom cozinheiro, resolveu fornecer comida, a "preços módicos", a trabalhadores do trapiche de Vitória

Ver Artigo