Morro do Moreno: Desde 1535
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A VILA NO FIM DO MUNDO

A foto é para ilustrar o imaginário do que aconteceu com almirante Sir Thomas Cavendish em Terras Capixabas

Embora desconhecido pela maioria dos capixabas, o episódio que contarei aborda um grandioso feito militar da história do Espírito Santo, talvez o maior deles e é totalmente verídico, autenticado por cartas e documentos da época.

Peço ao leitor que faça de conta que está na Avenida Beira-Mar, perto do Morro do Vigia, paragem do Clube Saldanha da Gama, aquela bela construção decorada com velhos canhões de ferro fundido. Se olhar em frente, verá do outro lado do canal a imponente muralha granítica que os antigos chamavam Pão de Açúcar e atualmente conhecemos por Penedo. Dependendo da hora, verá também um par de rebocadores ajudando algum navio a cruzar preguiçoso a estreita passagem rumo ao porto de Vitória. Agora retroceda quatro séculos e imagine tudo aquilo em estado selvagem.

Oito de fevereiro de 1592. O dia amanhece. O sol forte de verão arranca reflexos da superfície do mar, cortejada aqui e ali pelas gaivotas que sobrevoam a água em busca do desjejum de peixinhos distraídos. Súbito, a enganosa calmaria é quebrada pela aparição de dois barcos ingleses, trazendo a bordo 120 corsários de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth. Armados até os dentes, eles se preparam para atacar a pequena Vila de Vitória. Perto da Ilha do Boi, o almirante Sir Thomas Cavendish aguarda com cinco navios de guerra. Para o mais temido corsário do mundo, alvo tão insignificante dispensa sua presença na frente de batalha e quem comanda a força de assalto é seu braço direito, o experiente capitão Robert Morgan, que avança pelo canal confiando encontrar pouca resistência. Afinal, há poucas semanas seus homens saquearam com facilidade a Vila de Santos, muito maior e melhor armada. Logo Morgan descobrirá que está errado.

Para defender a capitania, a donatária Dona Luiza Grinalda e seu cunhado, o capitão Miguel de Azeredo, dispõem apenas de um punhado de voluntários mal armados. Todavia, prevenidos com antecedência por uma carta enviada de Salvador por Padre Anchieta, andaram a preparar-se, substituindo a falta de armas e soldados pela astúcia. Assim, quando Morgan chega à estreita passagem entre o Penedo e o Morro do Vigia, uma grossa corrente de cipós entrelaçados, oculta sob o mar, é erguida “no muque”, bloqueando o avanço dos barcos, que são atacados por duzentos arqueiros tupiniquins liderados pelo cacique Japiaçu. De suas pirogas, os índios lançam nuvens de flechas sobre os atarantados ingleses, ao mesmo tempo em que os voluntários de Miguel de Azeredo, protegidos em trincheiras camufladas no matagal do Morro do Vigia disparam seus mosquetes. Morgan é obrigado a recuar. Ferido no orgulho, tenta atacar novamente, mas a emenda sai pior que o soneto. Ele e oitenta de seus homens morrem, os demais só escapando porque fogem para os navios ancorados na Ilha do Boi.

Chega a noite. Para iludir o inimigo, fazendo-o crer que há um grande número de defensores, Azeredo e Japiaçu mandam acender uma linha de fogueiras na costa, do Morro do Moreno até ao Penedo. O engodo dá certo. Cavendish desiste de continuar a luta, garantindo a vitória dos capixabas, vitória total, obtida sem uma única morte do nosso lado! Já Cavendish teve tantas baixas que não tem gente suficiente para guarnecer seus cinco navios e manda queimar um deles antes de enfiar o rabo entre as pernas e voltar para a Inglaterra. Quando a frota passa pela altura de Pernambuco, ele está tão deprimido pela vexaminosa derrota que se suicida depois de escrever uma carta pedindo perdão à rainha: “Majestade, fui derrotado pela brava gente de uma vila no fim do mundo.”

Cavendish e Morgan, dois dos mais famosos corsários de todos os tempos, que já haviam enfrentado e vencido até o exército espanhol no Vice-Reino do Peru, encerraram suas carreiras aqui no Espírito Santo, humilhados por nossos ancestrais. Sinceramente, não entendo porque esse feito grandioso, de tamanha importância histórica, caiu em quase total esquecimento. Do lado de cá do Atlântico, pois no Reino Unido ele é matéria curricular nas escolas secundárias.

 

Autor: Jovany Sales Rey
Fonte: Causos de Vila Velha, 2013
Capa: Ricardo Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2014 
Venda do Livro: Banca do Alemão, localizada Praça Duque de Caxias (Titanic) - Centro, Vila Velha-ES
Contato Alemão: banca.alemao@hotmail.com - Fone: 3239-2545

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