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Anchieta e Balleur – Por Levy Rocha

Padre José de Anchieta

No Rio, na Bahia, em São Vicente, em São Paulo, no Espírito Santo, foi, sem dúvida, extraordinária a vida do venerável Padre José de Anchieta. Catequista, gramático, poeta, teatrólogo, enfermeiro e médico dos índios, vida de grandeza e glorificação. Para exaltá-la na História, são inúmeros os biógrafos.

Há, porém, um episódio que empana e obumbra a auréola do Santo. Explorado pelos protestantes, contestado com veemência pelos mais ardorosos anchietanos, é assunto de pesquisas e controvérsias. O episódio é narrado pelos próprios historiadores jesuítas: Frei Vicente do Salvador; Simão de Vasconcelos; Sebastião Beretário e outros.

Dois pesquisadores modernos se ocuparam de esmiuçar o assunto em livros: Álvaro Reis, com o volume publicado no Rio, em 1917: "O Martyr Le Balleur" e Vicente Themudo Lessa, com: "Anchieta e o Suplício de Balleur", editado em 1934, em São Paulo.

Rocha Pombo, Robert Southey e João Francisco Lisboa, verberaram o fato, aceitando-o como verdadeiro, porém outros, não menos acatados, como Capistrano de Abreu, Cândido Mendes de Almeida e Celso Vieira, negaram-no, à luz dos documentos existentes, relegando-o ao domínio da lenda e da gratuita malquerença ao grande taumaturgo. Ele assim se resume: Jacques Le Balleur, ou Jean de Bolleur, também apresentado com outros nomes, pregador huguenote, versado no espanhol, no latim, no grego e no hebráico, muito instruído nas escrituras, tornou-se herege e receioso de ser castigado por Villegaignon, fugiu do Rio para São Vicente.

O herege calvinista, observa Frei Vicente do Salvador, na sua "História do Brasil", "vinha, com suas palavras, a morder algumas vezes na autoridade do Sumo Pontífice, no uso dos sacramentos, no valor das indulgências e na veneração das imagens". Foi, por isso, preso e condenado.

No suplício, teve a assistência do Padre Anchieta.

Pensava o padre haver convertido o herege e como o inexperiente carrasco tardasse na execução do huguenote, Anchieta, temendo perder os esforços e sucesso daquela conversão de última hora, industriou o algoz na maneira mais rápida e segura de desempenhar o ofício de carrasco.

Realidade ou invencionice, episódio incontestável ou lenda, verdade é que tão grande e admirável se tornou a vida do taumaturgo do Novo Mundo que ela não se transforma com esse episódio.

A exéquias dos catecúmenos que levaram, ao ombro, com impressionantes lamentações, o corpo de Anchieta de Iriritiba para ser enterrado no Colégio dos Jesuítas, em Vitória, é bem uma consagração.

Ao exalar o piedoso jesuíta o último suspiro, a 9 de junho de 1597, tal qual como no conto de Eça de Queiroz, "Frei Genebro", "um grande anjo conduziu-lhe a alma, parando entre uma refulgência ascendente e a escuridão inferior: entre o Purgatório e o Paraíso". E, como os índios do cortejo fúnebre, exclamaria: Niposii! Niposii! (não pesa! não pesa!).

"Apareceram dois imensos pratos duma Balança e o que rebrilhava como diamante, reservado às suas Boas Obras, começou a descer, calmo e majestoso, espargindo claridade. Como uma montanha de neve, alvejavam magnificamente as suas virtudes evangélicas. Subitamente, porém, no alto, o prato negro oscilou como a um peso inesperado que sobre ele caísse e começou a descer duro, temeroso, — e parara em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. No fundo daquele prato que inutilizava um santo ..." figuraria o suplício do herege calvinista Le Balleur.

Como ainda no Conto de Eça, a mão de Deus, na estática mudez, lançaria um gesto que repelia, indicando para a alma do Padre Jesuíta a escuridão do Purgatório.

É difícil imaginar-se a extensão do Calendário do Além; ela pode durar uma eternidade, todavia, os quatro séculos passados seriam bastantes para redimir o Santo do Brasil. Aguardemos a sua canonização.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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