Foi chefe dos índios temiminós e personagem de realçada importância na expulsão dos franceses do Brasil, no século XVI.
Diz sua história que “Cobra Feroz” atravessou a baía da Guanabara com uma tocha à boca, nadando silenciosamente, de maneira a surpreender os franceses. Após atear fogo ao paiol dos invasores, desamarrou a tanga e tocou-se para o Espírito Santo, destinado a virar herói consagrado em estátua.
A concepção da homenagem foi de Carlo Crepaz, escultor italiano radicado em Vitória, e fez-se em bronze, no tamanho natural, a figura de um índio retesando um arco com flecha. Nada mais justo, pois Araribóia fora reconhecido pela própria Coroa Portuguesa, que o agraciou com o título de Capitão-mor de sua aldeia; além disso, convertido ao catolicismo e batizado com o nome de Martin Afonso Araribóia, o cacique temiminó receberia o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo.
Entretanto, se naqueles tempos de luta contra franceses e tamoios, índios aliados ao invasor, Araribóia teve tanto reconhecimento — principalmente do padre jesuíta José de Anchieta, seu confessor, e, representando a Coroa, renderam-lhe perene homenagem Mem e Estácio de Sá, o donatário capixaba Vasco Fernandes Coutinho e o velho Governador Geral Martin Afonso —, nos tempos de estátua o herói brasileiro foi condenado ao desprezo.
Antes a estátua apontava para a baía, e ficava entre o Penedo e o Forte de São João. Depois, com a inauguração da avenida Beira-Mar, foi parar no depósito da prefeitura de Vitória. Foi preciso que o compositor Júlio Alvarenga encarnasse a revolta popular com a marchinha de carnaval “Bota o Índio no Lugar” (Bota o índio no lugar / ele quer tomar banho de mar. / Bota o índio no lugar / ele é da avenida Beira-Mar...), cantada à exaustão pelos foliões, em 1963, para que as autoridades assentassem o índio no velho reduto. Mas isso só duraria até o fim da década de 70, quando a estátua foi exilada na Enseada do Suá.
Novamente precisou que a opinião pública flechasse a insensibilidade dos governantes, e Araribóia voltou às proximidades de seu velho posto — hoje fica escondido, no tumulto de uma pracinha transformada em estacionamento de automóveis. O pesquisador Willis de Faria contou todas as agruras do herói brasileiro no livro Catálogo dos Monumentos Históricos e Culturais da Capital.
E o compositor e poeta capixaba Jair Amorim, que muito viveu no Rio de Janeiro, terra em que batalhou Araribóia, não esqueceria de reclamar da desdita concedida na terra capixaba ao herói. No livro Canto Magro, diz o poema Estátua de Araribóia: “...tocou-se para o Espírito Santo / com saudades da taba / e foi ser ruela sem importância / num mercadinho medíocre / da avenida Capixaba. / Entretanto, em Niterói, / ergueram-lhe uma estátua grandiosa / por onde eu passo e vejo o brônzeo herói, / olhar firme, / braços cruzados / atitude majestosa / estático fiscal do movimento das barcas. / Como conterrâneo, olhando-o nesses instantes / meu pensamento é vulgar e instantâneo: / — Com guerra ou sem guerra / ninguém é profeta em sua terra....”
E assim é a antropofagia capixaba, especializada em devorar os talentos da taba. Até que não sobre osso. Mas até quando?
Fonte: Coração Ilhéu - Adilson Vilaça.
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