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As Modas – Por Areobaldo Lellis Horta

Família Aerobaldo Lellis, em Santos, 03.04.1930

Diz um velho rifão que as modas vêm e vão, significando este aforismo que elas não se eternizam. A observação, no tempo e no espaço, revela que não se perpetuando, elas também não se repetem. As modas foram, a princípio, ditadas pela França de uma forma absoluta. De lá os seus figurinos partiam, impondo-se a todos os meios civilizados dos países ocidentais. Depois a Inglaterra compareceu perante o mundo, na tentativa de espalhar as modas, sobretudo ao tempo de Eduardo VII, o qual teve usado por muita gente o talhe de ternos. Depois os Estados Unidos lançaram, na indumentária masculina, a calça de boca larga, que se impôs como novidade e utilidade, facilitando os movimentos da marcha. A moda se estendeu, neste particular, às forças navais de quase totalidade das nações. Em tais contingências, não nos foi também possível fugir aos imperativos das mesmas, à medida que chegavam. Não sendo, contudo, duradouras, elas se foram, modificando-se com o tempo, tanto a feminina como a masculina.

Em seu interessante trabalho sobre os costumes capixabas de sua época, o padre Antunes de Siqueira se ocupava das modas em ambos os sexos, sendo que daquele tempo, anterior a 1880, nada ficou, não se repetindo, nem nos dias de minha infância e juventude nem no presente. Assim, ninguém mais viu um cidadão vestido à Luiz XV nas grandes solenidades, nem uma senhora ostentar a "coifa", tanto em uso nos tempos da mocidade daquele sacerdote.

Ao tempo de minha meninice, as modas já eram outras, variando, no sexo feminino, das senhoritas para as senhoras. Casando-se, a moça modificava logo sua toalete, passando a usar, em vez de blusinhas soltas ou vestidos inteiros, longas e largas batas abertas em rendas, de preferência feitas à mão, e que lhes emprestavam um tom especial à linha da elegância. Vila Velha possuía uma indústria especializada em rendas manufaturadas, sendo comum as rendeiras sentadas à tardinha, às suas portas, na faina das almofadas, dos bilros e dos alfinetes, na confecção dos mais variados tipos da de bico, e do entremeio. Em Vitória existiam as casas das mestras, onde se ensinavam os traçados das linhas para a feitura das rendas.

O espartilho dava as linhas do porte às senhoras e senhoritas. Era uma peça do vestuário, armada em longas barbatanas um tanto flexíveis atacada na frente por uma série de fortes colchetes e atrás, munidas de longos cordões, que o apertavam, de cima a baixo, enchendo o busto e comprimindo o ventre. Existia ainda a anquinha, pequeno travesseiro, que descia sobre os quadris, dando-lhes melhor conformação principalmente às pessoas magras. Os vestidos eram longos, caindo a saia até o peito do pé, apresentando ligeira cauda, emprestando às damas e "demoiselles" um porte senhoril. Traziam eles mangas compridas, não se acompanhando de decotes. O corpinho dava conformação ao busto, substituindo o atual "soutien". Usava-se também a saia de baixo, a anágua das nortistas, peça terminando por larga roda de rendas, em entremeio ou bico.

Variava a moda do penteado entre o topete avança, alto e em semi-círculo acima da testa, tendo a armá-lo uma peça flexível e levíssima, a que denominavam bucha; o turbante, em meio à cabeça, de regra postiço, e os cachos soltos, caídos sobre as costas, sempre um, jogado para frente, descansando sobre o ombro. O calçado era meia-bota, de atacar ao lado ou de cordões, e o sapato, de entrada baixa e de polimento.

Mais para adiante, as batas e os vestidos de cauda desapareceram, surgindo os vestidos até os tornozelos, estreitando para baixo, de modo que, ao subir um lugar mais alto, como o estribo de um bonde, a perna se deixava ver até o joelho. O espartilho foi, depois, substituído pela cinta elástica e a anquinha não mais se exibiu, o corpinho cedeu lugar ao soutien; o uso do chapéu veio modificar os penteados e a echarpe apareceu, dando certo chique à cabeça feminina.

Vieram depois duas outras modas que não alcançaram êxito. Foram o "Devam droit", vestido que, pela disposição que lhe dava a cinta elástica, emprestava às senhoras e senhoritas uma atitude de quem ia cair para frente, e os "sans dessous", vestido colante, exigindo apenas "soutien" e calça.

As viúvas não aliviavam o luto, trajando sempre de preto, sendo alvo de comentários as que se afastassem desse hábito.

A indumentária masculina sofreu, também, os efeitos da evolução.

Assim não se viam mais nas solenidades a roupa à Luiz XV, de calças afiveladas à altura do joelho. A sobrecasaca substituía esse vestuário. Preta, era usada com calça do mesmo padrão ou de casimira listrada com colete preto ou de cor. Era a sobrecasaca uma peça larga e comprida descendo abaixo dos joelhos.

O "croisé" era uma variedade da sobrecasaca, mas justa ao corpo, O não indo além dos joelhos e de uso comum e diário.

Mais tarde, uma e outra acabaram por desaparecer, ficando apenas os paletós. Começaram, então, a dominar os fraques e os "smokings," os primeiros usados a qualquer momento e os segundos para as solenidades noturnas, ao lado da casaca. Nas cerimônias à tarde, exigia-se fraque preto, colete fantasia, calça de casimira listrada, botinas de polimento e cartola de feltro: à noite, casaca e "smoking". Os ternos eram de fato ternos, com as três peças, calça, colete e paletó, deixando mais tarde de usar-se o colete. As calças eram estreitas, passando a alargar-se, depois que os figurinos americanos começaram a trazer as de boca larga, sendo os paletós justos e cintados.

Tais as modas há meio século atrás até os primeiros anos do atual.

Pessoas posam nas janelas e portas na Vitória de antigamente.

 

Antes do mais

 

O presente trabalho, com o qual concorro ao prêmio "Cidade de Vitória", instituído pela Lei Municipal n°. 20, de 8 de setembro de 1946, é um modesto subsídio ao estudo do desenvolvimento da nossa Capital, em suas condições urbanísticas, métodos educacionais de ordem cultural e social, de costumes e tradições ao tempo de minha infância e juventude.

Se valores intelectuais do passado, como padre Antunes de Siqueira, Daemon, Afonso Cláudio e outros de idênticos assuntos se ocuparam para o conhecimento dos vindouros, o fizeram em relação às mesmas épocas de sua juventude. Deixaram, por isto, uma solução de continuidade compreendendo as duas últimas décadas do século dezenove e a primeira do século vinte. É essa lacuna, que pretendo preencher despretensiosamente, com o que a memória me conservou daquela fase de minha vida. Procurando realizá-lo, não posso fugir ao dever de uma homenagem ao berço da nossa evolução - Vila Velha — onde passei parte da minha meninice e à qual a Vitória está presa por uma série de caras circunstâncias, homenagem representada nas crônicas que dão corpo a este trabalho pelo que a seu respeito escrevi.

Vitória, junho de 1951

O AUTOR

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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