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Anchieta - Origem e formação do Apóstolo

Padre José de Anchieta - Santo do Brasil

A 19 de maio de 1435, Lope Garcia de Lazcano, chefe da Casa de Loiola, e Martin Pérez de Emparan, em companhia de parentes de ambas as famílias, se aliam em trégua com juramento. Volta-se tal aliança contra os Anchietas. "Otrosi, porquanto muchas veces por experiencia — explicam eles —, sin aver una causa de division e discordia de entre los dichos solares, ha sido la casa de Anchieta. . ." Seus componentes, "queriendo trabajar porque entre nosotros no aya concordia, e en especial ai presente Lope de Anchieta, Martin González su hermano e Martin Martínez de Anchieta su tio estan divisos de los dichos solares de Loyola y Empa-ran y ponen división cuanto pueden..."

Caracterizadas as razões da luta, prosseguem: "Por ende otorgamos..., por nos y nuestros herederos y por nuestros solares y parientes, que ninguno o alguno de nos ni ellos no podamos tomar ni tomemos a los dichos Lope de Anchieta y Martin González e Martin Martínez ni aiguno dellos em nuestras treguas ni en otro negocio ni comienda alguna, para los ajudar ni defender, ni les facer outro parentesco de ajuda y deferimiento".

Bem poderosos deviam ser então os Anchietas de Urres-tilha, para assim atrair contra si as iras conjugadas de duas grandes casas de Parientes Mayores da Guipúscoa. E todavia, seis anos depois, vamos encontrar, no testamento de Lope Garcia de Lazcano, de 1441, na menção que aí faz de seus filhos, o nome de Urtayzaga de Loiola, casada com Martin Garcia de Anchieta. Foram os pais de João de Anchieta, o músico, chantre da Capela Real, de Pedro Garcia de Anchieta e de Maria López de Anchieta.  A essa mesma geração pertenceu, sem dúvida o avô paterno de Anchieta, natural do Vale de Urrestilha.

Em 1467, como um dos fiadores da instituição do morgado de Loiola, feita por ocasião do casamento de Beltrão de Oñaz com Marina Sáenz de Licona — os pais de Santo Inácio de Loiola —, uma das testemunhas é Martin Martinez de Anchieta. No documento original vinham citados vários outros Anchietas, que infelizmente não foram nomeados pelo pesquisador dos cartórios vascongados, o Pe. Leonardo Cros, S. J. Por onde se vê, nota expressamente o mesmo historiador francês, que as duas famílias, Loiolas e Anchietas, viveram quase sempre em boas relações de amizade. Dois outros casamentos, aliás, vieram entrelaçá-las em parentesco.

Os Anchietas fazem parte do bando de Oñaz, oposto ao de Gamboa. Onhacinos e Gamboínos se disputavam o predomínio político nas Províncias Vascongadas. Vivendo a poucos quilômetros do Castelo de Loiola, no Vale de Urrestilha, dificilmente os Anchietas se poderiam esquivar a uma tal sujeição política, nota Adolfo Coster, num livro aliás bastante criticável Anchieta et la famille de Loyola (Paris, 1930), no qual historia a séria desavença, que se armou em Aspêitia entre João de Anchieta, o músico, pároco de São Sebastião de Soreazu, e seu primo Martim Garcia de Loiola, o irmão mais velho de Santo Inácio, chefe da casa dominante no lugar.

Fidalgo, oriundo do Vale de Urrestilha, Província de Guipúscoa, nas Vascongadas, filho de Lope de Anchieta e Maria de Ayala declara-se, em documentos oficiais, o pai do Venerável Padre José de Anchieta. Nova documentação do Arquivo de Simancas, aduzida pelo historiador espanhol Pe. Francisco Mateos, S. J., identificá-lo-ia com João López de Anchieta, condenado à morte como um dos chefes da revolta dos Comuneros, mas anistiado, graças à missão pacificadora do Capitão Inigo de Loiola. O nome e as datas coincidem. Explica-se, além disso, que tenha emigrado então para as Canárias.

 Na capital dessas ilhas, Cidade de São Cristóvão da Laguna, onde se estabeleceu no ano de 1522 e exerceu diversos ofícios públicos, veio a casar-se no ano de 1531 com a viúva do Bacharel Nuno Nuñez de Villavicencio, D. Mência Diaz de Clavijo y Llarena, filha de Sebastião de Llarena, parente próximo de conquistadores de Tenerife, e de sua esposa Ana Martin de Castillejo. Por seu avô materno, vinha a ser José de Anchieta bisneto, outrossim, de "cristãos novos" (isto é convertidos do judaísmo) do Reino de Castela. Tais antecedentes justificam sua ida mais tarde para Coimbra.

Das treze ilhas, outrora denominadas pelos Romanos Insulae Fortunatae, e que constituem o arquipélago geograficamente africano das Canárias, a mais bela e maior é a de Tenerife. Disputadas entre Portugal e Espanha, durante os séculos XIV e XV, foram cedidas definitivamente à Espanha, em 1479, pelo Tratado de Alcáçovas. Tenerife foi conquistada aos Guanches, seus primitivos habitantes, em 1496, por Alonso Fernández de Lugo. Seu clima ameníssimo se alia ao pitoresco dos acidentes naturais. Salientam-se o Pico de Teide, de 3.710 metros de altitude, que nada mais é que a cratera de um vulcão extinto, e o verdejante Vale de Orotava.

Nascido a 19 de março de 1534 em São Cristóvão da Laguna, fez José na cidade natal seus primeiros estudos, cursando provavelmente as escolas dos padres dominicanos, não muito distantes de sua casa, ainda hoje existente, na Praça Maior, agora "del Adelantado". Aos 14 anos, em 1548, foi enviado, em companhia de seu irmão mais velho por parte de mãe, Pedro Nuñez, depois sacerdote, a matricular-se no Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra e então reorganizado por Dom João III com excelentes professores. Diogo de Teive foi ali seu mestre principal.

José era o terceiro de dez irmãos do segundo matrimônio de sua mãe. Com mais dois do primeiro, eram doze ao todo. Deles o último, Cristóvão, foi também sacerdote. Melchior, ido para o México, lá faleceu em 1567, em Jalapa. Bartolomeu, o penúltimo, teria perecido combatendo nas guerras de Flandres. Duas de suas irmãs, Teresa de Celayarán e Beatriz, faleceram igualmente solteiras. Os demais, a saber Gregória, do primeiro matrimônio, Ana, João, Gaspar e Baltasar, foram casados, deixando regular posteridade. Com sua irmã Teresa, paralítica, se correspondeu alguma vez Anchieta, sendo provincial.

Em Coimbra se distinguiu ele desde logo entre os melhores alunos de sua classe, possuindo grande facilidade para a poesia latina, razão pela qual lhe deram os colegas o apelido, alusivo igualmente à sua pátria, de "canário de Coimbra". Ali veio a conhecer a nova Ordem religiosa, fundada por seu parente Inácio (ou Ínigo) de Loiola. Educado por seus pais no fervor da piedade cristã e havendo prometido em voto a Deus, diante do altar de Maria SSma. na velha Catedral de Coimbra, perpétua castidade, empolgou-se com os ideais missionários da Companhia de Jesus, para ela entrando a 1 de maio de 1551.

Como noviço, prosseguiu no Colégio das Artes seus estudos, já então de Filosofia. Ajudando pela manhã, na capela de seu próprio colégio, a cinco, seis e até dez missas diariamente, em jejum e com o máximo fervor de espírito, contraiu por esse esforço uma grave moléstia e teve de recolher-se, no ano seguinte, à enfermaria, interrompendo os estudos. Como conseqüência lhe resultou irremediável defeito na espinha dorsal, deformidade de que ele será mais tarde o primeiro a gracejar. Mas então temeu ser, por incapaz, despedido da vida religiosa.

"Dessa doença a causa não parece ter sido uma só", opina o seu biógrafo Sebastião Beretário, que é quem mais se estende na explicação do assunto. "Penso que de tão pertinaz moléstia não foi causa unicamente essa lesão dos ossos, senão que teria esse mal vindo agravar de muito outra afecção mórbida desconhecida". À luz dos conhecimentos atuais, isso que para Beretário poderia ter sido uma causa, seria pelo contrário um dos efeitos dessa afecção mórbida desconhecida. Tratar-se-ia de um caso de tuberculose ósteo-articular, localizado na coluna vertebral. Não há, todavia, unanimidade entre os estudiosos do assunto.

Permitindo esse mal e a irrecusável omissão, devida a uma falha mais de visão certamente que de vontade, dos responsáveis pela saúde do fervoroso adolescente, preparava a Divina Providência um resultado de maior importância para o Brasil: "Por estes meios — escreve Quiricio Caxa -, quis o Senhor nesta terra transplantar esta generosa planta, onde desse muito mais excelente e copioso fruto, do que pudera dar em Portugal, inda que tivera perfeita saúde. E assim para bem de muitos, veio em companhia de Padre Luis da Grã, no ano de 53".

Dentro da precária medicina da época, tudo fizeram os médicos para lhe restituir a saúde. Esforços baldados. Acabaram por sugerir que talvez o clima do Brasil, de que corriam informações a mais favorável lhe fosse propício. Hesitando o superior, Pe. Miguel de Torres, em mandá-lo para tão longe naquelas condições, solicitou espontaneamente Anchieta ser enviado ao Novo Mundo. Desejava no que lhe restasse de vida, consagrar-se à catequese das crianças indígenas. Com ele vieram outros seis jesuítas, quase todos doentes como ele. Todos realmente sararam.

Dos companheiros dessa leva missionária, de que vinha por superior o Pe. Luis da Grã, e com ele mais dois sacerdotes, Brás Lourenço e Ambrósio Pires, sabem que os demais, quem mais, quem menos, era doente. Blásquez padecia dores de cabeça, que em Portugal lhe dificultavam os estudos. Serrão, de enfermeiro que fora, estava então reduzido a mal poder consigo. O próprio superior não andava bem de saúde em Portugal e continuou a sofrer enfermidades no Brasil.

De João Gonçalves testemunha Grã, em carta de 27 de dezembro de 1554: "sua disposição por graça do Senhor... foi sempre em aumento, vindo ele do reino sem remédio humano de saúde". Dele escreve ainda o autor da Quadrimestre da Bahia, de janeiro de 1557: "Serve tão bem o Pe. João Gonçalves como o Irmão José em São Vicente, porque ausentes permite o Senhor que nisto se conformem, assim como no colégio [de Coimbra], quando eram enfermos e companheiros, todo o tempo que estiveram juntos se conformaram em santos exercícios e conversação" .

Para despertar-lhe, e aos companheiros, o generoso desejo de pedir a destinação do Brasil, alguma coisa devem ter influído as cartas, daqui enviadas para Coimbra pelos primeiros missionários: "A informação que destas partes lhes posso dar, padres e irmãos caríssimos — escrevera Nóbrega em agosto de 1549 — é que tem esta terra mil léguas de costa, toda povoada de gente... É terra mui húmida pelas muitas águas que chovem em todo o tempo mui a miudo, pelo qual as árvores e as hervas estão sempre verdes e por esta causa é a terra mui fresca. Em partes é mui áspera, por causa dos montes e matos, que sempre estão verdes .

"Similham os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de raz tão belo". "Mas é de grande maravilha — acrescenta ainda Nóbrega em carta de 10 de agosto desse mesmo ano ao Doutor Navarro — haver Deus entregue terra tão boa, tamanho tempo, a gente inculta que tão pouco o conhece, porque nenhum Deus tem certo, e qualquer que lhes digam ser Deus, o acreditam, regendo-se todos por inclinações e apetites sensuais, que está sempre inclinada ao mal, sem conselho nem prudência".

Quando já no ocaso da existência, relembre os motivos de sua vinda ao Brasil, é a esses míseros selvagens que aponta como causa principal de ter abandonado a Europa, para vir experimentar as privações de um mundo bárbaro... Assim escreve ele a 6 de dezembro de 1595 ao Pe. Inácio Tolosa: "E ordenou Nosso Senhor que eu acompanhasse ao Pe. Diogo Fernandes nesta Aldeia de Reritiba, para ajudar na doutrina dos Índios, com os quais me dou melhor do que com os Portugueses; porque àqueles vim buscar ao Brasil e não a estes. E já poderá ser queira a divina Sapiência que acompanhe ao mesmo padre em alguma entrada ao sertão a trazer alguns deles ao grêmio da Igreja. E pois não mereço por outra via ser mártir, ao menos me ache a morte desamparado em algumas destas montanhas ubi ponam animam meam pro fratribus meis".

 

Fonte: Anchieta – O apóstolo do Brasil, 2ª Edição, 1980
Autor: Hélio Abrantes Viotti
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2014

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