Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A pedra e o Penedo

Penedo

Havia dois navios da Booth Line, em que nós viajávamos de Manaus a Belém. De lá eles iam a Liverpool, na Inglaterra.

Conhecíamos - meu irmão e eu - cada canto dos dois navios. A ala dos ingleses, a dos portugueses. Meu pai trabalhava em uma companhia britânica, a Manaus Harbour, que cuidava do porto de lá, que possuíam um cais flutuante por causa da variação dos níveis das águas. Tínhamos então cinco ou seis anos, por aí.

Um dia papai decidiu viajar em um navio que passaria por Vitória. Um do Lloyd, acho. Depois faríamos a rota normal para o Rio.

Um marinheiro contava histórias à noite no tombadilho. A criançada acreditava em tudo e punha fé.

- Vocês vão ver Vitória. Tem um imenso morro de pedra, no meio da baía. Ele é mágico. Ninguém, por mais que se aproxime, consegue tocá-lo. Eu mesmo já me aproximei de bote, e tentei jogar moedas. As moedas voltavam para o nosso bolso. Tempo bom - penso - moedas voltando aos bolsos.

Quando desatracamos de Salvador, esperávamos ansiosos conhecer Vitória, do Espírito Santo.

Chegamos de madrugada. Minha mãe, em deferência especial, saiu conosco da cabine e demos de frente com o Penedo. Meu irmão ainda sonolento fez o inesquecível comentário:

- O Pão de Açúcar daqui é pertinho...

O marinheiro estava lá nesse momento. Olho o rebocador insolente arrastando o navio cidade adentro. Vitória estava parcialmente iluminada.

- Aqui, tudo é mágico, garotada. Você pode olhar de sua janela e ver passar um trem, um navio e um avião ao mesmo tempo.

Um trem, um navio e um avião, vistos das janelas.

Atracamos lentamente no cais. O palácio do governo parecia mesmo um palácio do governo. Estávamos em frente - agora já sei - ao hotel Estoril. Ficamos debruçados olhando Vitória e seus portuários até o amanhecer. De lá pudemos notar os primeiros ônibus. Alguns eram lotação. Lembram do lotação? Quando vim morar aqui reconheci os danados. Faziam a linha da praia do Suá ao centro da cidade. No ponto de ônibus olhávamos do navio alunos do Colégio Estadual, onde gramei aquela farda.

Saímos antes do almoço para dar uma volta na cidade. O navio partiria na tarde do mesmo dia. Fomos à Catedral, andamos por aí de táxi e foi só.

Minha mãe olhou com convicção nos olhos do velho Anderson, meu pai:

- Nós ainda viremos morar nesta maravilha de cidade!

Não deu outra. Anos depois adentrávamos, por assim dizer, o porto. Meus pais, para sempre. Os portos são cheirosos, na mais completa acepção do termo. - É como se fosse um mercado persa dos viajantes. Nesse dia, havia cheiros de café, óleo queimado, mar, feijão.

O velho porto viria a marcar a cidade.

Sempre que passo pela Beira-Mar, lembro do marinheiro, e procuro o trem, o avião e o navio. E sempre estão bem ali em frente da minha recordação...

De vez em quando pego a barca de Vila Velha e dano a fotografar os navios. De fundo e de perfil. É verdade a história do Penedo. Nunca consegui jogar uma moeda lá.

 

Autor: Paulo Bonates - Jornalista, médico, professor universitário e escritor
Fonte:
 Escritos de Vitória - 5 - Porto - 1994
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2012

Matérias Especiais

O Primeiro Clube Republicano do ES - Por Newton Braga

O Primeiro Clube Republicano do ES - Por Newton Braga

Em setembro de 1888 reunia-se em Cachoeiro o Primeiro Congresso Republicano do Espírito Santo, vindo representantes de toda a Província

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

A pedra e o Penedo

Vocês vão ver Vitória. Tem um imenso morro de pedra, no meio da baía. Ele é mágico. Tentei jogar moedas. As moedas voltavam para o nosso bolso. Tempo bom - penso - moedas voltando aos bolsos

Ver Artigo
Deputados capixabas nas duas constituintes imperiais

Em 1823, tomou assento na Assembléia Constituinte brasileira, como representante capixaba, o Dr. Manuel Pinto Ribeiro Pereira de Sampaio, membro do Supremo Tribunal de Justiça, era nascido em Vitória

Ver Artigo
Zé Pretinho

Fica ali, exatamente na esquina da Aleixo Neto com a José Teixeira. Do lado de Santa Lúcia. Não tem placa que o identifique. Mas há quarenta anos toda a redondeza cohece o Zé Pretinho

Ver Artigo
E por falar em saudade

Tenho saudades do torrone, da Garoto, um tablete de docinho recoberto de chocolate e com recheio pastoso de castanha, amêndoa ou amendoim, já não me lembro mais. Só sei que era uma delícia e que guardava todas as minhas pequenas economias para comer um a casa quinze dias. Era a época do leite-mel, da pastilha forte, da groselha, do sorvete de coco verde do Michel, guloseimas,...

Ver Artigo
Origem do Carnaval no Brasil

Fomos influenciados inicialmente pelos portugueses da Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde, que trouxeram a brincadeira de loucas correrias. No Brasil, com a criação dos Trios Elétricos pelos baianos, uma nova caracteristica de carnaval se disseminou

Ver Artigo