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As lendas da Barra do Jucu

Igreja Nossa Senhora da Glória na Barra do Jucu, construída em 1913 - Foto: Mônica Boiteux, 2013

Quanto às lendas e mitos barrenses, que são importantes registrar e que anotamos em nossas entrevistas, estão meio apagadas, mas se mantém na lembrança das pessoas. Essas histórias estão muito relacionadas com o meio ecológico, econômico e social, que sofreu grandes mudanças. A reprodução dessas histórias foi prejudicada, por não terem a antiga base para se perpetuarem e se formularem novas histórias.

Eu ainda consegui registrar algumas dessas histórias coletadas nas entrevistas realizadas:

Maria Luiza Valadares me fala de um pote de dinheiro escondido pelos jesuítas na Igreja da Barra e que, segundo ela, foi encontrado em um sítio que ainda existe ao lado dessa Igreja.

Kleber Galvêas fala de um grande tesouro da Catedral de Lima no Peru, que piratas teriam enterrado no Morro da Concha. Um francês chamado Charles Baffet veio procurá-lo. Abriu a cratera, que se vê hoje entre os dois morros na concha, à procura do dito tesouro, cavando com mangueira de alta pressão e pá mecânica. Ninguém sabe se ele achou ou não. Parece que não. Terminou a vida como pintor em Domingos Martins.

Dona Darcy afirma ter visto, numa certa vez, um lobisomem comendo uns caranguejos que havia preparado. E que sua mãe, Bernardina, indo fazer lenha no mato, no dia de São Humberto Laneu, 24 de Agosto, dia em que os demônios estão à solta, viu um negrinho do mato que jogava toda a lenha fora. No final voltou sem um pau de lenha. Disse também ter visto a pomba do Divino Espírito Santo voar da bandeira, após ser tocada por uma pessoa mal vista na comunidade.

Dona Zilda Santana, moradora há mais de 40 anos às margens da lagoa de Jabaeté, forneceu uma grande variedade dessas histórias, que dão base para a gente decifrar a vida que essas pessoas levavam. Entre essas citamos:

- A bola de fogo que saía à noite do meio da lagoa de Jabaeté (um tio meu, engenheiro, Gilberto Galvêas, afirmava tê-la visto).

- O caboclinho do rio, que virava as embarcações dos canoeiros no Rio Jucu.

- Da tentativa de drenagem da Lagoa de Jabaeté, que ao cavar-se nela um canal ligando-a ao Rio Jucu. Ao invés da água dela ir para o rio, a do rio que veio para ela, confirmando a possível ligação, no passado, da lagoa com o mar.

- Da caravela com quilha de bronze, naufragada na lagoa de Jabaeté, e que duas juntas de boi tentaram tirar, mas não conseguiram.

- Da mulher gigante das matas de areia. Entre várias outras.

Seu Alceste, pescador, já ouviu, por duas vezes, de madrugada, lá no Morro da Concha, o choro de um bebê.

Seu Chiquinho conta que as paredes de uma casa de estuque, que estava sendo barreada no dia do filho de São Benedito (Jesus), ruíram por duas vezes seguidas, em castigo pelo dono ter debochado do santo, dizendo que preto não tinha vez, que não guardaria seu dia. Acabou desistindo. No dia seguinte, o barreamento não deu problema.

Corre uma crença de que, quando um barrense morre, sua alma vira uma garça branca.

Estas histórias estão extremamente ligadas ao meio em que as pessoas vivem. Cada sociedade tem os seus mitos e eles servem para tentar decifrar seus anseios e temores. De uma forma geral, parece que nessa batalha entre a cultura local e a “globalizada” (internacionalização) não dá para dizer quem está ganhando. É claro que existem concessões inevitáveis de ambos os lados, nos momentos de grande pressão, mas a cultura local ainda se mantém em bom nível, por sua diversidade e capacidade de resistência. Não há assim um vencedor declarado nessa luta, nem parece que vai haver. A Barra vai continuar a ser um ótimo lugar para se morar. Assim sugere sua rica história.

A cultura resiste utilizando-se de algumas mudanças atuais, subvertendo-as em seu benefício. Vale-se da divulgação pelos meios de comunicação e pelos artistas que a valorizam. Entrando assim no próprio mercado, utilizando-se dele. A homogeneização da cultura mundial encontra ainda grandes barreiras na comunidade da Barra do Jucu, que é muito criativa.

Então, ao mesmo tempo em que as mudanças no meio ecológico, econômico e social influenciam a cultura local, as mudanças nesta cultura influenciam inversamente nas transformações deste meio, apelando à conservação das nossas riquezas naturais e para uma boa qualidade de vida da população.

 

Fonte: A História da Barra do Jucu, 2005
Autor: Homero Bonadiman Galvêas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 

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