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A vez do soçaite – Por Hélio Dórea

Sob as ordens de Chiquinho

Cheguei aqui em janeiro de 1953 e estou até hoje. Pensei antes de chegar: vou a Vitória, faço o vestibular (de odontologia), e depois me transfiro para Salvador. Só que eu gostei demais daqui. Como eu cheguei lá nO DIÁRIO? Bom, aí é a mesma história de como eu comecei no jornalismo. Porque eu nunca tive pretensão nenhuma de ser jornalista... nunca pensei. No início nem pensava também em fazer odontologia. Eu pensava mesmo era em fazer o Itamaraty.

Sempre fui uma pessoa que gosta de se comunicar, de ir a festas, fazer relações, fazer amizades e estava realmente freqüentando a sociedade. Recebi uma boa mesada dos meus pais, era sócio do Lions Club e participava dessas reuniões, sendo portanto bem informado socialmente.

Tinha um colunista nO DIÁRIO chamado Aref Assreuy, que ligava todo dia para minha casa atrás de notícias. A coluna dele era feita quase inteiramente, com minhas notícias e, um belo dia, ele resolveu tentar um emprego no Rio de Janeiro. Na ausência desse meu amigo e a pedido dele, comecei a escrever temporariamente a coluna, a mão. Na redação alguém datilografava aquilo e mandava para o chumbo. Um dia ele telefonou dizendo que não voltaria mais para Vitória.

Como eu estava terminando o curso de odontologia e não pensava em ser jornalista, fui aO DIÁRIO pessoalmente e conversei com o diretor — na época o Sr. Rosendo Serapião, pedindo-lhe que arranjasse alguém para ficar no lugar de Aref.

Rosendo Serapião era muito amável, muito delicado, e gostava muito de mim. Fez um apelo para eu ficar fazendo a coluna dizendo que estava gostando mais da minha coluna que da anterior, que eu ia receber remuneração etc. Como eu estava me formando e a grana andava curta, decidi fazer a coluna até engrenar na minha clínica. Quando engrenasse, largaria a coluna. Só que aquilo foi crescendo, foi se desenvolvendo e eu continuei fazendo.

Dentro do jornal, descobri uma boa fonte de renda. Havia os "pastinhas", agenciadores de anúncios. Então, pelas relações que eu tinha, comecei a faturar para O DIÁRIO. Comecei a encher o jornal de anúncios e aquilo me deu uma renda excelente. Passei a ganhar mais como agenciador do que como jornalista.

Houve uma fase nO DIÁRIO em que eu e Plínio Marchini — o dono do jornal já era Chiquinho — arrendamos o jornal. Mas ele sempre foi deficitário. Eu conhecia os macetes da parte comercial, de captação de anúncios. E o Plínio era excelente jornalista. Colocamos como gerente comercial meu sogro, Artacerce Brotto - que era gerente do Banco do Espírito Santo. Pela primeira vez, o jornal teve superavit. Isso foi em 1956, 57, por aí... Pela primeira vez no Espírito Santo foi criado um suplemento que se chamava Jornal Social. Saía uma vez por semana, assinado por mim e por Élcio Álvares. Nós dois criamos o primeiro suplemento em jornal do Espírito Santo.

Saí dO DIÁRIO porque nA GAZETA tinha uma pessoa muito perspicaz, de tino comercial fora de série na época. Era "seu" Eugênio Queiroz. Ele viu que o nosso jornal estava crescendo, tinha muitos anúncios, e procurou saber quem estava por trás daquilo. Quando soube que era eu, mandou me chamar. Ele era presidente da Cesmag, empresa de armazenamento, acumulando esse cargo com a direção geral dA Gazeta, na Rua General Osório.

Seu Eugênio me convidou para ir trabalhar nA Gazeta, mas eu não aceitei, alegando que não pretendia continuar muito tempo como jornalista, planejando depois me dedicar à odontologia. Mas ele insistiu: "Eu estou gostando muito da sua coluna, da sua produção e eu quero você nA Gazeta. Quanto é que você quer?" Na época eu ganhava mais ou menos o equivalente a R$ 2.500 nO DIÁRIO — e ele me ofereceu R$ 12.000. Era uma oferta sensacional. Quando eu ouvi aquilo, falei:

- Mas eu tenho um suplemento.

- Você vem e cria um suplemento. Eu dou 50% da renda do suplemento pra você".

Quando fui prA Gazeta, no outro dia saí na primeira página, com fotografia: "Hélio Dórea baixou nA Gazeta". Criei o semanário e passei quase 20 anos com ele. Depois as coisas foram evoluindo, e eu saí para outras coisas.

Mas a grande base do jornalismo capixaba foi O DIÁRIO. Foi uma escola, uma universidade, que tinha muitas coisas interessantes. A turma da oficina era muito unida com a turma da redação. Os gráficos trabalhavam no meio da fumaça de chumbo derretido - que era altamente tóxica. Mesmo assim os jornalistas desciam lá para bater papo. Havia uma irmandade muito grande. Isso é que fazia o jornal ir para a frente, porque havia tempos em que a gente nem recebia.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.

Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel

Autora: Fernando Jakes Teubner

Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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