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A Revolta dos Escravos de Queimado

1869/78. Queimado, Serra. Foto de Albert Richard Dietze. RJ Biblioteca Nacional- Pesquisa de Ronald Mansur

A Revolta do Queimado foi uma insurreição de escravos que aconteceu no então rico Distrito do Queimado, Serra, em 19 de março de 1849, dia da inauguração da igreja local, dedicada a São José (34).

Havia muito tempo, já vinham sendo formados numerosos quilombos nas áreas próximas às fazendas e povoações da região. Colaboravam bastante para a formação desses ajuntamentos de escravos fugidos a deficiência da força policial de repressão e a dificuldade que a administração provincial encontrava para organizar grupos de civis capazes de destruir essas improvisadas aldeias negras. Contudo o governo vinha promovendo guerra constante aos quilombolas que lutavam pela liberdade.

O movimento foi organizado e iniciado por alguns escravos mais conscientes da conjuntura histórica, que parecia apontar uma possível vitória. Entretanto, a insurreição foi facilmente subjugada devido à insuficiente organização estratégica e precipitação de alguns líderes ante o não-cumprimento da palavra dos fazendeiros que, supostamente, tinham prometido libertar aqueles que tivessem participado da construção da Igreja de São José. Alguns líderes aceitaram os apelos dos escravos mais insatisfeitos, no sentido de iniciar a revolta logo, caso não fosse feita a concessão das cartas de liberdade. E, de fato, no dia da inauguração da igreja, muitos escravos ficaram esperando inutilmente pela liberdade prometida, que não veio.

Tudo indica que foi o padre Gregório de Bene, o maior interessado na construção da igreja, o autor dos boatos de que, como recompensa pela ajuda durante os horários de folga, os escravos ganhariam a liberdade, a ser concedida no dia da inauguração. Nesse dia, os escravos, revoltados porque a tal liberdade não era declarada, começaram um protesto. Os senhores, temerosos das consequências, chamaram tropas militares, que investiram contra os protestantes para dispersá-los, ferindo uns e matando outros. Houve reação e a luta tomou características de verdadeira guerra.

Os negros de Queimado já tinham reunido muitos companheiros armados e teriam alcançado grande número, se os contingentes de São Mateus, Viana e parte do Queimado tivessem chegado ao ponto de encontro, no pátio da igreja, em tempo para a luta e dispusessem de melhor organização. Na falta dela, foi tarefa simples para a força policial, constituída inicialmente por 20 soldados, sob o comando de um oficial, derrotar, dispersando logo no primeiro encontro, aqueles combatentes da liberdade.

A revolta durou apenas dois dias. Seguiu-se uma caçada selvagem aos fugitivos, levada a efeito por impiedosos batedores capitães-de-mato, que iam trucidando todos os negros que encontravam, como suspeitos de serem participantes da revolta.

Muitos revoltosos foram presos, torturados ou ainda mortos imediatamente. Os que escaparam às torturas e castigos dos primeiros momentos foram, em número de 38, submetidos a júri, que absolveu seis, condenou cinco à pena de morte e os outros a açoites. Três, daqueles cinco condenados à morte, conseguiram fugir da prisão e os dois restantes foram enforcados: Chico Prego, na Serra, e João da Viúva Monteiro, no Queimado, como exemplo de repressão a futuras revoltas semelhantes, principalmente nos lugares onde esses líderes rebeldes tinham maior influência.

Porém, o principal líder da revolta era Elesiário.

A Insurreição do Queimado teve grande repercussão na Província. O presidente, inclusive, quando transmitiu para a Capital do Império do Brasil as primeiras notícias, fez grande alarde do terror e pânico que se apoderara dos habitantes locais e vizinhos, dizendo que eram pequenas e mal equipadas as tropas da polícia e, por isso, pedia reforços em homens, armas e munições. Dias depois, chegava à Baía da Vitória um navio a vapor da Marinha de Guerra, conduzindo um grupo de 31 soldados, comandados por um oficial, para ampliar a repressão aos negros revoltosos.

A Insurreição de Queimado marcou, por muitos anos, a vida dos capixabas do período escravista, pelo fato de representar sempre uma mostra da latente violência contida nas relações escravistas e da pulsante e inquebrantável vontade de libertação que os escravos demonstravam, mesmo que para isso fossem levados à luta sangrenta e daí à morte.

Nesse quadro de acontecimentos podem ser encaradas as permanentes, e já antigas, falas dos governantes no sentido de que fossem tomadas providências para solucionar as dificuldades da presidência da Província em conseguir recursos financeiros destinados ao aumento das forças de repressão policial.

É importante destacar que oito anos antes de acontecer a Revolta de Queimado, numa mensagem apresentada na Assembleia Provincial de 1840, o presidente informava ter armado 24 homens para auxiliar as autoridades policiais na captura de criminosos e para destruir quilombos. E concluía, depois de algumas considerações sobre essa questão, que o governo sentia falta de um grande homem hábil e capaz de comandar a repressão e pôr fim ao “perigo” representado pelos quilombos.

Com o passar do tempo, a Vila de Queimado foi empobrecendo e sendo abandonada, de tal forma que atualmente só restam as ruínas da igreja e do cemitério como testemunhas da riqueza ali construída com o trabalho dos escravos.

 

NOTAS

(34) Novaes, 1963, p. 75 e seg.

 

GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Governador

Paulo Cesar Hartung Gomes

Vice-governador

César Roberto Colnago

Secretário de Estado da Cultura

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Subsecretário de Cultura

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Cilmar Franceschetto

Diretor Técnico Administrativo

Augusto César Gobbi Fraga

Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

Agostino Lazzaro

Apoio Técnico

Sergio Oliveira Dias

Editoração Eletrônica

Estúdio Zota

Impressão e Acabamento

GSA

 

Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. – 2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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