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A mula sem cabeça - Por Adelpho Monjardim

Iuna - Rio Pardo, 1930

Rezam as crônicas que em luna, quando ainda se chamava Rio Pardo, lá existiu uma assombração que por muito tempo apavorou a Vila — uma mula-sem-cabeça.

Segundo o folclore, vira mula-sem-cabeça a mulher que se amasia com padre. Por isso mesmo casos raros em nosso folclore. Tão raro quanto o saci, quase desaparecido do anedotário fantástico das crendices capixabas. Talvez pela impiedosa devastação das nossas matas, posto que o saci é essencialmente silvestre.

É crença que nos remotos dias do Rio Pardo, ali, nos arredores da Vila, viveu a preta Honorata, conhecida concubina do pároco local, religioso que não primava pelas virtudes teológicas.

Antes da espúria ligação, Honorata, filha de escravos, era moça recatada e de prendas domésticas.

A primeira manifestação do estigma sucedeu em uma Sexta-Feira da Paixão, por sinal dia treze, conjunção nefasta pela Cabala. Nesse dia, pela primeira vez, Honorata encontrara-se com o padre, num terreno baldio, nos fundos da sacristia. Na escuridão noturna os vagalumes riscavam o espaço, em vôos caprichosos, piscando as lanterninhas verdes. Ajeitando os panos, Honorata meteu o pé na estrada, rumo ao lar, enquanto o folgazão tomava outro rumo.

No apavorante silêncio do ermo, Honorata foi presa de estranha metamorfose. Inconsciente rolou no pó da estrada, escabujando pelo ervaçal. Rotas as vestes, a baba a escorrer-lhe pela boca e a roncar como estranho animal, foi perdendo as formas humanas e o corpo se cobrindo de escuro pêlo. Em um abrir e fechar de olhos transformara-se em mula, e sem a cabeça. A sua aparição na Vila, às desoras, levou o pânico à boa gente. Quem mais ousaria sair às noites?

O arrieiro João, morador lá para as bandas do descampado, homem tido como veraz, costumava contar o encontro que teve com a mula. Por uma noite de lua cheia, não muito tarde, ouvira estranho ruído que provinha da mata próxima, como se lá estivesse um bicho de grande porte, uma onça talvez. Pegando a espingarda de dois canos, carregada com cartuchos de chumbo grosso, saiu para investigar. Pela porta da cozinha saiu para o quintal. Cauteloso relanceou os olhos em volta. A lua cheia banhava o descampado e as folhas do arvoredo brilhavam como se fossem de prata. O mesmo sucedia à areia do terreiro. De arma em punho, gatilhos aperrados, vigiando-se, encaminhou-se para a mata. O ruído cessara, para logo reproduzir-se mais longe. Intrigado, penetrou por entre os primeiros troncos. Guiado pelo insólito ruído foi na sua trilha. Já demorava meia hora a estranha perseguição, quando, em uma clareira da mata, viu algo que o paralisou de medo: no centro da mesma, banhada pelo luar, a mula-sem-cabeça! Alta e corpulenta como as mulas comuns, tinha o pelo de cor indefinível. Mas o que realmente aterrorizava era o longo pescoço, exibindo, em lugar da cabeça, escuro e repugnante buraco. Oscilando-o de um lado para o outro, como se orientava era mistério. Por instinto, talvez, partiu, em louca tropelada, para cima do apavorado arrieiro, que largando a espingarda buscou a salvação na fuga. Graças aos troncos, bastante juntos, logrou escapar. Semimorto, o pobre deu graças ter alcançado a cabana, onde se trancou a sete chaves.

Espalhando-se a aventura, ninguém mais ousou sair de casa à noite. Desde então a mula implantou ali o terror.

Contavam os antigos, que, suspenso das Ordens, o mau sacerdote morreu misteriosamente. Por sua vez a mula desapareceu para sempre.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2016

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