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A poesia dark de Sérgio Blank

Blank utiliza da ironia e deboche como elementos de linguagem

Sérgio Luiz Blank, jovem autor de vinte e quatro anos, chegou a seu terceiro livro de poemas, Um, após o promissor Estilo de Ser Assim, Tampouco e o contundente Pus, de 1987. Ele é ao lado de Valdo Motta, (em hibernação burocrática no DEC), os melhores nomes da poesia jovem capixaba. Por que? Talvez, porque retratem com precisão o clima 'dark', estilhaçado e niilista do fim deste século, mais próximo de um pesadelo orwelliano que de um sonho de poeta pescador. É claro que não foram feitos para agradar à classe média, conservadora, consumista, dona de monza e televiseira dos dias globais.

Hoje, atividade marginal, a poesia não é mais feita para as recitas de saraus, os chás acadêmicos ou festas de formatura como as do Colégio do Carmo. A poesia contemporânea realiza o que Manuel Bandeira propusera em sua Poética: "O lirismo dos loucos, dos bêbados, dos clowns de Shakespeare, um lirismo libertação".

Mas que marcas constituem a lírica moderna de Sérgio Blank? Se os seus poemas falam dos chaplineanos tempos modernos, como o fazem? Que relações apresentam com a lírica tradicional? Em primeiro lugar, o subjetivismo sentimental e a musicalidade dos versos, características da arte lírica tradicional, são retomados numa postura pós-moderna. Os poemas de Sérgio refletem o homem atual: esquizóide, permeável a tudo, demasiada-mente próximo da destruição, promíscuo a todas as experiências, transformando-se numa pura máquina desejante, num revolucionário esquizofrênico: "O meu estado é este/ o interior do meu estado é este/ (...) o meu estado não será o seu / o seu estado é o interior do seu espírito / e o seu santo é o século que não creio (In: O Estado, p. 53)

Literatura fragmentária, repleta de citações, descontínua, polissémica, a poesia de Sérgio Blank é alegórica, em contraste com a estética clássica, que é simbólica. Ela é muito mais metonímica e hiperreal que metafórica ou surreal: "Me sinto / fora de foco / in loco / foto pose finale / no hotel del leito louco / outra lacraia sem apoio" (In: Epitáfio Dark nº  1, p. 19) ou "tem por lucro & clamaidade o leviatã primo no caos / aquático e réptil aquele das febres quantã e octã / que se desdobram de dor qual camaleão de cor acre" (In: Listras Rosas no Branco, p. 23)

"Desde que sei o inferno e los outros todos / o belo e o sublime não fazem jus ao maniqueísmo tratado por moléstia" são versos de A Bela e a Fera (p.27), talvez o seu melhor poema e que melhor retrate a condição pós-moderna. Citando Dante, Lobão e Cazuza, a Bíblia, Sartre, O. Wilde, Castro Alves, Gil Vicente, Foucault e inúmeros outros signos-estilhaços da realidade, Sérgio Blank reconstrói a nebulosa sociedade pós-moderna, os "jogos de linguagem" citados por Lyotard, heteromórficos, sem regras que os disciplinem. A Bela e a Fera é um poema que faz uma alegoria ao ser social pós-moderno, um fervilhar incontrolável de multiplicidades e particularismo, "pouco importando se alguns vêem nisso um fenômeno negativo, produto de uma tecnociência que programa os homens para serem átomos, ou outros um fenômeno positivo, sintoma de uma sociedade rebelde a todas as totalizações - ou o terrorismo do conceito, ou o da policia" (ROUANET, Sérgio. P. A Verdade e a Ilusão do Pós-Modernismo, (In: As Razões do iluminismo. S. Paulo, Companhia das Letras 1987, p. 229- 277)

Se os versos de Sérgio Blank incomodarem, também o fizeram todos os que ousaram antecipar seu tempo, com sua arte transgressora. Whitman, Baudellaire Poe, Kafra, Oswald e Drummond são exemplos não muitos distantes. Há vários outros. Resta-lhes (aos incomodados) ler a ironia de O Condenado e o Nada, com epígrafe de Valdo Motta e tudo: "Há de enfrentar a nado o nada para enfim dar a Lugarnenhum". - "os incomodados que se mudem /que se meçam se matem / os condenados que se danem / danificam uns aos outros / que se dêem ao luxo de se lixares / os condenados se destruam uns e outros ao cubo ao quadrado de cabo a rabo / pois eu (meu bem, meus queridos, meus amores) / eu pois desisto do curso desta festa / o curso deste rio raso / discurso dorsal de dor e sombra / onde me jogo descalço com pedras no percurso / corsário ou cárcere? indaga a festa" (p. 43)

Ironia, deboche, desdém, agressividade, são marcas da juventude. Feitas com arte, dão um novo conceito à poesia: "As melhores palavras em sua melhor ordem". Nem sempre, Coleridge. "A arte de excitar a alma". Por que não o corpo também, Novalis? "Toda verdadeira poesia é uma visão de mundo", Eliot. Que mundo? O do poeta? O do leitor? Nenhum deles? Apenas Um, afirma Sérgio Blank.

 

Fonte: Painel – Informativo Cultural, maio-junho/1989, Departamento Estadual de Cultura – Ano III – nº 05
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2016

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