Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Anchieta e Balleur – Por Levy Rocha

Padre José de Anchieta

No Rio, na Bahia, em São Vicente, em São Paulo, no Espírito Santo, foi, sem dúvida, extraordinária a vida do venerável Padre José de Anchieta. Catequista, gramático, poeta, teatrólogo, enfermeiro e médico dos índios, vida de grandeza e glorificação. Para exaltá-la na História, são inúmeros os biógrafos.

Há, porém, um episódio que empana e obumbra a auréola do Santo. Explorado pelos protestantes, contestado com veemência pelos mais ardorosos anchietanos, é assunto de pesquisas e controvérsias. O episódio é narrado pelos próprios historiadores jesuítas: Frei Vicente do Salvador; Simão de Vasconcelos; Sebastião Beretário e outros.

Dois pesquisadores modernos se ocuparam de esmiuçar o assunto em livros: Álvaro Reis, com o volume publicado no Rio, em 1917: "O Martyr Le Balleur" e Vicente Themudo Lessa, com: "Anchieta e o Suplício de Balleur", editado em 1934, em São Paulo.

Rocha Pombo, Robert Southey e João Francisco Lisboa, verberaram o fato, aceitando-o como verdadeiro, porém outros, não menos acatados, como Capistrano de Abreu, Cândido Mendes de Almeida e Celso Vieira, negaram-no, à luz dos documentos existentes, relegando-o ao domínio da lenda e da gratuita malquerença ao grande taumaturgo. Ele assim se resume: Jacques Le Balleur, ou Jean de Bolleur, também apresentado com outros nomes, pregador huguenote, versado no espanhol, no latim, no grego e no hebráico, muito instruído nas escrituras, tornou-se herege e receioso de ser castigado por Villegaignon, fugiu do Rio para São Vicente.

O herege calvinista, observa Frei Vicente do Salvador, na sua "História do Brasil", "vinha, com suas palavras, a morder algumas vezes na autoridade do Sumo Pontífice, no uso dos sacramentos, no valor das indulgências e na veneração das imagens". Foi, por isso, preso e condenado.

No suplício, teve a assistência do Padre Anchieta.

Pensava o padre haver convertido o herege e como o inexperiente carrasco tardasse na execução do huguenote, Anchieta, temendo perder os esforços e sucesso daquela conversão de última hora, industriou o algoz na maneira mais rápida e segura de desempenhar o ofício de carrasco.

Realidade ou invencionice, episódio incontestável ou lenda, verdade é que tão grande e admirável se tornou a vida do taumaturgo do Novo Mundo que ela não se transforma com esse episódio.

A exéquias dos catecúmenos que levaram, ao ombro, com impressionantes lamentações, o corpo de Anchieta de Iriritiba para ser enterrado no Colégio dos Jesuítas, em Vitória, é bem uma consagração.

Ao exalar o piedoso jesuíta o último suspiro, a 9 de junho de 1597, tal qual como no conto de Eça de Queiroz, "Frei Genebro", "um grande anjo conduziu-lhe a alma, parando entre uma refulgência ascendente e a escuridão inferior: entre o Purgatório e o Paraíso". E, como os índios do cortejo fúnebre, exclamaria: Niposii! Niposii! (não pesa! não pesa!).

"Apareceram dois imensos pratos duma Balança e o que rebrilhava como diamante, reservado às suas Boas Obras, começou a descer, calmo e majestoso, espargindo claridade. Como uma montanha de neve, alvejavam magnificamente as suas virtudes evangélicas. Subitamente, porém, no alto, o prato negro oscilou como a um peso inesperado que sobre ele caísse e começou a descer duro, temeroso, — e parara em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. No fundo daquele prato que inutilizava um santo ..." figuraria o suplício do herege calvinista Le Balleur.

Como ainda no Conto de Eça, a mão de Deus, na estática mudez, lançaria um gesto que repelia, indicando para a alma do Padre Jesuíta a escuridão do Purgatório.

É difícil imaginar-se a extensão do Calendário do Além; ela pode durar uma eternidade, todavia, os quatro séculos passados seriam bastantes para redimir o Santo do Brasil. Aguardemos a sua canonização.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

Folclore e Lendas Capixabas

O Tesouro de Caçaroca – Por Maria Stella de Novaes

O Tesouro de Caçaroca – Por Maria Stella de Novaes

A foz do Marinho, onde entrou e foi subindo... subindo, até que, no lugar chamado Caçaroca, submergiu toda a imensa riqueza

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Outros tempos – Por Pedro Maia

Por onde andam os tipos populares que em outros tempos enfeitavam de maneira pitoresca  as ruas da cidade?

Ver Artigo
Festejos de Vila Velha - Por Edward Alcântara

Lembro da “Lapinha” de origem pernambucana, aqui introduzida nos fins do século XIX pelo Desembargador Antonio Ferreira Coelho, grande incentivador dos festejos canela verde de então

Ver Artigo
São Benedito do Divino e de Reis – Por Seu Dedê

Atualmente, em Vila Velha, Leonardo Santos (Mestre Naio) e a Mônica Dantas, conseguiram restabelecer os festejos de São Benedito

Ver Artigo
Festas Juninas – Por Seu Dedê

Vila Velha comemorava as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro, respectivamente nos dias 13, 24 e 29 de junho

Ver Artigo
A Festa Do Divino – Por Areobaldo Lellis Horta

Foi na povoação de Jacarandá, município de Viana, hoje Jabaeté, que vi pela primeira vez uma bandeira do Divino Espírito Santo

Ver Artigo