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Airemá e a Pedra do Oratório - Por Maria Stella de Novaes

Pedra do Oratório

Porque a Espanha não havia ainda estendido o poder do seu cetro à Terra do Brasil, o índio conhecia apenas um inimigo: — o invasor lusitano, que lhe tomara o domínio querido.

Existiam, em Vila Velha, nessa época, somente palhoças, que formavam o seu povoado humilde e obscuro, próximo da praia limpa, de onde se divisavam restingas inexploradas. Faltava ainda a Ermida das Palmeiras, no cimo do Monte, que dominava o Belo do panorama circunvizinho, em toda a limpidez do céu e exuberância da Natureza, tanto nos dias ardentes de Sol, quanto na plenitude das noites de luar.

Já se haviam passado os colonizadores, para a Ilha de Duarte de Lemos, quando um oficial português, de cabelos aloirados e olhos azuis, diferente dos demais habitantes, aventurou-se, uma tarde, a passear, na praia, a leste da povoação incipiente, — a Vila Nova, que surgia promissora. Palmilhava as areias daquela nesga solitária, conduzido, talvez, pela saudade da pátria, dos entes queridos, ou de um amor..., quem sabe?

Vulto feito de melancolia, chegara até as pedras, onde, posteriormente, se construiu o Forte de São João. Subiu a encosta e deteve-se imóvel, como presa de recordações, que o distraíram do maior perigo: o índio, oculto na floresta.

Inebriado, na beleza do crepúsculo, até hoje, singular, na Baía da Vitória, jazia indiferente ao descer das trevas e ao cintilar das estrelas, que pontilhavam o firmamento, quando se viu atirado violentamente ao solo, pela força de um gigante íncola, surgido, rápido, naquele desterro.

— Iria levá-lo à taba e devorá-lo, num festim canibal?

Perdera os sentidos, na violência de um soco. Antes, porém, de ser arrastado para a floresta, uma seta misteriosa prostrou logo o índio cruel. Varou-lhe, certo, o coração. Caíra sobre o corpo arquejante do lusitano.

Por quê?

Porque, de uma touceira vizinha, alguém estivera observando, às ocultas, o taciturno oficial, que passeava, na praia. Era uma goitacá bela e vigorosa, alma rústica e meiga, impressionada pela melancolia do homem estranho. Na contemplação, discreta e muda, sonhara com a felicidade, que somente o amor sabe fantasiar e fantasiara, mesmo um futuro venturoso, à guarda carinhosa do guerreiro branco. Por isso, vendo-o cair, dominado pela traição de um chefe da sua tribo, tomou logo do arco e livrou-o da morte.

Aproximou-se, depois, daqueles dois corpos, recostou o íncola morto, num tronco de sapucaia. Atirou três flechas, em direções diversas, para o cume do morro, num aviso talvez do que ocorrera. E logo, sopesando o corpo arquejante do jovem lusitano, desceu a escarpa, a fim de reanimá-lo. Banhou-lhe a fronte e os punhos, no mar. Pressentindo, porém, o aproximar-se da sua gente, certa de uma vindita, ergue aos ombros o branco, ainda aturdido, joga-se ao mar, para transpor o canal e chegar às fraldas do Penedo.

Assanhados, furiosos, perante o ocorrido, os índios farejavam as moitas, na sindicância aflitiva do autor daquela morte dolorosa, para a sua tribo. Faltava-lhes, porém, o rumo preciso, desfeito que estava, na areia, o rastilho denunciador. A preamar o destruíra.

Delineou-se, então, a dupla reação: — a dos colonos, que suspeitavam a morte do oficial, numa emboscada dos silvícolas; e a destes, certos do rapto da índia, pelos colonos. E o terror espalhou-se, na Vila Nova!

À guarda do Penedo, entretanto, reclinado num tapete de folhas secas, alimentado de frutos silvestres e água pura de uma grota, restabelecia-se o colono, surpreso, perante o que se lhe deparava: — aquela índia, humilde, cândida e amorosa, contemplava-o, ternamente, e cercava-o de cuidados, no âmbito estreito de uma palhoça!

Tentou reconstituir os fatos. Ensaiou andar... sair daquele ermo, daquela prisão... Levou a mão ao bolso e encontrou ainda o pequeno estojo. Continha a imagem de sua devoção. Mediante sinais, porém, ela avisou-o do perigo e impediu que se afastasse dali.

Distanciaram-se cautelosamente do mar. Em explorações, nas vizinhanças do Penedo, andaram... subiram, aqui, desceram, ali. Sorveram as delícias da Natureza, ou se aqueceram, à plenitude do Sol. E, assim, descobriram pequena furna, onde o branco se recordou dos velhos oratórios da sua Pátria. Ajoelhou-se. Rezou, com o fervor dos agraciados pela proteção celestial, enquanto, enleada, comovida, a índia procurava imitar-lhes os gestos e balbuciar algo, na elevação instintiva da alma humana, para o Infinito. Depois, naquela pequena gruta, sobre uma saliência natural, depuseram a pequena imagem de Nossa Senhora.

E, assim, aquelas duas almas chegaram a compreender-se: — ela, pela espontânea inclinação afetiva; ele, pela sinceridade, na gratidão. Ela, pela simpatia irresistível e doce piedade, que desarmaram o braço forte do íncola, perante a tristeza do branco; ele, admirado e reconhecido, pela bondade que se irradiava daquele coração selvagem! ... Resignou-se, por isso a viver, na sua palha, junto à sua adorada vigilante.

— Minha querida!...

— Airemá, — o meu nome, — explicou a goitacá, mediante gestos elucidativos.

— Airemá, sim, minha Airemá!

E, ali, à guarda do Penedo, formou-se mais um lar capixaba.

Ao relatar-nos essa lenda, alguém explicou-nos: — Por isso foi que o Tempo ordenou ao Vento que transportasse areia, poeira e outros elementos, a fim de que o Calor e a Água os consolidassem, na escultura natural da Pedra do Oratório.

(Parte desta lenda encontra-se, nos jornais da Biblioteca Pública Estadual).

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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