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Açorianidade Capixaba

A rica tradição oral e o arcaísmo sempre foram características fundamentais da cultura açoriana, conseqüências diretas de um modelo social extremamente conservador, gerado pelo isolamento geográfico e histórico desse arquipélago português.

A insularidade, o contato com o mar, a umidade do ar, os vendavais seguidos de tempestades, a religiosidade gerada no medo “sagrado” de abalos sísmicos e vulcões são fatores de forte influência na música e também em qualquer outra manifestação cultural de tradição açoriana. As origens do folclore açoriano remontam aos usos e costumes dos primeiros povoadores do arquipélago (portugueses e estrangeiros vindos de Flandres), permanecendo imutável durante séculos, sendo transformado vagarosamente através da assimilação, adaptação e apropriação de novos elementos, tendo a tradição como elo de estabilidade e preservação.

A música tradicional açoriana é indissociável da música tradicional portuguesa, porém dotada de especificidades, estando sempre entre os principais motivos de reunião de pessoas, seja nas festividades, no acompanhamento do trabalho ou nas comemorações religiosas.

Uma análise musical a respeito das cantigas folclóricas açorianas nos revela a simplicidade de suas linhas melódicas e estruturas rítmicas, predominando o andamento lento das canções poéticas e melancólicas, acompanhadas pelos movimentos de marcações simples das danças.

Instrumentos

Os balhos (festividades folclóricas) eram acompanhados pelo som das violas e outros instrumentos de construção rústica: castanholas, pratos e pandeiros. A viola da terra e a viola da terceira são os principais instrumentos do folclore açoriano, com características físicas e sonoras bastante peculiares.

Os dois corações, nela pintados, apresentam-se como o ponto mais forte do simbolismo referente à viola da terra. De acordo com a explicação popular açoriana os dois corações representam o coração que parte (que emigra para o estrangeiro) e o coração que fica, ligados por um “cordão umbilical” que se une num símbolo, que por sua vez pode representar a saudade ou o “Ás de Ouro”, fazendo referência à busca da fortuna pelos imigrantes.

Na passagem do século XIX para o XX, as influências do iluminismo e cosmopolitismo (advindos das trocas comerciais e mecenato da nova burguesia) impulsionaram o desenvolvimento e o reconhecimento da música na sociedade açoriana.

Os saraus privados da aristocracia e as salas públicas de espetáculo tornaram-se então locais de grande utilização e visibilidade para apresentação de artistas locais, nacionais e internacionais (que passaram a incluir os Açores em suas turnês européias).

Até os anos 70, os balhos regionais eram freqüentados por pessoas de todas as idades, refletindo a possibilidade de confraternização entre as mais diversas gerações. Com a “invasão” das músicas modernas, altamente sonorizadas, houve uma mudança significativa no comportamento social dos açorianos: o grupo etário de meia idade não se sentia mais á vontade para convivência nos mesmos ambientes freqüentados pelos jovens, onde não eram mais praticadas as danças e os cantares tradicionais.

Esta nova mentalidade gerou novos hábitos, silenciando este importante segmento da cultura açoriana. Já na década de 80, uma corrente contrária a esta situação impulsionou o surgimento de grupos folclóricos regionais, que se ocuparam de um intenso trabalho de pesquisa em prol da valorização e divulgação das tradições de seus antepassados, contando com o apoio do Governo Regional dos Açores.

Outra vertente da música tradicional açoriana está relacionada às cantigas de desafio: canções individuais ou coletivas, constituídas por quadras improvisadas numa espécie de duelo entre cantadores, comuns em momentos de lazer ou de trabalho comunitário.

O escritor açoriano Vitorino Nemésio (1901-1978), por ocasião do V Centenário do Descobrimento dos Açores (1932), instituiu o termo “Açorianidade” para conceituar a força e a autenticidade do povo açoriano, bem como a passionalidade derivada de sua cultura. Expressou no conjunto de sua obra literária o sentimento de cinco séculos de vivência humana num ambiente marcado pela presença do mar, da solidão, de vulcões e tempestades, evidenciando a afirmação identitária do homem açoriano, a qual ele nomeou “Açorianidade”.

Razões

“(...) Quisera poder enfeixar nesta página emotiva o essencial da minha consciência de ilhéu. Em primeiro lugar o apego à terra, este amor elementar que não conhece razões, mas impulsos; e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona intimamente com a grandeza do mar. (...) Meio milênio de existência sobre tufos vulcânicos, por baixo de nuvens que são asas (...) Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. A geografia, para nós, vale outro tanto como a história, e não é debalde que as nossas recordações escritas inserem uns cinqüenta por cento de relatos de sismos e enchentes (...)”.

Na obra “Os Emigrantes” de Domingos Rebelo, classificada como regionalista por retratar e valorizar as tradições populares, também encontramos fortes indícios de “Açorianidade” através da representação de um fenômeno social da época. Trata-se de uma cena muito comum para os açorianos que viveram entre os séculos XIX e século XX: famílias que se despediam de seus entes queridos no cais da Alfândega, confiando num futuro melhor a ser alcançado por meio da emigração.

O artista registrou elementos culturais das raízes açorianas como o traje popular, a viola da terra e a arquitetura local. Os personagens estão inseridos numa atmosfera de introspecção e aparente calmaria, refletindo o sentimento de incerteza gerado pela emigração.

A história das relações entre os Açores e o Brasil é permeada por sentimentos nacionalistas, estratégicos e afetivos, sedimentados ao longo de séculos por uma renovação humana e cultural advinda dos processos de colonização e de imigração.

Registro

Registros da vinda dos primeiros açorianos para o território brasileiro datam do início do século XVII e de acordo com informações do Arquivo Público Estadual: “o fluxo imigratório para o Espírito Santo iniciou-se em 1812 com a criação oficial da Colônia de Santo Agostinho (atual município de Viana) para onde foram enviados 250 açorianos entre os anos de 1812 e 1814”.

Desta forma, o ano de 2012, instituído como o “ano de Portugal no Brasil”, apresenta-se como de fundamental importância para o cenário cultural capixaba na celebração do “Bicentenário da Imigração Açoriana no Espírito Santo”, exaltando a contribuição dos imigrantes açorianos na história e na formação deste Estado.

Após 79 anos de instituição oficial do termo “açorianidade” por Vitorino Nemésio, o Espírito Santo inicia o registro de sua “açorianidade” por meio de um produto cultural que valoriza e divulga as tradições dos primeiros imigrantes que aqui se instalaram: o CD “açorianidade Capixaba”.

Este CD foi desenvolvido através da Secretaria Estadual de Cultura (Secult) e apresenta um repertório representativo do folclore açoriano com inserção de elementos da musicalidade regional capixaba. As faixas são interpretadas por vocalistas de destaque no cenário estadual (Amaro Lima, Idalina Dornellas e Nano Vianna) e conta com a participação de Tocata da Casa dos Açores de São Paulo na sonoridade fidedigna do folclore açoriano.

Está sendo finalizado neste mês de novembro, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2012 e será utilizado pelo grupo Folclórico Açoriano de Viana em suas apresentações. Contempla as principais preocupações contemporâneas de preservação da memória em consonância com as políticas culturais vigentes, com foco na preservação da diversidade étnica e cultural do país e na disseminação de informações sobre o patrimônio cultural brasileiro.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, 15 de novembro de 2011
Autor: Fabiene Passamani
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro de 2013



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