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Artes - Por Renato Pacheco

Levino Fanzeres

Aula de canto orfeônico. Os alunos inquietos, porque não gostam de cantar os hinos costumeiros. A professora Ricardina Stamato da Fonseca e Castro é uma virtuose no piano. Abre o instrumento, acomoda-se no banquinho e começa a execução de “Num mercado persa” de Albert W. Ketelbey. Num instante, faz-se o silêncio. No salão abafado entram cameleiros, mendigos, princesas e escravos, encantadores de serpentes. Chega o califa. Mendigos lhe pedem esmolas. Motivos melódicos vão se apagando, à distância a caravana se vai, o mercado fica vazio...”

É o único momento, na aula de canto, em que os alunos ficam quietos. Obrigados, por sugestão de Villa-Lobos a participarem do Orfeão Escolar, exibem-se, sob a direção do rotundo maestro Ernesto Strobach alunos do Estadual, Escola Normal, Carmo e Americano. Cantam o “Hino ao sol do Brasil” e o “Despertar” de Lucile Guimarães Villa-Lobos, “Nozaniná”, canção dos índios parecis, recolhida por Roquete Pinto, “Epigramas matinais”, “Noite de junho” e “Marcha triunfal”, este com letra de Cassiano Ricardo e música todas de Lorenzo Fernandez, “Madrigal ingênuo” de Mozart, arranjo de Ceição de Barros Barreto, “Brasil unido” de Domingos Margarinos e Plinio de Brito, “Brasil eterno”, de Aires de Andrade e Abdon Lyra, e o mais famoso texto de todos, a “Canção da Minha Terra”, com música do maestro Henrique Vogeler e letra de Ciro Vieira da Cunha.

A música era, sem dúvida, das artes, a mais cultivada.

Havia a Sociedade Musical do Espírito Santo, fundado pelo maestro major Álvaro Coutinho em 16 de dezembro de 1932, que tocava composições genuinamente capixabas de Lucia DeBiase (a “Sinfonia do Canaã), já executada no Teatro Municipal do Rio), Manoel Machado e Arnulpho Mattos. Esta sociedade viveu até 1937 graças aos citados e a Emílio Trinxet e tinha sede na rua Cais de São Francisco, A banda de música da Polícia Militar, fundada em 13 de setembro de 1850 e a do 3º Batalhão de Caçadores, fundada em 15 de setembro de 1932, davam famosas retretas no Parque Moscoso e se apresentavam nas festas religiosas de maior importância.

Quanto à música popular, Osmar Silva cita o famoso maestro Clóvis Cruz, cujo filho Carlos lhe segue os passos, que veio para Vitória, em novembro de 1935 para o City Club, cassino e casa noturna do famoso mafioso Arnaldo Bereco, e se fixou na cidade, comandando grandes orquestras nos clubes. Em 1936, num concurso carnavalesco, ficou famosa a marcha “Oba” de Moacir Araújo. Também de se assinalar a estada de Noel Rosa, em Vitória, com o conjunto de Benedito Lacerda, “Gente do Morro”, do Rio de Janeiro (Benedito Lacerda na flauta, Russinho no pandeiro, Canhoto no cavaquinho, Coringa cantor e músicas de Noel Rosa). Consta que o conjunto voltou para o Rio e Noel Rosa permaneceu em Vitória por causa de uma namorada secreta, uma jovem da “alta” ou uma mundana, segundo as duas versões correntes.

Mas, o elegante mesmo, especialmente para as senhorinhas, era “tocar piano”, complemento de uma educação esmerada.

Áurea Adnet excede as demais mestras, neste campo. Já em janeiro de 1931, recém-saída do Instituto Nacional de Música, aluna que fora de Luciano Gallet, ela ofereceu concerto ao povo, no Teatro Glória, com renda destinada à Liga Econômica Redentora, objetivando pagar a dívida externa. Os alunos escolhiam o curso Luciano Gallet, fundado em 28 de abril de 1932, da exímia musicista. Estudavam em piano Brasil, afinado por Raul Giudecelli. Entre suas revelações podemos citar Carminha Adnet, Elisa e Sônia Berriloni Vello, Guilherme Quintaes e Ynesmara Pereira Franco. Os alunos faziam apresentações periódicas, sendo que a primeira do curso Luciano Gallet foi no Hotel Majestic, em 10 de maio de 1933. Em 1937 eram suas alunas Yeda Figueiroa, Quelinha Lindenberg, Dinorah Passos, Maria Bobbi, Alzira Neto Goulart e Elza Rabelo.

Outros que com maior êxito, também ensinaram piano foram Ilca Vieira da Cunha, Maria Durano, Ricardina Stamarto da Fonseca e Castro (principais alunos), as irmãs Neida e Letícia Moraes, Maria José e Carolina Câmara, os irmãos Luiz Carlos e Anidracir, filhos da maestrina, Ida Barbieri, Cecília Araújo e Ilza Pereira Dalla.

Em 7 de julho de 1932 exibiu-se em Vitória a não menos famosa pianista patrícia Guimar Novaes e em 7 de julho de 1938, a famosa soprano Bidu Sayão, que foi saudada pela estudante Cora Lins.

Família conhecida pelo número de pianistas era a Jesus, da rua Graciano Neves, onde eram professores ou executantes as irmãs Oneida, Olga e Odete, e o irmão Joel.

As manifestações teatrais, no período, são mínimas. Oscar Gama relembra 23 apresentações de apenas cinco autores, sendo que em 1930 só foi representada a peça “Filhos do Brasil”, de Virginia Tamanini, assim mesmo em Itapina, interior do Estado; em 1931, duas revistas de Ciro Vieira da Cunha; em 1937, 1938 e 1939, doze peças de Ernesto da Silva Guimarães; em 1939 mais uma peça de Tamanini; em 1940, uma peça de Ernesto Guimarães; em 1941, uma de Kosciuszko Barbosa Leão e outra de Ernesto Guimarães; e em 1943 duas peças de Américo Guimarães Costa.

O grande arquiteto capixaba era Moacyr Fraga, mas morava no Rio, intervindo de quando em quando, a convite, nos projetos de reurbanização de Vitória. Aqui, firmavam plantas Radagásio Alves, Norberto Madeira da Silva (Betinho) e alguns práticos.

A única manifestação de escultura conhecida é a de Aldomário Pinto, sobre o qual falaremos adiante, com uma “Cabeça de Cristo”, atualmente na coleção de Léo Ribeiro, e as grutas da Santa Casa e do Palácio.

O grande pintor capixaba do período é Levino Fanzeres (1844-1956), o primeiro capixaba a alcançar prêmio de viagem à Europa e fama nacional. Morava no Rio e fazia frequentes exposições em Vitória, preferindo para fazê-lo o Grupo Escolar Gomes Cardim.

Álvaro Conde (1898-1968), premiado com a medalha Levino Fanzeres do 1º Salão de Artes Capixabas, se destacou por retratar a natureza. Produziu mais de mil telas, retratando o Porto das Pedras, a cachoeira do Funil, o Convento da Penha.

Aldomário dos Santos Pinto (1901-1974) pertenceu à Colmeia de Artistas de Levino Fanzeres, tendo participado da Exposição Nacional do Centenário. Lindolfo Barbosa Lima, estudante da arte do Espírito Santo, considera principais telas de Aldomário Pinto “Ruínas na estrada”, “Barco em repouso”, “Vivenda poética”, “Mochuara”, “Mau tempo”, “Sensitiva em flor”, “Portão em arco”, “Sensação na atmosfera”.

Seu filho João Batista também se distingue como pintor com “Entardecer”, “Contraste”, “Bordadeira”, “Paredão”, “Ao pé da montanha”, “Fazenda do Jirau”, “Auto-retrato”, e “Sinfonia dos verdes”. Incluiu, também, entre nosso pintores Homero Nascimento e Alcebíades Ghiu.

Houve dois salões capixabas de Belas Artes, um em 1937, outro em 1939, ambos patrocinados pela Casa do Estudante Capixaba. Oséas Leão, ilustrador das duas revistas locais, disse, na ocasião: “Possuímos talentos capazes de imortalizar, na tela, as belezas incomparáveis de nossa terra, seus usos e seus costumes.”

Foram expostos, no 2º Salão, quadros de Levino Fanzeres, Álvaro Conde, Oséas Leão, Ocinha Leão, Leonor Bortezzi, Alvino Pinto, Onélio Santos, Aldomário Pinto, Nair Buaiz, Aelson Trindade, Luiz Fraga e Eduardo Aguilar, doze artistas que só foram admirados por 21 visitantes, o que fez o jornalista concluir que para a pintura “falta incentivo do público”.

 

Fonte: Os dias antigos, 1998
Autor: Renato Pacheco
Compilação:Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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