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Amylton de Almeida – Por Deny Gomes

Amylton de Almeida - Foto: ALES TV Assembléia

Amylton,

Pediram-me para escrever sobre você. Mas, um dia desses, alguém me disse que nunca havia lido nada seu, a não ser as críticas de cinema — o que já é muito e muito. É, porém, insuficiente para saber sua incrível capacidade de transformar em palavras a agonia e o êxtase da vida, sua expressão de amor pela humanidade, através da literatura. Esta cidade que você tanto amou (e, às vezes, detestou) precisa te ouvir — agora e sempre. Por isso, este espaço é seu:

* * *

"Este é o instante em que Vitória perde todas as suas características. Observe o menino de lábios abertos. Este é o instante em que o ramo de flores cai aos pés, enquanto a lua continua se movendo e o vento espalha o cheiro de manacá pela cidade. Este é o instante em que a Praça Costa Pereira se encontra deserta para sempre. Longe, muito longe daqui, o vento sopra. Este é o instante em que chove. Observe. Este é o instante em que o menino, de cabeça levemente tendendo para o lado do ombro direito, de olhos fundos e secos, tenta sorrir. Observe o olhar. Este é o instante em que se encaram. Este é o instante em que o vento abre as portas e as janelas da casa e bate a pitangueira de encontro ao portão. Observe. Este é o instante de madrugada para sempre." (Blissful agony, p. 63)

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"Por opção ou por condescendência, ele era amplo; a vida o atingia em milhares de detalhes; não escolhia, discernia aceitava tudo, desde que, juntando-se, esses detalhes o impelissem para alguma coisa muito forte que fizesse sentido. Nunca fazia: ele não cabia no mundo. Porque — sabia-o — possuía uma força desconhecida que não poderia nunca ser exposta através de palavras ou explicada através de imagens. Alguma coisa que o sustentava sob duas pernas. Claro, era atingido também por algumas premonições sobre o futuro. Começava sempre com a sensação de que já vivera tudo isso. Em seguida, erguendo a cabeça, para olhar estrelas, atingindo uma tristeza tão grande que adivinhava o pânico sugerido pela densidade do que acontecia agora." (A passagem do século, p. 76)

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"Eles não tinham qualquer tendência à disciplina. Eram simplesmente duas pessoas influenciadas pelo reino fantástico da desordem. Em dias de chuva e vento frio, permaneciam horas, sentados na cama, ouvindo discos, lendo, ouvindo a chuva batendo na janela, o vento levantando as cortinas, pensando sobre os mais significativos momentos e os mais bobos, além de frases ditas pela vida afora ou então encostando o nariz à janela, escrevendo 'eu te amo', em homenagem a pessoa alguma, no vidro úmido. Também em horas como estas, percebiam que a língua havia sido abolida em favor de gestos e atos, altruístas e infelizes implicitamente. Eles haviam nascido apenas para ocupar lugar, espaço e tempo ou então viver tantos anos de vida. E isto era tudo." (Autobiografia de Hermínia Maria, p. 179)

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"(...) de repente, sob a luz do fim do dia (entre violáceo e dourado) uma pessoa descobre no outono de Vitória que não existe passado, presente, futuro, outono, primavera. De repente, uma pessoa descobre que é eterna e que — portanto — aceitasse morrer sem constrangimento ou revoltas. De repente, uma pessoa aceita, de olhos fundos e secos. E esta será sempre a expressão que apresentará às exigências, acusações, crueldades e impasses de sua vida: o profundo espanto pelo fato de encontrar-se vivo para sempre." (A passagem do século, p. 58)

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"Existe uma outra coisa, além de amar as pessoas e as coisas? Não existe não." (Autobiografia de Hermínia Maria, p. 178)

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Os romances de Amylton de Almeida:

Blissful agony. 2a. ed. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1988.

A passagem do século. Vitória: Artenova/Fundação Cultural do Espírito Santo, 1977.

Autobiografia de Hermínia Maria. Vitória: Secretaria de Produção e Difusão Cultural/UFES, 1994.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Deny Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

Personalidades Capixabas

Roberto Carlos

Roberto Carlos

Os cachoeirenses, pelo menos a maioria, cultivam um sentimento de orgulho em relação às “coisas da terra”. Demonstrações exageradas de apreço à terra natal são um traço característico de muitos dos nascidos em Cachoeiro.Há razões históricas que justificam o bairrismo. O município sempre exerceu uma centralidade política e econômica no sul do estado do Espírito Santo. Além disso, revelou ao mundo nomes de destaque nas artes entre os quais ninguém menos que o “rei” da música popular brasileira, Roberto Carlos, o sabiá da crônica, Rubem Braga, o eterno cafajeste Jece Valadão, o “maldito” Sérgio Sampaio.

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