Anotações a respeito de Frei Pedro Palácios

Editor: Roberto Abreu - publicada: 01/04/2013

Frei Pedro Palácios

Nasceu em Medina do Rio Seco, na Espanha, perto de outra cidade maior, Medina Del Campo. Ambas hoje são cidades turísticas e perto da famosa Salamanca. Tudo isso fica na região do Vale do Rio D’Ouro que corre em direção à Portugal e desemboca na cidade do Porto.

Sempre houve grande interligação com o norte de Portugal por esse importante rio desde o tempo de Frei Pedro, sendo que a cidade natal fica perto de Valadalid, onde morreu Cristóvão Colombo.

A família Palácios sempre foi de destaque na Espanha e mais recentemente divulgava-se que havia uma ministra de sobrenome Palácios.

Na época de Frei Pedro, a Ordem Franciscana com suas várias ramificações fazia sucesso, estava em crescimento, tanto assim que hoje é uma das maiores do mundo no seio da Igreja Católica. Ele era do ramo dos Alcantarinos e seguiam a regra de Pedro de Alcântara. Frei Pedro acabou indo para um convento em Portugal, na Serra da Arrábida, perto de Lisboa, onde esses frades viviam em rigorosa penitência.

Frei Pedro trabalhou também num hospital em Lisboa ajudando no que fosse possível. É bom frisar que ele nunca fora ordenado sacerdote, não rezava missa e nem perdoava pecados. Ele era irmão leigo, categoria que muitas ordens religiosas tem em seus quadros até ainda hoje e que ajudam nas atividades meio. Eles dão catecismo e quando autorizados, batizam (o que Frei Pedro andou fazendo por aqui).

É bom lembrar que em Alenquer onde consta que Vasco Fernandes Coutinho tinha um sítio, havia um convento franciscano, daí um fato que pode ter animado a Vasco Fernandes Coutinho Filho ir a Pernambuco tão logo soube que franciscanos haviam chegado em Recife, para convidá-los a vir para o Espírito Santo, o que logo começou a acontecer já na gestão de sua sucessora, sua viúva Luiza Grinalda.

Outro fato importante é que Frei Pedro havia vindo sozinho para o Brasil, e era o que se chamava de missionário volante. Ele tinha estado na Bahia atuando em conjunto com os jesuítas.

Frei Pedro ainda em Portugal havia tido um sonho que quis realizar, que foi de erigir uma ermida no alto de um morro perto do mar e na América, e justamente o que o motivou a vir e concretizar o ideal que acabou dando-se em Vila Velha no alto de um morro entre muitos, encimado com uma pedra tendo ao seu redor uma mata, com algumas palmeiras nativas.

Mais outro esclarecimento é que pelos padrões da época, ele já era idoso e aqui jamais construiria um convento, tanto assim que a Ordem Franciscana só decidiu pelo início do Convento da Penha, de fato em 1650 numa reunião havida na Bahia, cerca de 80 anos após a morte de Frei Pedro.

Não haveria condições para Frei Pedro quando aqui chegou em 1558 trazendo o painel de Nossa Senhora das Alegrias, com a sede da capitania já funcionado havia 7 anos em Vitória, iniciar uma empreitada faraônica para a época e construir o Convento no alto de um morro que era acessado por trilha escorregadia no meio da mata. Há documentos franciscanos que explicam como ocorreu a construção do Convento por décadas e séculos sucessivos tendo o auge no século XVIII com reconstruções inclusive.

Pelo Concílio de Trento na linha da Contra Reforma da Igreja Católica, a partir de 1540 os padres não podiam ler a Bíblia, salvo se autorizados pelo Bispo. A maioria dos padres eram pouco letrados, usavam de missas e catecismos da doutrina cristã para as pregações e ministrarem os sacramentos. Os irmãos leigos eram alfaiates, carpinteiros, enfermeiros, cozinheiros e exerciam outros ofícios auxiliares muito importantes e até ajudavam nas atividades de evangelização.

Frei Pedro não deixou uma linha escrita ou não foi guardada. Em sua época a liderança religiosa no Brasil estava nas mãos dos Jesuítas, dinâmica ordem recém fundada por Inácio de Loiola. Aqui, Frei Pedro no máximo com o pouco tempo que dispunha ao meio de tarefas de catequese que assumia desenvolver não só em Vila Velha, mas para o lado de Cariacica por exemplo, conforme há documentação, no máximo conseguiu fazer uma choupana onde é hoje a Capela de São Francisco no Campinho e um oratório entre duas palmeiras no alto da Penha, daí o nome Ermida das Palmeiras. Anchieta esteve no Estado do Espírito Santo entre 1553 e 1592 (quando faleceu) e portanto, conviveu com Frei Pedro que por sua vez, morreu ao que tudo indica, em 1570.

Os ossos de Frei Pedro e algumas relíquias, como parte de sua batina, foram certa época enterrados na Ermida das Palmeiras onde seus amigos continuaram com a devoção à Nossa Senhora, sendo que aos sábados vinha um frade de canoa do Convento de São Francisco de Vitória, fazer as celebrações.

É bom lembrar que nesse meio tempo, Luiza Grinalda havia doado para os franciscanos a colina de São Francisco em Vitória, e eles tinham vindo em 1589 aproximadamente a convite do finado marido. O Convento de Vitória então é bem mais velho que o da Penha.

Como a Ermida das Palmeiras não estava ainda com destinação certa, os jesuítas estavam interessados em administrar seu movimento religioso e é claro, as rendas. Os Franciscanos seguindo tradição de manter seus irmãos de ordem enterrados onde funcionavam na incerteza da posse da Ermida, levaram as milagrosas relíquias para um túmulo no Convento de São Francisco em Vitória, por volta de 1609 – 1610.

Mais à frente, como a então capitania do Espírito Santo ficara sob a jurisdição da Prelazia do Rio de Janeiro (embrião da atual Arquidiocese do Rio), lá, amigos de Frei Pedro entraram com pedido de canonização cujo processo foi aceito pelo 1º Bispo D. Bartolomeu Simões Pereira, jesuíta, que andara muito pelo Espírito Santo no tempo de Anchieta (presidiu seu sepultamento em Vitória em 1597). Pelo fato de ser dado início ao processo de canonização automaticamente Frei Pedro passou a ter “status” de venerável.

O processo sumiu e inclusive cópias. Talvez no Seminário de São José onde fica o arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro seja encontrado. No Vaticano, o Cardeal Saraiva fez busca infrutífera a meu pedido no final do século XX (tenho documentos).

A ordem franciscana pelos revezes que sofreu, também perdeu os dados. Nada impede que a causa seja retomada.

Por volta de 1920 o Padre Leandro Del’Uno, ao reformar o desativado Convento de São Francisco na Cidade Alta em Vitória, demoliu o túmulo de Frei Pedro Palácios e na ossada deve ter sido misturado a todos os ossos do cemitério referido do Convento numa cova comum, que ficou sob o pátio de estacionamento existente onde há coluna encimada com imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da província franciscana a que o Espírito Santo pertence, sediada em São Paulo.

Justamente na capital paulista, é que no século XVII decidiu-se que era com os franciscanos que ficaria a Ermida das Palmeiras e não com os jesuítas. Esse documento é fonte primária importante e só a partir dele é que a ordem decidiu em reunião feita nas Bahia, em construir o Convento da Penha (no início pequeno alojamento onde hoje ficam perto do sanitário público, num porão onde ocorrem exposições de presépio).

O Outeiro da Penha fora doado no mesmo “pacote” pela então Governadora Luíza Grinalda (exerceu mandato entre 1588 até 1592), que o fez para os franciscanos em Vitória.

A decisão havida em São Paulo encerrando a disputa da Ermida das Palmeiras, na certa reconheceu a doação feita pela Luiza Grinalda.

A Festa da Penha pertence ao ciclo anual das festividades da Páscoa, e os fiéis em peregrinação subiam a colina fazer as “desobriga” e pagavam promessas.

Com as doações, o movimento da Ermida que ficava onde hoje é o altar –mor do Convento foi crescendo e, de um pequeno oratório entre duas palmeiras, foi aumentando.

Seu formato passou a uma construção abobadada com varanda ao redor, onde circulava a procissão com a imagem da Santa.

Essa imagem consta que Frei Pedro mandara vir de Portugal e inaugurara na Festa da Penha de 1570, pouco antes de falecer.

Ermida se refere à igrejinha em lugar ermo, solitário, silencioso, de pouco movimento e ideal para meditações e religiosidades, enfim, um espaço contemplativo onde o homem procura se religar a Deus.

Cabe a nossa geração passar às futuras essas tradições, enriquecidas com pesquisas aprofundadas, tais as que os franciscanos fizeram a partir de 1942 quando retornaram para a Penha a convite do então Bispo da Diocese do Espírito Santo, D. Luiz Scortegagna.

 

Fonte: Roberto Brochado Abreu. Membro da Casa da Memória de Vila Velha, 2005

 

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