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Aos Mestres, com carinho

Bonde na curva do Clube Saldanha da Gama

Sou de uma geração que teve o privilégio de vivenciar os acontecimentos mais marcantes deste século e de poder dar uma contribuição importante para a democracia brasileira.

E pensar que tudo começou nos bancos escolares! Primeiro, na Escola Brasileira, sob orientação de dona Odete de Oliveira Lacourt, mestra de reconhecido saber, e, em seguida, no Colégio Estadual, quando ingressei em 1956.

A ilha de Vitória, sua pequena população e o casario antigo no Centro, davam um ar provinciano à cidade, quebrado pela presença de estrangeiros que desembarcavam de navios atracados no porto.

O prédio do Colégio Estadual ficava na avenida Capixaba, onde hoje está instalada a Escola de Artes Fafi. Só dois anos depois, mudou-se para o Forte São João. No aterro da avenida Beira Mar, em execução, a quantidade de areia era tão grande que tínhamos a sensação de estar andando no deserto.

No Colégio, a recepção aos alunos era feita pelo inspetor-chefe, “Seo” Arabelo do Rosário. Sua maneira suave de falar cativava a todos. O ingresso no curso ginasial ampliou não só nossos conhecimentos, como o leque de amizades, inclusive com alunos que vinham do Colégio Marista, de Vila Velha – amizades que se mantêm até hoje.

O corpo docente era constituído por profissionais do mais alto gabarito. A eles devo minha formação intelectual, moral, ética, acrescidas da educação recebida de meus pais.

As aulas de Canto Orfeônico eram ministradas no salão do Colégio, cujo piso era de madeira. Lembro-me bem de dona Ricardina Stamato, sentada ao piano tentando tocar o Hino Nacional: Os alunos batiam com os pés no chão para acompanhar o ritmo da música com tal força, que era impossível continuar a aula antes de seguidas repreensões.

Luiz Paixão, professor de Inglês recém-chegado dos EUA, fazia o maior sucesso com um radinho de pilha plugado no ouvido e suas gravatas exóticas, novidades para a época.

Já as aulas de Francês, o professor Francisco Generoso exigia que decorássemos um “livrinho” com 400 verbos franceses. E agora vejo como valeu a pena aprender línguas estrangeiras para melhor me comunicar com o resto do mundo.

As perguntas da prova de Química chegavam com antecedência, pelo telefone, através dos alunos do Colégio Americano, onde o professor Jacob Ayoub também dava aula.

Depois que o Estadual mudou-se para o Forte São João, o transporte mais utilizado era o bonde. A campainha de entrada para as aulas tocava às 7h10m da manhã. O bonde partia superlotado na Praça Costa Pereira às 6h50m. Quando chegava na curva do Saldanha ficava parado algum tempo para que o cobrador pudesse receber a passagem de todos.

É claro que os mais sabidos ficavam no estribo, na parte de trás, e saltavam ali mesmo, descendo a pé a ladeira do Forte São João até o Colégio. Certa vez, Reynaldo Leal – hoje pediatra – foi saltar antes da hora, levou uma queda e quebrou o braço. Foi a passagem mais cara que ele já pagou.

As viagens de bonde do Estadual ao Centro eram sempre muito alegres, embora curtas. No ponto do Mercado da Capixaba costumava descer o Juanito, que pesava quase 100 quilos. Certa vez alguém gritou: “Para aí motorneiro que vai descer um piano”. Para surpresa geral e constrangimento dos mais sérios, em lugar de Juanito, aparece D. Ricardina. Não houve quem pudesse contar uma gargalhada.

As aulas de Educação Física no Colégio eram um verdadeiro suplício para a turma. Imaginem, Vasco Alves ou Pedro Jantorno – o Baleia – tendo que dar duas voltas correndo em torno do campo de futebol do estádio Governador Bley!

Como eu sempre pratiquei esportes, era escolhido pelo professor Edgar para servir de guia. Ai de mim se acelerasse o ritmo – estava arriscado a levar uns cocorotes depois da aula.

A escada do Colégio era um convite à tentação. Na época o uniforme das garotas era saia cáqui e blusa azul, Não se usava calça jeans. Na volta do recreio os garotos “num gesto de cavalheirismo”, deixavam que as damas subissem primeiro e ficavam estrategicamente localizados em baixo da escada, mesmo porque, se ocorresse “algum acidente” nos degraus, estariam preparados para acudir.

Comecei a praticar remo no Clube de Regatas Saldanha da Gama em 1959, quando ainda estava em obras o Ginásio Wilson Freitas. Lembro que, em 1960, saía de casa, na Cidade Alta, às 5 horas da manhã, ia a pé pelo aterro da avenida Beira Mar. Não havia vivalma nas ruas e enquanto caminhava, apreciava a beleza do mar, os navios no cais de minério de Paul, o Pela-Macaco.

O manguezal atrás do Penedo, no canal de Aribiri, era ainda virgem, a população inexistente. Botos e tainhas conviviam enquanto gaivotas mergulhavam nas águas claras em busca de alimento. É bem verdade que, vez por outra, manchas de óleo dos navios surgiam na superfície, mas nada que preocupasse.

Vitória ainda era uma cidade pacata, em que todos se conheciam e se respeitavam, em que a televisão ainda não tinha uma influência tão grande nos costumes e valores, em que a violência era mais marcante nas telas dos cinemas e não na realidade do dia-a-dia.

Na ocasião, a União Atlética Ginasial do Espírito Santo (Uages) já era extremamente atuante. A prática esportiva era bastante intensa e a disputa dos jogos escolares, muito aguerrida. As bandas das escolas também competiam entre si no desfile de 7 de Setembro. Os alunos se sentiam muito orgulhosos em tocar na banda marcial.

Encontramo-nos mais tarde nos bancos da Universidade, na conturbada década de 60. Alguns se auto-exilaram em outros países; outros, voltaram ou aqui permaneceram, ajudando na conquista da democracia e da liberdade. Ocupando cargos públicos ou atuando na iniciativa privada, continuam sonhando com a utopia. Os que seguiram a carreira de jornalista vão registrando nas páginas dos jornais as memórias do passado.

Mil e uma histórias poderiam ser contadas por esta geração privilegiada, Quarenta anos se passaram. Colégio Estadual do Espírito Santo, berço onde nasceram e se formaram cidadãos que carregam consigo o que de melhor tiveram na sua juventude.

Obrigado aos mestres de ontem, de hoje e de sempre, que semeiam nas salas de aula o futuro do país.

 

Livro: Colégio Estadual – 90 anos educando, 1996
Autor: Vitor Buaiz
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2012 

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