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Anchieta - Última jornada à Vitória e o Funeral

Ante Capa do Livro:Anchieta – 2ª edição revista e ampliada, 1930 - Autor: Celso Vieira

Joseph tornou ainda á Victoria, quasi moribundo, por obediencia a um desejo do superior, comquanto os padres de Reritigbá e de Guarapari, ouvidos pelo enfermo, lhe desapprovassem a fornada, que suppunham fatal. "Padre Jeronymo, dizia elle a um dos companheiros, estou determinado em ir para a villa, porque não quero deixar exemplo aos moços de pouca obediência, e que se diga que, sendo eu desta edade, deixei exemplo menos bom". Como os índios chorassem á despedida, presentindo-lhe a morte, Joseph tranqüilisou os seus amigos selvagens: "Fiquem ahi contentes, que ainda nos hemos de tornar a ver nesta vida".

Conselheiro da casa do Espírito Santo, não tardou que assumisse de novo o governo, por determinação do provincial, aguardando o novo superior, Pedro Soares, durante cinco ou seis mezes. Anchieta previra o encargo, aliás, na aldeia de Reritigbá, como testemunhou o padre Braz Lourenço. E a lenda continua a envolver-lhe amorosamente o perfil no mesmo nimbo. Com o toque da sua o elle salva o amigo João Soares; prophetisa a uma devota o regresso do marido, ha oito annos ausente; escrevendo a um padre Companhia; que lhe mandara da villa sumptuosa de Olinda, sem nomear o doador, certa esmola destinada aos pobres da casa do Espirito Santo, adivinha o nome do grande esmoler, Christovam Paes. A sua derradeira prophecia, em Victoria, foi a da entrada de um navio com o trigo e o vinho, que faltavam aos moradores, até aos sacerdotes para o holocausto da missa.

Emfim, chegando á Victoria o novo superior, Pedro Soares, voltou Anchieta a Reritigbá pela ultima vez. No adeus carinhoso a João Soares despedia-se do mundo: "Filho meu, ficae-vos; jamais nos communicaremas nesta vida; ainda que vós me haveis de tor­nar a ver neste mesmo sitio, será em tempo que vos não poderei falar."

O seu regresso á aldeia foi celebrado pelo choro dos indios, cujas lamentações echoam na dor e no prazer com egual retumban­cia. Durou-lhe tres semanas, então, a vida bruxoleante, ainda sorridente á propria agonia, sem um queixume. Tanto podia nelle o-amor ineffavel do proximo, que uma noite se ergueu do leito, espectralmente, seguiu até á cosinha, tropego e tacteante, para aviar o remedio a outro enfermo. Os ultimos passos nocturnos do santo eram de caridade christã. Exanime e frio, elle cahiu de repente no chão, como um lírio desfeito por uma rajada. Foi para a cella em braços, pediu com anciedade o Viatico. Cinco sacerdotes oravam, ajoelhados á cabeceira. E na algidez crescente de todo o corpo a agonia quieta e suave do bemaventurado era como um celeste murmurio, em que se exhalavam com a propria vida os nomes de Jesus e de Maria. Assim expirou Joseph de Anchieta num domingo, nove de junho de 1597, com 63 annos de edade, sendo 46 de religião,destes 44 vividos apostolicamente no Brasil.

Um brado repercutiria, propagando-se a noticia, desde o planalto brumoso aos sertões adustos. Os lamentos das tribus amigas, evangelisadas pelo missionario em 44 annos de peregrinações, desvelos, sacrificios, combates, os seus prantos barbaros como seus cantos de guerra encheriam as selvas, abalando-as, com o mesmo impeto dos vendavaes. Cahira o grão-pagé dos christãos, emmudecera a grande voz, que havia protestado nas origens brasileiras, em nome da liberdade, contra a velha oppressão do homem pelo homem.

Alçada a cruz, processionalmente, os índios de Reritigbã levaram-lhe o corpo fechado em uma caixa de cedro até á villa de Victoria, por uma distancia agreste de 14 ou 15 leguas, indo com elles o padre João Fernandes, revestido de alva e estola. Nesse pequeno feretro, leve como um berço, repousava meio seculo de heroicidade christã. Por intercolumnios, labyrinthos, arcarias, degraus tapetados de musgo, através das florestas, ia descendo e echoando o sequito. Guerreiros bronzeos, carpideiras semi-nuas, piás ingenuos lamentavam o eclipse daquella força miraculosa. Na camara ardente do occaso, longe, dir-se-ia que a hora vesperal gottejava sangue... Depois, ao anoitecer, o cortejo seguia entre massas, que eram troncos, phantasmas, que eram palmeiras, vultos colossaes e montanhosos, denteadas boccas de caverna... Ouvia-se a espaços o coaxar dos batrachios, um grito de ave nocturna varando a solidão, o choro de alguma fonte occulta nas mattas, sob o limo das pedras carcomindas. Penoso era o caminho de tantas leguas, mas não sentiam fadiga ou somno os caminhantes. Ramos em flor pendiam sobre o ataude, exhalando o perfume silvestre. A passagem de um rio, em canôa, cessou a furia das ondas na presença do corpo de Anchieta, e sobre o leve despojo, symbolicamente, resplandecia o Cruzeiro do Sul.

Quando o feretro chegou á Victoria, houve muito alarido em todo o povo, no dizer dos chronistas. Vieram ao porto recebe-lo o capitão da terra, Miguel de Azeredo, o prelado administrador, Bartholomeu Simões Pereira, o clero, os franciscanos, os irmãos da Misericordia, com o apparato das suas andas, as confrarias de todas as egrejas com os seus lumes erguidos. Aberto ao sol o ataude, por instancias de João Soares, quatro dias após o fallecimento, nenhum odor se evolava do corpo inanimado, mas incorrupto. Seguindo a procissão até á porta do templo, construido pelos jesuitas, ahi foi guardado o feretro para as exequias de tres nocturnos. Bartholomeu Simões fez no dia seguinte, depois da missa cantada, o elogio sacro de Anchieta, dizendo-lhe a vida, lembrando aos fieis "o Missionario Santo, o Bemaventurado, o Apostolo do Brasil". e essas palavras refloresceram no espirito das novas gerações.

Os religiosos deram sepultura ao catechista, emfim, junto de Gregorio Serrão, como elle predissera: "Vade, frater, non longa enim dies nos loco conjunget." Pela ultima vez, na terra, encontravam-se os dous amigos. Mais tarde, vasio das suas relíquias o tumulo de Anchieta, sobrepoz-lhe a piedade uma lapide commemorativa.

Joseph, o thaumaturgo, exalçado por decreto de 10 de agosto de 1736, quando o papa Clemente XII lhe reconheceu, em grau, heroico, as virtudes theologaes e cardeaes, ainda não sahiu do Vaticano para os altares, do processo de canonisação para a magnifi-cencia da liturgia e do calendario. Através dos seculos, porém, vibra na mesma lenda selvagem, como na mesma gloria christã, o culto de Anchieta, pobre e inutil Joseph, santificado pela consciencia de um povo.

Realisações economicas, scientificas e militares compõem orgulhosos, mas precarios systemas nacionaes, frageis colossos de egoísmo e vaidade, pesando ephemeramente sobre a terra, se os não aviventa e consolida a chamma espiritual. Vinculado á formação historica do povo brasileiro, o Evangelho perdura em toda a sua idealidade renovadora de energias e aspirações, através do jesuitismo anchietano, como se faz dynamica social para os Estados Unidos, através do puritanismo colonisador.

A sciencia não pode trazer senão o domínio sobre as cousas externas, o conhecimento directo, mas fragmentario, dos phenomenos e das suas relações, a valorisação do nosso estreito mundo objectivo. Sotopondo o ephemero ao eterno, o limitado ao incommensuravel, só a ideia religiosa nos dá o sentimento do mysterio universal, aperfeiçoando o homem interior, transcendendo a natureza humana em dous amores sublimes — o de Deus e o do pro ximo. Radiações activas da força omnipotente, que tudo eleva, Manuel da Nobrega e Joseph de Anchieta, Leonardo Nunes e Aspilcueta Navarro, Antonio Pires e Affonso Braz, Salvador e Vicente Rodrigues, Ignacio de Azevedo e Luiz da Gram, Pedro Corrêa e João de Souza, tantos outros lumes da Companhia de Jesus, perfis aureolados, clareiam ainda os nossos dias, fulgindo no ápice vida colonial. Quanto mais se humilhava nelles o pó, mais a fé os engrandecia para o nosso culto. Se um povo incapaz de consagrar os humildes, como já foi escripto, é um povo moribundo, na consagração do heroismo e da humildade, attributos immortaes dessas effigies, remoça o Brasil com esperança e belleza.

Visitando as plagas tropicaes, onde os sacrificios humanos obscureciam o seu deslumbramento, a alma evangelica fundou a urbs latino-americana para maior gloria de Deus, ad majorem Dei gloriam, interpretada a legenda cosmica da Ordem num alto e puro sentido. Ensinou a lei, transmittiu a luz. Deu alicerces moraes á familia inculta, á sociedade informe.

Os primeiros jesuitas foram acolhidos na Bahia "á maneira de anjos vindos do ,céo", e o mesmo prestigio celeste envolveu, depois disso, os que vieram nas expedições de 1550 e 1553. É que esses allumimados traziam comsigo as palavras candentes da fé, os dons excelsos do saber e da arte. Com elles aprenderam os filhos da terra a lavrar o solo, fundir os metaes, erguer columnas e altares, possuir lettras e numeros; delles receberam não só a agua do baptismo, como tambem o fogo do espirito nos santuarios, nas escolas, nas officinas.

A transcendente ficção dos emissarios ideados pelo mysticismo deSchelling, architectos e semeadores, anjos e mestres, foi com Anchieta e os seus irmãos uma realidade social para as origens bra-sileiras no seculo XVI — epilogo do nosso mundo selvagem, preludio da nossa vida christã.

 

Autor: Celso Vieira
Fonte: Anchieta – 2ª edição revista e ampliada, 1930
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2014 

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